Por Antonio Matias Lopes Quando os especialistas erram com convicção: o urbanismo à luz de Fitoussi
Barreiro
Há um livro recente, “Porque se Enganam os Intelectuais, » de Samuel Fitoussi, que não fala de cidades. Fala de ideologia, de universidades, de intelectuais que defenderam regimes totalitários apesar da evidência acumulada contra eles.

Por Jornal Rostos
E, no entanto, ao lê-lo, foi impossível não pensar nos centros das nossas cidades e em como o mesmo mecanismo que Fitoussi descreve no plano das ideias políticas se repetiu, quase ponto por ponto, no plano do desenho urbano.
A tese central do livro é simples de enunciar e incómoda de aceitar: a inteligência não protege contra o erro. Pode, em certas condições, tornar-nos mais competentes a justificar o que já decidimos acreditar. Fitoussi descreve a razão não como um juiz imparcial, mas como um advogado mobilizado não para testar uma ideia, mas para a defender depois de escolhida.
A cidade como "grande construção abstrata"
Um dos capítulos mais úteis do livro é aquele em que Fitoussi alerta para o fascínio das teorias totalizantes: sistemas elegantes, coerentes, que explicam tudo — e que, precisamente por essa elegância, tentam quem os concebe a corrigir a realidade em vez de corrigir a teoria.
Não conheço melhor ilustração deste fenómeno do que a Carta de Atenas de 1933, resultado do IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna. Le Corbusier e os seus pares reduziram a vida urbana a quatro funções, habitar, trabalhar, circular, recrear, e postularam aquilo a que a sociologia urbana viria mais tarde a chamar determinismo espacial: a crença de que reorganizar fisicamente o espaço, separando funções, elevando os edifícios, multiplicando o espaço verde entre torres, produziria mecanicamente uma sociedade mais saudável, mais igualitária, mais racional. Não era uma simples preferência estética por blocos e avenidas largas; era uma teoria causal sobre a relação entre forma construída e comportamento social, defendida com o mesmo aparelho de certeza com que um economista defende um modelo matemático, e com a mesma cegueira perante os dados que, décadas depois, a desmentiriam: os "grands ensembles" franceses e as torres de habitação social não eliminaram a promiscuidade funcional e a exclusão que prometiam curar, deslocaram-nas para a periferia e agravaram-nas.
O politólogo James Scott deu um nome preciso a este fenómeno em "Seeing Like a State": chamou-lhe "alto modernismo", a fé de um Estado, ou de uma profissão, na sua capacidade de reorganizar racionalmente a vida social a partir de um esquema legível, mensurável, cartografável, e a correspondente cegueira perante aquilo a que Scott chama "metis": o saber prático, local, não formalizável, de quem vive e usa a cidade todos os dias. A rua informal, o comércio de proximidade, os atalhos que os moradores abrem entre quarteirões, não são ruído a eliminar por um plano melhor; são a própria inteligência da cidade, invisível a quem só sabe lê-la em plantas.
O ser humano concreto, com os seus percursos irregulares, o comércio de rua, a mistura de usos, os laços de vizinhança, desapareceu atrás de conceitos como "função", "circulação", "espaço verde", "racionalidade". Exatamente como Fitoussi descreve a propósito da política: os indivíduos reais desaparecem atrás de abstrações como povo, classe ou progresso histórico.
O erro que não se paga
Fitoussi nota que os intelectuais raramente pagam pelos seus erros, ao contrário de um engenheiro que calcula mal uma estrutura: aqui a física impõe uma sanção imediata e inequívoca, a viga cede ou não cede. No urbanismo, o paralelo é mais perturbador precisamente porque há engenheiros e arquitetos envolvidos, e ainda assim o mecanismo de imunidade funcionou, não por ausência de física, mas por um desfasamento temporal que a física não tem. Um erro estrutural revela-se em segundos; um erro de zonamento revela-se em duas ou três gerações, quando os seus autores já se reformaram, morreram, ou são celebrados por outra obra. Quando os "grands ensembles" se revelaram guetos de exclusão social, décadas depois de construídos, a resposta institucional raramente foi "a teoria estava errada". Foi antes: faltou manutenção, faltaram equipamentos sociais, seria preciso mais investimento, nunca o próprio modelo espacial. Esse desfasamento entre a autoria da decisão e a manifestação do dano não é acidental: é a condição estrutural que torna possível o mecanismo psicológico que Fitoussi descreve, porque ninguém é obrigado a confrontar o próprio erro enquanto este ainda tem nome e morada.
Karl Popper deu um critério para distinguir ciência de pseudociência: uma teoria só é científica se for falsificável, se existir um resultado empírico capaz de a desmentir. O que Fitoussi descreve, e que o urbanismo modernista ilustra com uma nitidez quase didática, é a produção de teorias que deixaram de ser falsificáveis na prática, não porque fossem irrefutáveis em princípio, mas porque a comunidade profissional que as sustentava desenvolveu um repertório inesgotável de explicações alternativas para cada fracasso. Não é a teoria que é posta à prova pelos factos; são os factos que são reinterpretados para que a teoria nunca chegue a ser posta à prova.
É a mesma estrutura argumentativa que Fitoussi identifica na defesa do comunismo perante os seus fracassos: a teoria torna-se irrefutável porque cada fracasso é absorvido como prova de aplicação insuficiente, nunca como prova de erro de conceção.
O que Fitoussi acrescenta a Popper, Scott e Bourdieu
Nada disto seria, por si só, novidade para um sociólogo urbano. Popper explica por que a teoria se torna irrefutável; Scott explica por que Estados e profissões preferem esquemas legíveis a saberes práticos; Bourdieu, em obras como "Homo Academicus" ou "As Regras da Arte", explica por que um campo profissional, o dos urbanistas e arquitetos, tal como o dos intelectuais, gera o seu próprio doxa, a ortodoxia tácita que os seus membros nem sequer reconhecem como uma opção teórica entre outras, e recompensa a fidelidade a esse doxa com capital simbólico: prémios, encomendas, lugares de ensino. Não é por acaso que a dissidência mais eficaz contra Le Corbusier veio de Jane Jacobs, uma jornalista sem formação em arquitetura: o campo profissional tinha fechado as suas fronteiras de legitimidade de tal forma que só alguém de fora podia dizer o óbvio sem pagar o preço da heterodoxia.
O que Fitoussi acrescenta a este edifício teórico já bem estabelecido é uma camada mais fina, quase clínica: descreve o mecanismo psicológico individual que torna esse campo possível, o momento em que a razão de cada arquiteto, cada urbanista, cada intelectual, deixa de funcionar como instrumento de verificação e passa a funcionar como advogado de defesa da posição já tomada. Bourdieu explica a estrutura; Fitoussi explica a fenomenologia de quem, dentro da estrutura, sente sinceramente que está a pensar com rigor. É essa sinceridade subjetiva, e não a má-fé, que torna o erro tão duradouro, e é isso, mais do que uma teoria nova da cidade, que o livro me obrigou a levar a sério.
Barreiro e Coimbra: dois laboratórios do mesmo erro
O Barreiro que conheço desde criança, filho de operários da CUF, foi desenhado segundo a mesma fé no esquema legível: fábrica, habitação operária, comércio e lazer separados e hierarquizados por um plano industrial que Scott reconheceria de imediato como alto modernismo aplicado a uma cidade química. Quando a desindustrialização das décadas de 1980 e 1990 expôs os limites desse desenho, o campo técnico-político local reagiu com o doxa esperado: não foi o zonamento que falhou, foi a falta de investimento, a lentidão da reconversão. O centro do Barreiro paga ainda hoje o preço de uma teoria nunca falsificada, apenas adiada.
Na Baixa de Coimbra, objeto da minha investigação de doutoramento entre 2001 e 2024, o mesmo mecanismo assume a forma que proponho chamar de "centralidade dissociada": um centro histórico que perde comércio de proximidade, habitação e vida quotidiana sem que os sucessivos planos de requalificação, a expansão da Universidade para os polos periféricos, ou a concorrência permitida dos centros comerciais, sejam alguma vez lidos como erro de conceção. São sempre uma modernização incompleta, nunca uma hipótese desmentida pelos factos, o mesmo movimento de fuga à falsificação que Popper descreveu, e que Fitoussi mostra operar, primeiro, na cabeça de cada técnico convencido de que desta vez pensou com rigor.
A lição que retiro para o nosso ofício não é anti-intelectual, seria uma leitura preguiçosa do livro. É antes uma advertência sobre a humildade epistémica que falta muitas vezes ao planeamento urbano: a distinção entre o modelo teórico e os resultados verificáveis no terreno; a exposição deliberada a quem pensa diferente (o Jane Jacobs de cada geração de urbanistas, a contestar o Le Corbusier de serviço); e a disposição para admitir publicamente que um centro histórico esvaziado por um plano de "modernização" foi um erro, e não apenas uma etapa incompreendida de um processo correto.
Os centros das cidades que hoje tentamos devolver à vida, Coimbra incluída, pagam ainda hoje o preço de convicções que, na sua época, pareciam tão inatacáveis como qualquer ideologia política. Vale a pena lembrá-lo da próxima vez que um plano nos for apresentado com a certeza tranquila de quem já resolveu todas as perguntas antes de as fazer.
António Matias Lopes – Investigador Urbano- UC-FEUC/CES.
Setembro 2026














