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entrevista

António Cabós Gonçalves, “Rosto do Ano Cidadania”
“Eu sou do Barreiro e estou cá para o Barreiro”

António Cabós Gonçalves, “Rosto do Ano Cidadania”<br>
“Eu sou do Barreiro e estou cá para o Barreiro” “Eu costumo dizer que o Barreiro está para Portugal, como Portugal está para o mundo. Portugal é um país pequeno, todavia deu muitos frutos ao mundo, fala-se português no mundo inteiro, há portugueses no mundo inteiro e tivemos um papel determinante naquilo que o mundo é hoje e, por acaso, grande parte da gesta marítima saiu do Barreiro e “Os Lusíadas” são decalcados da Crónica de Álvaro Velho, do Barreiro” – refere Cabos Gonçalves, “Rosto do Ano – Cidadania”.

Nasceu no Barreiro, uma terra que diz ser “uma mãe de braços abertos”. E dela diz ter recebido “a obrigação de fazer o que puder para a melhorar”, até porque sublinha: “nasci para resolver problemas” e aos problemas diz não os encarar como tal, considera-os antes como “coisas que esperam uma solução”. Fala também de pessoas com quem privou, os seus “santinhos de cabeceira”. Nomes como Emídio Santana, Agostinho da Silva, Manuel Cabanas e Caro Proença, que são para António Cabós Gonçalves “exemplos de vida”. E quanto ao projecto Mercado do Marquês de Pombal, diz: “Tenho a certeza absoluta de que é possível, de que é viável e hei-de demonstrá-lo”. Uma ideia para resolver dois problemas, o encerramento do Mercado de Levante da Verderena e a revitalização do Barreiro Velho, que diz ter-lhe surgido de forma natural.

“Se tenho uma ideia que acho que vai resolver um problema, tenho-a de apresentar”

O que leva um cidadão do Barreiro a desenvolver um projecto individual para resolver problemas da cidade?
“Cresci a ver no Barreiro a vontade das pessoas de participarem na construção da sua terra, como uma coisa normal. Volta e meia saio de Portugal e sempre vi que os Mercados de rua contribuem para animar os centros antigos, para atrair investimento e quando surgiu o problema da extinção abrupta do Mercado da Verderena, tive uma ideia, que surgiu de uma forma natural. E depois foi um imperativo ético, se tenho uma ideia que acho que vai resolver um problema, tenho-a de apresentar. E continuo a achar que o Mercado Marquês de Pombal é uma possível solução para atrair pessoas durante o dia, para criar mais segurança e para criar mais limpeza”.

“Uma terra especial”

Foram três semanas ininterruptas de trabalho. Há também aí muita paixão pelo Barreiro…
“Sim. Eu costumo dizer que o Barreiro está para Portugal, como Portugal está para o mundo. Portugal é um país pequeno, todavia deu muitos frutos ao mundo, fala-se português no mundo inteiro, há portugueses no mundo inteiro e tivemos um papel determinante naquilo que o mundo é hoje e, por acaso, grande parte da gesta marítima saiu do Barreiro e “Os Lusíadas” são decalcados da Crónica de Álvaro Velho, do Barreiro. Também nós Barreiro, que somos 30 quilómetros quadrados, no meio do país, tivemos uma importância desmesurada, quer em relação à nossa população, quer ao nosso tamanho e esse paralelismo faz com que o Barreiro seja, efectivamente, uma terra especial”.

Mercado de teste para depois da Primavera

E como ficou a situação do projecto Mercado Marquês de Pombal?
“O mercado vai existir. Aliás irei pedir ao ‘Grupo de Amigos do Barreiro Velho’, que já se disponibilizou, que acho que é um enorme exemplo de cidadania e que movimenta muitas pessoas e não tem nenhuma marca de ligação partidária, embora haja pessoas ligadas a partidos, para que, em conjunto com outras pessoas, se possa provar que é possível a realização de um mercado de teste nos termos em que proponho, para que se perceba que é possível e que é viável”.
E para quando está previsto esse mercado teste?
“Penso que ainda vai ser este ano, depois da Primavera, quando houver bom tempo, porque o mercado que proponho dá para todas as estações, mas o mercado de teste só é possível nessa altura”.

“Tenho a certeza absoluta de que é possível, de que é viável e hei-de demonstrá-lo”

E para além do mercado de teste?
“No meio disto tudo, as coisas foram crescendo. Num dia destes haverá um site da ideia, com vários blogs. Está aparentemente parado, porque entretanto convirá que a questão do Mercado novo estabilize, que as estratégias para o centro do Barreiro sejam definidas, também porque eu não sou um Dom Quixote a correr atrás de moinhos de vento. Tenho a certeza que isto é possível, o mercado que eu ambiciono, um mercado diferente, patrocinado, sem custos para ninguém, auto-sustentável, delimitado, regulamentado e com a criação de valor para o Barreiro. Tenho a certeza absoluta de que é possível, de que é viável e hei-de demonstrá-lo”.

28 de Janeiro – Reunião com a Câmara para falar de questões de segurança desenvolvidas no Mercado Marquês de Pombal

O vereador João Soares disse inclusivamente que gostaria de falar consigo sobre as ideias de segurança que desenvolveu para o Barreiro Velho. Já houve algum seguimento sobre este assunto?
“Nas Opções Participadas, na freguesia do Barreiro, o vereador Joaquim Matias e o presidente da Câmara disseram que o projecto que apresentei será tomado em devida conta em toda a reflexão que se está a fazer sobre o Barreiro. E também nessas Opções Participadas, o vereador João Soares comunicou-me que estava interessado na proposta que tinha feito sobre as Brigadas de Apoio Local e sobre os dois veículos 4X4 que aliás, depois informei que até os Bombeiros tinham mas que estavam desactivados. Nesse sentido, tenho marcado para o próximo dia 28 de Janeiro uma reunião para falar sobre estes aspectos. Por outro lado, estou a ultimar uma proposta formal a apresentar à Câmara”.

“No dia em que perceber finalmente, depois de fazer tudo aquilo que acho que devo fazer, que já não há hipótese de fazer mais nada, nesse dia acaba a minha participação nisto”

E de que se trata essa proposta?
“Essa proposta é para que a Câmara se pronuncie em relação à oportunidade de criar um conjunto de instrumentos, do Mercado Marques de Pombal, da Sociedade de Desenvolvimento do Barreiro Velho, das Brigadas de Apoio Local. Trata-se de um conjunto integrado de propostas, no âmbito do direito de qualquer cidadão, que a Câmara adoptará ou não. No dia em que perceber finalmente, depois de fazer tudo aquilo que acho que devo fazer, que já não há hipótese de fazer mais nada, nesse dia acaba a minha participação nisto”.

“Se isso serviu para que as pessoas percebam que com alguma imaginação e capacidade de organização se pode fazer coisas, óptimo!”

Considera que o projecto mostrou ser possível que um munícipe pode desenvolver ideias para resolver problemas da sua terra?
“Claro, não tinha o objectivo de servir de exemplo mas obviamente que as coisas depois acabam por ter esse efeito e, se isso serviu para que as pessoas percebam que com alguma imaginação e capacidade de organização se pode fazer coisas, óptimo! A discussão que provoquei fez com que, por exemplo, na solução para o mercado, a primeira coisa que os feirantes apresentaram foi um regulamento, nunca ninguém tinha falado em regulamento. Se a minha proposta contribuiu para que o Novo Mercado, que vai nascer, tenha um regulamento, já serviu para alguma coisa. Segundo, ao aparecer uma solução ou uma proposta de solução, potenciou o aparecimento de outras soluções. Na medida em que isso contribuiu, fico satisfeito, mas está tudo para fazer da minha proposta”.

“Existem muitas mais possibilidades de se desenvolver a cidadania, do que as que havia há cinco anos”

Entende que a Internet acabou por potenciou a participação pública, que muitas vezes se resumia ao exercício do sufrágio?
“Sim, como é evidente. Tenho algumas ideias que são um bocado heréticas no pensamento dominante. Primeiro, acho que a história só anda para a frente. Se se vir a humanidade em planta, percebe-se que cada geração é melhor do que a anterior. Ao contrário do que as pessoas acham e que dizem: ‘No meu tempo é que era’, eu digo: ‘O meu tempo é este’. E acho que este tempo tem uma ferramenta importantíssima que é a Informática e a Internet e, como dizia uma canção antiga: ‘daqui para a frente, tudo vai ser diferente’. A transparência é hoje muito maior do que alguma vez foi. Existem muitas mais possibilidades de se desenvolver a cidadania, do que as que havia há cinco ou há dez anos atrás e amanhã ainda haverá mais e essa é que é a salvação do mundo.

“Eu sou do Barreiro e estou cá para o Barreiro, e do Barreiro não quero nada mas quero dar ao Barreiro aquilo que puder”

E está envolvido noutros trabalhos, para além do Mercado?
“Neste momento estou envolvido num grupo de trabalho à volta da obra do engenheiro Caro Proença, que irá desenvolver um conjunto de iniciativas, nomeadamente uma Conferência Internacional, em Junho. Estou também envolvido num trabalho com o Jorge Morais, o Luís Ferreira da Luz e o Jaime Palma para levar à prática o legado do Manuel Santos Cabanas, com um conjunto de iniciativas, ainda para este ano. Estou em várias frentes e continuo a fazer aquilo que toda a vida fiz, que é exercitar o meu gosto pelas coisas do Barreiro e ajudar para que com esse exercício, o Barreiro melhore, seja conhecido pelas boas razões. Eu sou do Barreiro e estou cá para o Barreiro, e do Barreiro não quero nada mas quero dar ao Barreiro aquilo que puder”.

“É difícil, porque as pessoas estão muito enfeudadas a uma certa identificação partidária”

Escreveu num artigo: “É difícil fazer cidadania no Barreiro.” Porque é que diz isso?
“É difícil, mas, como se vê, não é impossível. É difícil, porque as pessoas estão muito enfeudadas a uma certa identificação partidária e quando alguém aparece, a primeira pergunta é: ‘De onde é que ele vem e o que é que ele pretende com isto?’. Eu tenho uma vantagem, toda a gente sabe que não quero ser presidente de coisa nenhuma. Aliás, só não posso passar despercebido, porque quem tem alguma intervenção, não pode passar despercebido, porque o Barreiro é uma aldeia grande”.

“Gostava que a questão da Estátua Alfredo da Silva fosse definida, porque é uma questão simbólica importante”

Qual é a sua opinião acerca do projecto apresentado para o centro do Barreiro?
“O arquitecto Juan Busquets é um grande nome da arquitectura mundial. Conheço a obra dele e conheço o projecto e gosto. Gosto da ideia de se alargar os passeios da Avenida Alfredo da Silva. Agora há duas questões que gostava de ver esclarecidas, gostava que a questão da Estátua Alfredo da Silva fosse definida, porque é uma questão simbólica importante. Do meu ponto de vista, com uma forte reformulação do Largo das Obras, a estátua Alfredo da Silva ficava muito bem aí, uma vez que essa vai ser a entrada no Império, que o Alfredo da Silva criou no Barreiro. E a segunda questão, que gostava também de perceber era se, ao se alargar os passeios na Avenida Alfredo da Silva, ao se proibir o estacionamento e ao se criar um estacionamento subterrâneo, o estacionamento nas ruas do Barreiro, vai ou não ser tarifado, como o é em todas as cidades? Eu acho que o estacionamento deve de ser tarifado. Eu sou da cidade, sou da urbe. E as cidades têm de ser sustentáveis e por isso não as podemos atafulhar de carros”.

“Acho que o Barreiro tende a ser muito melhor, agora isso também depende de cada um de nós”

Como cidadão do Barreiro, como é que vê o futuro do Barreiro?
“Radioso! Não sou um incorrigível optimista mas o Barreiro tem tudo para ser um sítio de excelência. Nós estamos hoje a 20 minutos em transporte excelente do Terreiro do Paço, o centro da capital. Temos a auto-estrada que nos põe em qualquer sítio do mundo. Temos uma rede de transportes públicos que é das melhores do país e do mundo, porque não há em muitos sítios, onde a 100 metros de qualquer local haja uma paragem de autocarros. Temos um espaço de excelência, que é o espaço da Quimiparque, onde se pode fazer tudo. E do que conheço do plano para a Quimiparque, gosto, gosto da maioria das coisas. Depois, as acessibilidades que aí vêm são importantíssimas. Mas acho que a cereja em cima do bolo seria a ligação rápida e directa ao Montijo e ao Seixal, dotando o Barreiro, dessas acessibilidades, isto é do fecho do Arco Ribeirinho. E depois o Barreiro é herdeiro do saber fazer. E acho que o Barreiro tende a ser muito melhor, agora isso também depende de cada um de nós. E acho que o exercício de cidadania deve começar pelas pequenas coisas, como não deitar papéis para o chão”.

“Neste momento também já não é uma ideia só minha e também, por isso, tenho a obrigação de não a deixar cair”

E como reage à distinção de “Rosto Cidadania”?
“Aquece o coração. Agora, primeiro não acho que tenha feito nada de extraordinário, segundo foi de uma forma natural, tão natural como respirar e terceiro, se fosse amanhã voltava a fazê-lo e se um dia qualquer, como tenho feito toda a minha vida, tiver uma ideia, que pense que ‘tenha pés para andar’ e que possa usar e ajudar a comunidade, eu volto a fazê-lo. Neste momento também já não é uma ideia só minha e também, por isso, tenho a obrigação de não a deixar cair”.

Andreia Catarina Lopes

24.1.2008 - 14:14

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