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entrevista

Nuno Banza, “Rosto do Ano Ambiente” - Barreiro
“Esse reconhecimento deixa-me satisfeito. Ser justo e dizer que não é exclusivamente meu”

Nuno Banza, “Rosto do Ano Ambiente” - Barreiro<br>
“Esse reconhecimento deixa-me satisfeito. Ser justo e dizer que não é exclusivamente meu” “Entendo que só conseguimos ter uma sociedade efectivamente comunidade, se houver uma cultura de comunidade e se as pessoas puderem ter interacção, umas com as outras, e isso vai-se ganhando com o tempo, com a confiança e quando gostam do sítio onde vivem, quando têm tempo disponível e quando têm alguma qualidade de vida. As pessoas que têm essa possibilidade têm uma especial oportunidade de poder fazer isso” - sublinha Nuno Banza, em entrevista ao "Rostos".

“Esse reconhecimento deixa-me satisfeito, por outro lado, tenho de ser justo e dizer que ele não é exclusivamente meu”

Foi no sétimo ano que diz ter-lhe sido despertado o gosto pelas questões ambientais, que depois lhe facilitou a escolha de Engenharia do Ambiente, para a sua formação superior. E o caminho quis que sempre se envolvesse em associações ambientais, passou pela “Almargem”, no Algarve, pela “Quercus”, onde esteve na Direcção Nacional de 2000 a 2006 e ainda pela “Geração Verde”, que surgiu em 1996, no Barreiro. Hoje, Nuno Banza, é administrador-delegado da Agência S.energia e quanto ao facto de ter sido reconhecido como o Rosto do Ano de 2007 na área do Ambiente, diz ser com satisfação que recebe essa distinção mas não deixa de advertir que deve ser um reconhecimento “de todas as pessoas que comigo trabalharam”.

“É sempre um prazer vermos a cidade onde vivemos ser reconhecida por razões positivas”

O nome do Barreiro foi colocado na vanguarda das novas tecnologias em estudo na Europa, através da S.energia. Enquanto administrador-delegado da Agência, como reage a essa afirmação?
“É sempre um prazer vermos a cidade onde vivemos ser reconhecida por razões positivas. E ter a possibilidade de poder dar algum contributo para que isso aconteça, é ainda melhor, isso faz com se sinta que o fruto desse trabalho também é um bocadinho nosso. Acho que isso foi uma das coisas que mais me agradou”.

“Um reconhecimento muito grande do grupo de pessoas que trabalhou e das pessoas que nos apoiaram”

Como surgiu a vontade de se envolver num projecto como a S-energia?
“A criação da Agência S.Energia teve o trabalho de um conjunto de pessoas, mas partiu efectivamente da ideia do Bruno Vitorino. Há poucas agências em Portugal, um país com 308 municípios, tem cerca de 20 agências, pela Europa a realidade não é esta. Mas o Bruno Vitorino disse que conhecia uma Agência de Energia em Gaia e que gostava que estivéssemos em condições para criar a nossa Agência, isto em Novembro de 2005. Depois procurámos informações e percebemos que havia um fecho da entrega de Candidatura Comunitária em 31 de Janeiro de 2006 e tínhamos cerca de dois meses para isso. Decidimos fazer a candidatura e fizemos um acordo com a Moita, porque a Comissão Europeia estabelece uma dimensão mínima de cem mil habitantes e, de uma forma muito natural, a Moita interessou-se desde o primeiro momento pela candidatura e colaborou connosco e a proposta foi aprovada, o que foi acima de tudo um reconhecimento muito grande do grupo de pessoas que trabalhou e das pessoas que nos apoiaram, nomeadamente da Agência de Energia de Almada e da de Gaia”.

“Para que os concelhos do Barreiro e da Moita melhorem o seu desempenho energético”

E o que é que a Agência pode vir ainda a dar aos concelhos do Barreiro e da Moita?
“A energia está na ordem do dia, o petróleo ultrapassou os 100 dólares o barril e se, do ponto de vista económico é objectivamente um mau resultado, porque implica um crescimento desmesurado dos preços, esse aumento pode, de alguma forma, induzir a redução da procura, o que induz a emissão de gases com efeito de estufa, nomeadamente o CO2. Agora não esperamos que apenas se reduza o efeito de estufa, queremos é um novo paradigma económico. Que seja implementada a Estratégia Europeia de Energia e as estratégias locais para o desenvolvimento, que passam pela redução dos consumos, pelo uso racional da energia, por encontrar energias renováveis. E tudo isso tem de ser corporizado em acções e estratégias e as Agências são os parceiros privilegiados para que isso aconteça. Os concelhos do Barreiro e da Moita deram o passo e entenderam que a criação de uma Agência permitir-lhes-ia colocar em prática um conjunto de acções nessa área. E a capacidade de as pessoas intervirem é muito grande, a nossa decisão individual, de apagar a luz, de abrir as janelas, de ter um equilíbrio térmico e eficiente nas habitações, o escolher equipamento energeticamente eficientes, são muitas das coisas que podemos fazer e a Agência tem trabalho para desenvolver para que os concelhos do Barreiro e da Moita melhorem o seu desempenho energético e naturalmente esperamos que isto aconteça um pouco por todo o país e por toda a Europa”.

“Este trabalho foi eventualmente aquele que melhor retorno me deu”

No ano passado viu publicado um trabalho no terceiro volume da obra: “Geo-visualisation for participatory spatial planning in Europe”, integrando um estudo do Barreiro numa obra que relata diversas experiências Europeias. Quais foram os impactos desse trabalho?
“Ainda sou relativamente novo e acho que tenho muito mais coisas para fazer do que as que fiz até hoje, mas dentro das coisas que fiz, este trabalho foi eventualmente aquele que melhor retorno me deu, essencialmente do ponto de vista da aprendizagem, porque foi um trabalho que permitiu abrir uma porta para uma coisa, na qual já tinha participado e até de forma activa, que é a participação pública. A liberdade de as pessoas poderem intervir e de ter opinião e de essa opinião poder contribuir para uma ideia comum, é dos maiores valores que temos em democracia”.

“Essa participação vai ser claramente facilitada por este trabalho”

Em concreto, o que é que o estudo trouxe para o Barreiro?
“O Barreiro passou a dispor de uma ferramenta que dá à Administração Municipal, qualquer que ela seja, o poder de disponibilizar a qualquer cidadão a participação pública, inclusivamente a cidadãos que não sabem ler ou com maior dificuldades na percepção. A ferramenta permite o seu acesso via Internet, em qualquer local do mundo, assim como via quiosque interactivos, podendo deixar apenas contributos com a voz. É uma nova funcionalidade, ímpar no panorama da participação pública e isso deixa-nos de facto muito orgulhosos. Acreditamos que vai ser muito útil num futuro próximo, porque o Barreiro está num momento em que há muitas escolhas a fazer e que todas essas escolhas devem ter a participação dos cidadãos e essa participação vai ser claramente facilitada por este trabalho”.

Publicação em português –“ Uma questão que ainda está em cima da mesa”

E está prevista a publicação desse trabalho em português?
“Naturalmente que gostávamos muito que pudesse ser editada em português e tivemos já uma primeira conversa com a Universidade Nova de Lisboa, porque, se por um lado faz todo o sentido uma edição em português, faz também muito sentido que essa edição aconteça mas debaixo de uma revisão cuidada e criteriosa, do ponto de vista científico e não é a Câmara Municipal do Barreiro ou eu que podemos assumir uma responsabilidade dessas. Penso que a Universidade Nova terá condições para o fazer, mas é uma questão que ainda está em cima da mesa”.

“De alguma forma, a generalidade dos cidadãos do Barreiro tem consciência ambiental”

Teve um trajecto sempre ligado a questões ambientais, como surgiu essa preocupação?
“Esta história é engraçada, é um pouco como dizia António Aleixo, nós somos muito o meio em que somos criados e acho que, de alguma forma, a generalidade dos cidadãos do Barreiro tem consciência ambiental, obviamente que isso não acontece apenas porque o Barreiro tem uma tradição de problemas ambientais, devido à presença industrial”.

“Quando tive de decidir o que ia estudar para a Universidade, a escolha foi quase natural, escolhi Engenharia do Ambiente”

E no seu caso, como surgiu essa consciência?
No sétimo ano tive uma professora que tinha um programa numa rádio local e convidou-me a mim e a outra colega para que escrevêssemos algumas notas sobre cuidados e preocupações na área do ambiente, para depois no sábado fazermos uma transmissão de rádio e é aí que começo a pesquisar coisas sobre o ambiente. Acabámos depois por conseguir abrir um clube de rádio na escola e começámos a fazer isto com um carácter mais sistemático. Depois fui-me associando em algumas iniciativas. Em parceria com a Câmara, em finais dos anos 80, conseguimos levar a acabo um projecto que se chamava: “Um Lar para a Cegonha Branca”. E quando tive de decidir o que ia estudar para a Universidade, a escolha foi quase natural, escolhi Engenharia do Ambiente”.

“A primeira vez que estive na direcção de alguma coisa foi com 16 anos e foi na SFAL”

Começou o ano de 2008, assumindo o cargo de presidente da Mesa da Assembleia da SFAL, a sua forma de intervir na sociedade passa também pelo associativismo?
“Sim, passa. E a SFAL tem uma história muito interessante. Uma boa parte das pessoas da minha geração, que nasceram no Lavradio, têm como referência a SFAL, acho que é um fenómeno local mas também social, porque só um fenómeno social poderia ter uma história como tem, com 140 anos, em que não há interregnos. E num momento que em o associativismo, em geral, está em crise e em que a participação cívica dos cidadãos diminui fortemente, a SFAL continua a ter casa cheia e com inúmeras actividades. A primeira vez que estive na direcção de alguma coisa foi com 16 anos e foi na SFAL, a primeira vez que fui voluntário foi na SFAL, enquanto Bibliotecário adjunto. E gostava de dar muito mais do que aquilo que dou hoje. Gosto de pensar que o presidente da Assembleia-geral é o porteiro, mas acredito que no associativismo as pessoas não têm relevância por si só mas enquanto conjunto. E é muito mais para mim uma honra do que para a casa. Para mim não é só uma honra pelo lugar mas pelo contacto com as pessoas que este lugar me permite ter”.

“Só conseguimos ter uma sociedade efectivamente comunidade, se houver uma cultura de comunidade”

A intervenção na sociedade é algo de muito importante para si…
“Entendo que só conseguimos ter uma sociedade efectivamente comunidade, se houver uma cultura de comunidade e se as pessoas puderem ter interacção, umas com as outras, e isso vai-se ganhando com o tempo, com a confiança e quando gostam do sítio onde vivem, quando têm tempo disponível e quando têm alguma qualidade de vida. As pessoas que têm essa possibilidade têm uma especial oportunidade de poder fazer isso”.

Mata da Machada, um exemplo de como “a comunidade pode usufruir de um espaço e, ao mesmo tempo, ter um contributo altamente relevante”

O que tem muito a ver com as palavras do filósofo Sócrates, quando dizia que para o Mundo mudar, temos de nos mexer.
“Sim, a responsabilidade é de todos nós. Quando a Câmara do Barreiro criou o Centro Ambiental na Mata da Machada, foi a primeira fez que o Fundo Florestal Permanente foi utilizado para algo do género, pois basicamente apoiava projectos de limpeza de terrenos. Pela primeira vez fizemos a proposta, vendo a prevenção de fogos não numa perspectiva tecnicista mas numa perspectiva humana e acreditámos que a melhor forma de ter prevenção de fogos, era tendo pessoas dentro dos parques florestais. Tivemos a sorte, na altura, de a ideia ter sido acolhida. E acho que esse é um excelente exemplo de como a comunidade pode usufruir de um espaço e, ao mesmo tempo, ter um contributo altamente relevante. Porque os principais interessados em que a Mata não arda são as pessoas que lá vão todos os dias e esses são os nossos melhores vigilantes”.

“Esse reconhecimento deixa-me satisfeito, por outro lado, tenho de ser justo e dizer que ele não é exclusivamente meu”

Foi considerado pelo jornal “Rostos” como o Rosto do Ano 2007, na área do Ambiente, como reage a essa distinção?
“Se todas as pessoas gostam de ser reconhecidas e eu gosto de ser reconhecido, esse reconhecimento deixa-me satisfeito, por outro lado, tenho de ser justo e dizer que ele não é exclusivamente meu, é também de todas as pessoas que comigo trabalharam para que isso fosse possível. Essa distinção tem um carácter mais querido para mim, porque reconheço que o “Rostos” mudou efectivamente a postura, até dos outros órgãos de comunicação social, o que é uma responsabilidade maioritariamente, ou quase exclusivamente, do seu director. O “Rostos” fala por si, com todos os seus altos e baixos, mas tem tido um mérito especialmente relevante de conseguir fazer diferente e isso é muito importante e para mim também é uma honra ainda maior ter esse reconhecimento de um órgão que respeito muito e a quem reconheço um trabalho extraordinário aqui no Barreiro”.

Andreia Catarina Lopes

14.1.2008 - 0:21

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