inferências
Contigo aprendi a amar o sentido da palavra LIBERDADE
À Maria Rosa Colaço
Por António Sousa Pereira
Acordei. E senti que devia escrever estas palavras para ti minha irmã. Hoje, 19 de Setembro, data em que festejarias 73 anos de vida.Escrevo e penso que Portugal parece, afinal, que te esqueceu.
Este país que te ergueu tantas vezes em gestos de amor e amizade.
Este país que fez de ti bandeira de resistência, contra o silêncio amordaçado.
Escrevo para te dizer que gostava de ir, hoje, ao Torrão, depositar uma rosa no campo alentejano, onde tu abraças as papoilas. E, afinal, não vou.
Talvez porque a noite está adormecida nos meus olhos e sinto o luar penetrar pela escuridão, sim, talvez por essa razão, acordei, e sentei-me aqui, a escrever estas palavras que fervilham no meus nervos.
Penso em ti, minha irmã de sorrisos.
Penso em ti, minha irmã da memória.
Recordo os muitos instantes que partilhamos nos dias desta vida, tão curta e efémera, aqui, onde todos os deuses, são apenas deuses enquanto os homens os inventam.
Recordo como partilhei as tuas palavras – a criança e a vida – transportando naquelas páginas toda a paixão dos dias, os sonhos e um forte desejo de AMOR e LIBERDADE, num tempo em que estas palavras, eram palavras proibidas.
Sonhei contigo, por dentro dos teus sons escritos.
Sonhei contigo tanta esperança, tanta vontade de mudar o mundo.
Mal sabia, então, que um dia irias cruzar-te no meu caminho e chamares-me “poeta” e “irmão”.
Mal sabia, então, como um dia, naqueles dias que eu vagueava entre os livros, em dias perdidos de esgotamento da esperança, ali, o teu beijo e o teu olhar, foram uma lufada de ar fresco, abrindo a porta ao sol que, apesar de tudo continuava a mover-se, por dentro dos meus nervos e dos dias.
Hoje, muitas vezes, naqueles momentos de cansaço dos dias, naqueles momentos em que parece que nos sentimos sós, (mas que sabem tão bem esses instantes de solidão), sento-me no meu canto, vou à estante e pego num dos teus livros. Leio. Releio.
Uma ternura de palavras. Uma energia de sons, vibrantes, pulsando por dentro das ideias, onde, afinal, todos os sentimentos, nascem do coração, quando escolhemos ser nós próprios.
Parece que, na verdade, hoje, continuo a partilhar contigo as muitas emoções que, semanalmente, procurava nas páginas da “Capital” quando lia e relia as tuas crónicas.
Ou, até, aquelas tardes que, na tua casa, em Almada, em torno de um naco de pão, chouriço e queijo, as palavras fluíam em sorrisos.
Acordei. E senti que devia escrever estas palavras para ti minha irmã. Hoje, 19 de Setembro, data em que festejarias 73 anos de vida.
Escrevo e penso que Portugal parece, afinal, que te esqueceu.
Este país que te ergueu tantas vezes em gestos de amor e amizade.
Este país que fez de ti bandeira de resistência, contra o silêncio amordaçado.
Escrevo para te dizer que gostava de ir, hoje, ao Torrão, depositar uma rosa no campo alentejano, onde tu abraças as papoilas. E, afinal, não vou.
Escrevo para te dizer que contigo aprendi a amar o sentido da palavra LIBERDADE e a manter a esperança nos dias, acreditando que, cada um de nós, escolhe o seu caminho, porque, nós, só caminhando vamos descobrindo novos caminhos.
Recordo muitas das tuas “estórias” de vida, gestos de dignidade, que colocaram, sempre, acima de quaisquer outros interesses, essa energia criadora marcada pela verticalidade. SER.
A verticalidade não tem preço.
A verticalidade não se verga a cargos.
Eu sei que a tua vida foi marcada por essa forma de estar e viver. E sentiste na pele.
Olhaste sempre os dias com o filtro da bondade e do amor.
Sabes, é difícil, seguir esse caminho. Dói. Dói nos nervos e no coração.
Mas continuo a pensar em ti, no teu exemplo de vida, de dignidade e honestidade.
Tinhas o teu próprio Deus, que transportavas num barco azul de pensamentos.
Uma voz. Apenas uma voz, que brota do interior. Sim, é, aí, que nós sentimos a força dos Deuses, discretamente, emoldurado nos nervos que criam raízes no Amor e Amizade. No respeito pela vida. Tolerância.
Como tu escrevias : “os dias gastam-se”, “os dias somam-se”.
Cada dia é, afinal, um ponto de chegada e um ponto de partida.
Sabes, sinto uma enorme alegria de viver cada dia como que, cada um deles, de facto, fosse a chegada ao cume de uma montanha.
E, lá no cimo da montanha, no cume, olhar em volta e cheirar a paisagem, sentir os sabores, escutar os sons. Saborear a felicidade de ter chegado aqui, a este cume de hoje…vivo. Sim, vivo!
Ter a consciência que todo o tempo vivido foi feito de mim. De ti, e de todos aqueles com quem partilhei os meus dias.
É tudo isso que faz a memória.
É por isso que eu acho que a memória faz parte da vida. Não basta a razão.
A vontade que nos move, tem raízes nas memórias dos dias.
Os dias não são a preto e branco. Mas para sentir o colorido dos dias, isso, só é possível com a memória e com o coração.
Os deuses, humanos, afinal cada qual tem os seus.
O mundo continua a girar.
As guerras continuam a marcar os dias. A fome. A ostentação.
Paro e penso, como continuam tão actuais, as mensagens do teu livro a “Criança e a Vida”.
Fazes hoje 73 anos. Sim, fazes. Porque, tu, afinal continuas presente, iluminando as palavras e fazendo brotar da terra a flor da “esperancinha” que, como tu dizias, “carregavas todos os dias dentro de ti”.
Não quero que fiques nas névoas do esquecimento, porque, sempre foste para mim uma referência, um estímulo, uma força que me puxou para cima, e, talvez, acima de tudo, porque me fazias sentir a poesia nas penumbras dos dias.
Recordo-te como uma rosa vermelha.
Recordo-te no sabor do gaspacho e da sopa alentejana, naquele dia, de sol brilhante, para os lados da Costa da Caparica.
Recordo-te na SFAL, em poemas de mulher e, a sorrir, a caminho do Hospital do Barreiro, com o sangue a rasgar os nervos, que brotava do Diário de Anne Frank, encenado pelo teu companheiro.
Recordo-te no teu sorriso de gotas transparentes.
Pois, estava quase a adormecer. Acordei. Para te escrever, hoje, estas palavras.
Talvez, amanhã, logo, ao acordar, eu veja um pássaro a voar no céu azul e pense : “Olha, lá vai a rosa vermelha, rasgando o azul e cruzando o céu da esperança!”
Talvez, tu, afinal, estejas aqui ao meu lado, a sorrir e a tocar o meu ombro suavemente dizendo : “António vai descansar”.
Afinal, há mulheres assim…que nos ficam gravadas no coração incendiado de sorrisos.
António Sousa Pereira
Breves notas biográficas - Maria Rosa Colaço
É natural do Torrão, nasceu em 19 de Setembro de 1935. Saiu do Torrão ainda criança e foi para Almada. Faleceu em 13 de Outubro de 2004.
É autora de obras infantis, como «Maria Tonta como eu», «Espanta Pardais», «Aventuras com asas», «O coração e o livro», «Sofia e o Caracol», «O menino e a estrela», «João Flor e Joana Amor».
Em Almada há uma escola que tem o seu nome.
Um nome que Portugal não deveria esquecer!
19.9.2008 - 4:40
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