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«Teatro o bando» – Palmela
«Crucificado» - onde a natureza se transforma em palco da vida

«Teatro o bando» – Palmela<br>
«Crucificado» - onde a natureza se transforma em palco da vida O que fascinou neste espectáculo foi o conjunto de seus elementos estruturantes – o espaço cénico, o cenário, o ritmo, a luz, o silêncio, as imagens, a musicalidade, os sons, a interpretação, a temática. Um espectáculo sublime.

Este espectáculo é, ele mesmo, uma justa homenagem a Natália Correia. Uma ode que nos empurra para a descoberta do sentido da palavra felicidade.
Sim, foram tão belos aqueles dias que nos beijámos e cantámos a LIBERDADE. Quando Abril rimava com muitos mil.

Nunca tinha visitado as instalações do Grupo de «Teatro o bando», em Vale dos Barris, em Palmela.
Encontrei um espaço agradável, em plena Serra da Arrábida, um verdadeiro ponto de encontro com a natureza e com a arte.
E, digo-vos, fiquei com pena de só agora ter decidido visitar este «lugar» onde, afinal, é possível partilhar instantes que se cruzam com memórias e onde respiramos sentimentos que, sem dúvida, são marcados pelo prazer de viver com os sonhos a pulsar do coração.

Uma justa homenagem a Natália Correia

Fui assistir ao espectáculo «Crucificado», realizado a partir de «Memórias de uma Tia Tonta» e outros textos de Natália Correia, com dramaturgia e encenação de Miguel Moreira e João Brites.
O que fascinou neste espectáculo foi o conjunto de seus elementos estruturantes – o espaço cénico, o cenário, o ritmo, a luz, o silêncio, as imagens, a musicalidade, os sons, a interpretação, a temática. Um espectáculo sublime.
O texto é o quanto baste. São as palavras necessárias. Ali, a linguagem cénica equilibra-se no seu encontro com as reflexões emergentes da linguagem literária.
Este espectáculo é, ele mesmo, uma justa homenagem a Natália Correia. Uma ode que nos empurra para a descoberta do sentido da palavra felicidade.
Sim, foram tão belos aqueles dias que nos beijámos e cantámos a LIBERDADE. Quando Abril rimava com muitos mil.

Um ambiente «cinematográfico» tridimensional

Quando estamos, sentados, a assistir ao espectáculo, há momentos em que a vida real se mistura com o teatro – um avião que corta o silêncio da noite ou um carro que passa pela estrada. Ficamos na dúvida se aqueles instantes da vida real, são, ou não são parte da vivência cénica.
Porque, afinal, o espaço cénico estende-se, ele mesmo, na distância e perde-se da vista do espectador.
Há como que um ambiente «cinematográfico» tridimensional – actores/ paisagem/imaginário – que obriga o espectador a construir e desconstruir o espaço cénico. Onde começa o teatro e recomeça a vida real.
A “banda” que toca na distância, está distante, aproxima-se, envolve-nos com os seus sons. Tanto parece ser um elemento do espectáculo, como parece algo que lhe é exterior. Estão ali no ir… e levar-nos.
Por vezes, parece que nós, os espectadores, estamos colocados no centro da cena, lembrando o filme «Underground», onde nós somos chamados a sentir-nos como os habitantes da «cave».
A banda com a sua sonoridade despertando-nos para a vida real-teatro e para o sentido do riso.
Um espectáculo que se move todo ele num “ambiente cultural” marcado por uma acção “experimental”, de caricaturas, de simbolismos.
Um teatro de vanguarda. Um teatro livre. Um teatro crítico. Um teatro entre o experimental e o naturalismo.
Um teatro que se reencontra com a história da tragédia Grega, e, simultaneamente, no faz sentir no palco da vida, ali, onde a estrutura de uma mina nos enquadra e nos coloca como «observadores activos» dos sentimentos dos personagens – entre a loucura, a paixão e pensarmos o sabor das palavras. A dicção dos actores é perfeita.
Um espectáculo de «teatro experimental» na criação de novos processos, na representação, no lugar do espectador, no espaço cénico, no encontro com a natureza, na pluralidade de recursos multimédia, com interpretações excepcionais, onde, sentimos o calor humano e a ternura de Adelaide João.
Após o espectáculo ainda ecoa o seu protesto silencioso..estou no ir!

Os personagens são construídos e desconstruídos

Um espectáculo que nos coloca no centro da natureza para, ali, com o luar, o vento, as imagens de caminhos percorridos e de caminhos por percorrer.
A iluminação cria ambiente, desloca-nos o olhar, permite um encontro e desencontro com os jogos das personagens e os seus ritmos no espaço cénico, cujos limites são o infinito.
Ali, com imagens que nos fazem sentir o pulsar do corpo humano, na sua nobreza, nudez e caducidade, somos levados a reflectir sobre o divino e o humano.
O Corpo é um elemento importante neste espectáculo. Na expressividade. Nos registos faciais. Nos silêncios. Nos berros. Nos pinotes. Na paixão.
A terra tem um simbolismo forte, como lugar onde sulcamos o nosso caminho.
Os actores e a interpretação, na sua relação com o espaço cénico – a natureza - são colocados como elemento central e primeiro na construção do espectáculo.
Os personagens são construídos e desconstruídos. O Operário que se transforma no Cristo. O Cristo que se transforma no Operário.
Um reencontro com sonhos. E o desafio de sermos capazes de encontrar novos caminhos, apreendendo com as memórias que forjaram a nossa realidade cultural, que emerge de todos os crucificados.
Sejam os Cristãos. Sejam os Operários. Seja o encontrar o caminho para a felicidade pela fé ou pela razão.

Recomeçar e …estar no ir!

A cena final é um marco, uma imagem que se inscreve na nossa memória. Uma metáfora – onde o simbólico e o estético atingem um nível magistral.
A personagem trágica de Cristo emerge na personagem trágica do Operário-crucificado.
Um «grito estético» que ecoa pela encosta da serra e se inscreve nos nossos sentimentos.
Um final que lança, talvez, uma proposta de catarse, de reencontro com a história da humanidade, a nossa própria história cultural europeia. Dos cristianismos. Dos marxismos.
Um final marcado de uma grande sensibilidade, onde, o teatro se mistura com a natureza, numa profunda dimensão estética, cultural e politica, que coloca ao espectador um desafio, um reencontro entre a razão e o caminho da descoberta felicidade.
Afinal. Se olharmos para trás…são sempre os mesmos os «crucificados», principalmente, aqueles que sonham, aqueles que lutam, aqueles que acreditam que é possível que o homem seja feliz...aqui e agora!
Esta cena final deixa-nos a pensar sobre esse sentimento «político-filosófico» muito em voga sobre o chamado «fim da história».
É, afinal, uma cena que se projecta na distância, com uma beleza sublime que toca na nossa consciência.
Uma cena onde não se coloca uma conclusão, mas, apenas, uma expressão trágico-dramática dos caminhos percorridos pela humanidade e que nos obriga a repensarmos esses caminhos e sentirmos que o homem, no seu reencontro com a sua natureza humana pode sempre recomeçar e …estar no ir!
Parabéns Teatro o bando!

António Sousa Pereira

Um espectáculo a não perder. Em cena até 21 de Junho - Quinta a Sábado, às 22 horas. Domingo às 17 horas.
Informações e Reservas - 21 233 68 50.

Nota - Siga o conselho que é dado antes de partir para o espaço cénico. Leve consigo o saco cama. Pode ser útil. Eu fiquei arrependido de não ter aceite a proposta. Aguenta-se bem, mas protegido é mais agradável.

BREVES REGISTOS



7.6.2009 - 18:28

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