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Arte Viva – Companhia de Teatro do Barreiro
Entre o riso e a procura de sentido para os dias….

Arte Viva – Companhia de Teatro do Barreiro<br>
Entre o riso e a procura de sentido para os dias…. «Depois da Tempestade» de Sergi Belbel, é o novo espectáculo de Arte Viva - Companhia de Teatro do Barreiro, com encenação de Rui Quintas.

Uma peça que é um olhar sobre o mundo, sobre a vida sobre os dias.
As palavras e os gestos pesam neste espectáculo, porque são cruéis. Agitam a consciência. Obrigam a «olhar» para dentro dos nossos próprios pensamentos.

As palavras transportam-nos, para uma verdadeira catarse, que se divide entre o riso e a procura de sentido para os dias….

O espectáculo «Depois da Tempestade», resulta de uma sucessão de cenas que decorrem no terraço de um arranha céus, um lugar sentido como um ponto de encontro com as emoções da vida, um lugar, onde se forjam as teias de cumplicidades entre os empregados de uma empresa – chefes e subordinados.
O terraço é assumido como um lugar de «fuga» ao quotidiano, de vivência do proibido, de recuperação do «stress», um espaço de «catarse» e de descoberta da vida.
Ali, se cruzam a intriga. Ali, é assumido o vício.
Ali, o mundo interior de cada uma das personagens se projecta e emerge perante os espectadores – através da ironia e do riso.

O olhar da plateia é o olhar do terraço em frente

O espectador, na plateia, está sentado, e, quase de forma subtil torna-se «actor», porque não pode deixar de sentir que está a olhar o espectáculo olhando de um outro «terraço», do prédio em frente, ali, sim, mesmo em frente, do lado da vida real.
Talvez, até, pelo pensamento de cada um dos espectadores, a vida real possa emergir, na sucessão de cenas que se cruzam, porque, afinal, a vida é assim mesmo, feita de competitividades, de hierarquias, de amor e de invejas.
Naquele «terraço» há amor e ódio. Naquele «terraço» há lágrimas e sorrisos.
Ninguém pode assistir a este espectáculo e, no final, ao sair, ficar indiferente.
O espectáculo é um apelo a um reencontro com a nossa interioridade, leva-nos a sentir, de facto, a importância de «olharmos» para dentro de nós mesmos e «olharmos» para a nossa relação com o mundo e com os outros.
As palavras e os gestos pesam neste espectáculo, porque são cruéis. Agitam a consciência. Obrigam a «olhar» para dentro dos nossos próprios pensamentos.
As palavras transportam-nos, para uma verdadeira catarse, que se divide entre o riso, a procura de sentido, quer, no sentirmos os acontecimentos que forjam a vida dos personagens, quer no turbilhão de emoções que nos transportam ao reencontro da vida real.
O que se pode perguntar é se os actores, conseguem transmitir de forma plena as emoções que transbordam do texto trágico-cómico-irónico.
Só há uma resposta: SIM! E quando isto acontece, há espectáculo, há emoção e, acima de tudo, aquilo que é importante em teatro - há comunicação.
Os actores vestiram as personagens e fizeram-nos sentir o texto.

Fumar marca a distância entre a liberdade individual e a rebeldia

O cigarro neste espectáculo, ali, transforma-se num fio condutor, um elemento de «identidade» entre as personagens, uma “muleta” dos personagens, um elemento de «catarse» que agita, coloca tensão, perturba, é, assumido como o símbolo real dos valores que forjam a vida em sociedade.
Ser ou não ser fumador. Ser ou não ser, uma característica que marca o discurso das personagens.
O fumar é o foco de tensão que marca a distância entre a liberdade individual e a rebeldia perante os valores da vivência em sociedade.
O cigarro neste espectáculo não é apenas o cigarro, que se apaga e acende, nem a fumaça que invade a cena, funciona com um elemento simbólico e «estruturante» entre o convencional e a revolta.
O cigarro funciona como uma necessidade e um excesso.
O cigarro é uma marca de prazer e uma porta que se abre ao suicídio.
O cigarro é um excesso e uma alavanca que coloca o personagem nessa luta entre a liberdade e escravidão. O ser submisso. O ser que quer superar-se e reencontrar-se naquele lugar de fuga – o terraço como espaço de liberdade e catarse.

Aprender a viver uns com os outros

Os «dramas» das diferentes personagens são projectados nessa dimensão permanente, porque são vivências de situações, onde cada um na sua individualidade se redescobre - entre o ser e o não ser - numa vontade se afirmar para além das amarras do quotidiano, na vida familiar, na vida empresarial, na vontade de concretização dos projectos individuais e dar sentido aos sonhos.
Aquele lugar – o terraço - é assumido como espaço de «fuga» que coloca, afinal, os personagens numa vivência à beira do abismo, perante os perigos de um precipício, perante a distância que vai, até ao limite :viver ou negar a vida.
Naquele «terraço» sentimos que a vida, por vezes, não é mais que um caminho permanente de autodestruição, e, sentimos que tal acontece, sempre, quando deixamos sucumbir a nossa individualidade nos dramas que forjam os muitos «arranha céus» (prédios) que fazem a cidade.
Pelas «estórias» que marcam o pulsar daquele «terraço», de facto, é bem verdade, é que devemos, cada vez mais, aprender a viver uns com os outros, sentir que nada somos se não vivermos com os outros.
Rui Quintas tem razão. Mais que vivermos fechados nos nossos mundos individuais, devemos sentir que há mais vida para além dos nossos dramas interiores e sermos capazes de viver juntos. Sonhar juntos. Lutar juntos. Porque a cidade somos todos nós.

Uma riqueza estética tridimensional

O cenário é ele mesmo uma sátira. Talvez até uma proposta de reflexão psicológica.
A rua está preenchida de carrinhos de criança. O arranha céus tem a sua autenticidade num fotograma. Os personagens agem no «palco» do arranha céus.
O cenário está espectacular e funciona, na verdade, com uma bela dimensão estética na sua projecção nocturna.
A encenação está marcada pela simplicidade, procurando dar a dimensão espacial, de tal forma que permita ao espectador «viver» a ilusão da altura e que sinta a situação citadina.
O cenário tanto parece uma construção de um lego, sobre a qual tudo se move, como parece simbolizar que nós homens, crescemos mas nunca deixamos de ser crianças, brincando com a vida e os sentimentos.
Os actores são personagens reais no terraço e simultaneamente «bonecos» mundanos que existem num cenário, que está por baixo dos seus pés, recreando a cidade e dando uma dimensão espacial que se projecta na distância.
“Estás a ver aquela janela além ao longe” – diz uma personagem e, assim, de súbito, o espectador viaja no espaço e sente o vazio da distância...
O cenário na sua simplicidade tem uma energia própria e uma riqueza estética tridimensional.

O espectáculo foi grande, porque todos vocês foram grandes

Quanto aos actores. Uma palavra para todos. Notou-se que foi estreia. Notou-se que com o desenvolvimento do espectáculo ia crescendo a confiança. Notou-se que sentem e vivem as personagens.
Este espectáculo ganha a sua força com a força da vossa naturalidade na criação das personagens, com a força que cada um dá às personagens, nos gestos, nos silêncios e na interpratação.
O espectáculo foi grande, porque todos vocês foram grandes e deram o melhor da vossa interioridade e expressividade, para erguer os sentimentos e transmitir emoções com muita dignidade. Gostei.
Não quero, no entanto, deixar de registar com agrado as interpretações de Rui Quintas, no seu á vontade; de Patrocínia Estevão, que foi explosiva; de Nuno Magalhães, bastante desenvolto, assim como Nuno Paulino, que desempenhou o papel em crescendo.
Uma nota especial para a «loira», que penso ser a Helena Cruz, que foi bela na expressão corporal, na voz e no domínio do seu papel.
Também as restantes «secretárias» estiveram excelentes, naturais, dentro do ritmo do espectáculo, assumindo as exigências das situações com nota positiva.
Uma nota especial também, para a «Secretária» que se apaixonou pelo «Mensageiro», foi radical na mudança e contextualizou de forma firme a personagem.
Em conclusão : Gostei. E deixo a todos o convite para que não percam este espectáculo do Arte Viva.
Esta foi a primeira estreia, das três, agendadas no programa do Mês do Teatro de 2009. Um bom presságio…

António Sousa Pereira

FICHA TÉCNICA

Elenco

Rui Quintas, Patrocínia Cristovão, Nuno Paulino, Nuno Magalhães, Helena Cruz, Sara Santinho, Susana Marques, Ana Samora

Encenação: Rui Quintas

Assistência de Encenação: Patrícia Mendes

Direcção de Actores: Paula Magalhães e Rui Quintas

Tradução : Paula Magalhães e Ana Samora

Dramaturgia: Paula Magalhães

Cenografia: Sara Franqueiro

Música: Nuno Fernandes

Desenho de Som e Música : Nuno Fernandes

Desenho de Luz: Rui Quintas, Ana Paula Pereira e Carolina Viana

Figurinos: Ana Pimpista

Design Gráfico: Nuno Fernandes

Operação de Luz : Nelson de Castro

Operação de Som : Jorge Ferreira

Depois da Tempestade é o segundo espectáculo da temporada de 2008/2009 da Arte Viva. Fundada em 1980, a Arte Viva é, desde há dez anos, a companhia residente no Teatro Municipal do Barreiro. Mantém actividade regular com cerca de quatro espectáculos por temporada.

O espectáculo Depois da Tempestade fica em cena, no Teatro Municipal do Barreiro, até ao dia 19 de Abril de 2009, quintas, sextas, sábados e domingos às 21h30.

Os bilhetes têm o preço de 7,5 euros para o público em geral e 5 euros para jovens até aos 30 anos e maiores de 65 anos. Às quintas-feiras os bilhetes têm o preço único de 3 euros. Horário da Bilheteira: quinta a domingo das 18h00 às 21h30. Telef. 21 206 08 60.

BREVES REGISTOS DE REPORTAGEM















9.3.2009 - 1:15

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