artes
TEB – Teatro de Ensaio do Barreiro
Uma viagem entre a «consciência» e o «real»
Um espectáculo onde a luz funciona como um recurso, que nos permite vivenciar a expressividade e os registos faciais dos actores quando «escutamos» os seus pensamentos.Um espectáculo que proporciona aos espectadores duas viagens, uma pelo interior das personagens, outra pelas suas vivências reais.
Uma peça em um acto, com um tempo curto, que conta apenas com 5 actores, mas que é, sem dúvida, um espectáculo produzido com talento, quer com talento na sua encenação, quer com talento no conjunto dos actores, cujos papéis são, todos eles, desempenhados de forma exemplar, construindo um espectáculo esteticamente agradável. Há teatro.
Viajamos ao longo da peça por dois mundos das personagens – o mundo interior, dos pensamentos; o mundo exterior da linguagem, num constante confronto, entre o “dito” e o “não dito”.
São, de facto, esses os dois compartimentos – o ser e o parecer -, que levam o espectador a manter-se, de forma permanente, numa viagem por dentro do ciclo mental das personagens, entre a «vida real» e um mergulho nas suas «dimensões psicológicas».
Uma encenação estudada ao pormenor, muito bem conseguida, nos jogos de luz, nas colocações do som, que permitem sentir as vivências dos personagens e as suas contradições.
Um espectáculo onde a luz funciona como um recurso, que nos permite vivenciar a expressividade e os registos faciais dos actores quando «escutamos» os seus pensamentos.
Um espectáculo que proporciona aos espectadores duas viagens, uma pelo interior das personagens, outra pelas suas vivências reais.
Era bonito, lá isso era, se, na vida, nós escutássemos os pensamentos, o lado interior da consciência, dos outros.
Um espectáculo onde a luz tem uma força estética e, também, transporta o olhar do espectador ao interior da sua própria consciência, de forma radical, no final, quando um projector ilumina o corpo da “criadita” com forte intensidade, fechando, lentamente o campo de luz e criando um recorte de cena, dramático, angustiante, forjado como um grito que coloca o ponto final, no jogo cénico de catarse, vivido ao longo da peça, entre o sentir real dos personagens e o sentir psicológico.
O espectáculo, afinal, finda com esse ponto de luz, diluindo-se, até à escuridão, onde de súbito o espectador se reencontra, consigo próprio, no silêncio do espectáculo, e, talvez, seja, nesse instante que, interiormente, é lançada a proposta, subtilmente, ali, naquele instante, de silêncio, assumir-se como juiz, dado, que, aquele raio de luz levado até ao infinito da escuridão, funciona, como um apelo ao julgamento, um apelo ao sentido de justiça, que, acaba por se estender, na consciência de cada um, para além do espectáculo.
Naquele instante, na minha memória, ocorreu-me aquela vela, acesa, no centro do palco, no final da peça, Desperta e Canta, encenada por Graciano Simões e a frase – “Desperta e canta, tu que vives no pó!”.
Um espectáculo com ritmo. Onde os silêncios também contam, para estabelecer a ponte entre os “dois compartimentos”.
Gostei do «Velho» brilhantemente interpretado pelo veterano do teatro barreirense – António Jorge Santos, que, já era tempo de merecer da parte da comunidade um justo reconhecimento. Esteve perfeito na dicção e na interpretação.
Gostei da «Cozinheira» recriada pela veterana Tina Santos, sem exageros e dominando esteticamente e caricaturalmente a personagem.
Gostei do «Agente», Pedro Baião, que percorreu todo o espectáculo e esteve sóbrio.
Gostei da «sobrinha», Íris Santos, uma actriz que possui brilhantes recursos ao nível da dicção e que deu vida e força à vivência da sua personagem.
Guardei para o fim, uma palavra especial, para a «criadita», Shivani Gokaldas, que é extraordinária pelas qualidades que está dotada, com um presença excelente, que deu toda a força necessária e intensidade dramática que, sem dúvida, se exigia no final da peça.
Foi brilhante, pela expressividade, pelo domínio da personagem, pelos aspectos caricaturais, dando um forte contributo para o sucesso de mais um sucesso do TEB – Teatro de Ensaio do Barreiro.
O final da peça, tem uma intensa força dramática, emocionante, com lágrimas nos olhos da jovem actriz, que, repito, tem um desempenho sem falhas, sublinho de novo - excelente!
O Guarda Roupa pareceu um pouco «contraditório», assim como, alguns elementos da cenografia, porque podem funcionar como pequenos «ruídos» estéticos, dado que, existem misturas de temporalidade – dou o exemplo do telefone, ou o fato do «velho» - mas, dizer, que tal, em nada afecta, ou interfere, na qualidade final do espectáculo, pois, percebe-se que “quem não tem cão, caça com gato».
O TEB – Teatro de Ensaio do Barreiro apresenta, na Oficina de Teatro Mário Pereira, a peça “Os Dois Compartimentos”, de Avelino Cunhal, com encenação de Graciano Simões, aos sábados, pelas 21,30 horas.
Fica um conselho: ao sábado, antes de começar a sua noite, vá até à Oficina Teatro Mário Pereira. Diverte-se. Assiste a um bom espectáculo, de uma hora, ou menos, e, depois parte para a night…
António Sousa Pereira
Nota sobre a Peça – Do programa do TEB
Um roubo de jóias. Três suspeitos, Um polícia corrupto. Uma investigação. Dois compartimentos. Um, onde os suspeitos são interrogados, o outro, onde esperam, enquanto os seus pensamentos mais íntimos são revelados. Dois compartimentos que separam, nos indivíduos, aquilo que dizem do que pensam.
Aquele onde o agente interroga o queixoso e as três suspeitas do crime de furto e aquele onde estas aguardam a sua vez de serem chamados a depor.
Mas eles são também, e agora numa interpretação psicológica, os dois compartimentos em que a sociedade burguesa, nossa contemporânea, divide os individuos
Nota sobre o Autor – Programa TEB
Avelino Cunhal era, nas palavras do seu filho, Álvaro Cunhal, “um homem excepcional de carácter e de integridade”.( Luis Machado, 1991).
Natural de Seia, onde nasceu em 1887. Avelino Henriques da Costa Cunhal formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra.
Em 1922 foi nomeado Governador Civil da Guarda e em 1924 veio para Lisboa, onde exerceu advocacia, destacando-se na defesa de diversos acusados pela ditadura de crimes contra a nação e práticas subversivas.
Mas o interesse na personalidade de Avelino Cunhal advém sobretudo da sua versatilidade.
Foi colaborador das revistas Vértice, Seara Nova e o Diabo. Escreveu dois romances.
Senalonga cujo tema é Seia, sua terra Natal e Areias Secas.
Foi, ainda, dramaturgo, tendo escrito várias peças de teatro em 1 acto, estas sob o pseudónimo de Pedro Serôdio.
Naquele Banco, Ajuste de Contas, Dois Compartimentos e Tudo Noite, são algumas delas.
Estas peças tinham claras intenções de intervenção social, pelo que foram alvo de censura, constituindo “uma das raras presenças do neo-realismo na literatura dramática portuguesa”. ( Manuel Alves de Oliveira, 1990).
Sempre integrado na corrente neo-realista, Avelino Cunhal destacou-se como pintor e desenhador. Participou nas Exposições Gerais de Artes Plásticas da Sociedade Nacional de Belas Artes, tendo visto as suas obras apreendidas pela polícia, na segunda destas exposições, em 1947.
A postura intelectual e política de Avelino Cunhal era claramente de esquerda e todos os seus trabalhos são uma forma de intervenção e de luta contra o regime.
Avelino Cunhal esteve preso durante vários meses, um dos quais incomunicável, precisamente pela sua acção intelectual e politica.
Morreu a 19 de Fevereiro de 1966.
Ficha Técnica
Agente – Pedro Baião
Velho – António Jorge dos Santos
Sobrinha – Íris Santos
Cozinheira - Tina Santos
Ceiadita – Shivani Gokaldas
Texto – Avelino Cunhal
Encenação – Graciano Simões
Contra Regra – António Jorge dos Santos
Projecto de Luz e Som - Graciano Simões
Operadores de Luz e Som – Susana Santos, Pedro Santana e Pedro Carrilho
Técnico de Luz e Som – João Santos
Electricista – António Jorge dos Santos
Concepção do Cenário – Graciano Simões
Executado por : Fernando Santos, António Jorge dos Santos e Graciano Simões
Fotos e faixa Publicitária – Pedro Baião e António Jorge dos Santos
Caracterização – Celeste Ricardo
Ponto – Fernando Santos
Apoio Logístico – Câmara Municipal do Barreiro
Produção – TEB 2009
O TEB agradece a colaboração de Helena Marques, Jorge Ribeiro e Maria Teresa Simões
O TEB – Teatro de Ensaio do Barreiro iniciou a sua actividade no ano de 1963.
BREVE REGISTO
5.4.2009 - 2:20
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