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Bastidores

DIA MUNDIAL DOS DIREITOS DO CONSUMIDORCIAC BARREIRO FAZ RETROSPECTIVA DA DEFESA DO CONSUMIDOR EM PORTUGAL

No âmbito do Dia Mundial dos Direitos do Consumidor, assinalado hoje, dia 15 de Março, o CIAC recorda a evolução e expansão da sociedade de consumo em Portugal e a crescente tomada de consciência dos consumidores para os seus direitos.

4 min de leitura
DIA MUNDIAL DOS DIREITOS DO CONSUMIDOR CIAC BARREIRO FAZ RETROSPECTIVA DA DEFESA DO CONSUMIDOR EM PORTUGAL

Por Jornal Rostos

“Ainda há bem poucos anos, nenhum consumidor português pensava em defender-se.
Confrontado sobretudo com mercados de âmbito local, onde os circuitos comerciais decorriam num quadro simples e claro, os problemas de consumo ou não eram graves ou resolviam-se cara a cara.
Fraudes também as havia, mas a proximidade entre a produção e o consumo tornava mais fácil descobrir se o vinho era a “martelo” ou se o coelho era “gato”.
As próprias técnicas de marketing e a publicidade, que na altura se chamava “reclamos”, não iam longe nos métodos incipientes que adoptavam.
Muitos produtos tinham apenas a marca institucional, originando campanhas de orientação promovidas pelo Estado, visando inculcar hábitos de consumo.
Estávamos no final dos anos 60 e, quando em outros países europeus já se instalara a guerra das imagens de marca, por cá o governo ainda nos mandava comer a pescadinha de Sesimbra e os ovos carimbados.
Se a tendência para a mudança começou a verificar-se com a adesão à EFTA, a revolução de Abril significou um novo compasso de espera para o mercado português. Nessa altura, o consumo queria-se uniformizado e simples, chegando a pensar-se adoptar um sistema de embalagem única de “produtos brancos”.
No final da década de 70, a situação já indiciava mudança. A Coca-Cola entrou no mercado português em 1977 e a televisão a cores chegaria em 1980.
Nas lojas ia aparecendo um bricabraque de utilidades para o lar, hoje perfeitamente banalizadas em catálogos que nos chegam pelo correio, ou através da televisão.
Em pouco tempo, de uma forma rápida e compacta, o mercado português passou da míngua ao excesso.
Liberto de muitas das restrições alfandegárias, ao país chegavam produtos de todo o mundo.
A integração na CEE e a vinda dos respectivos fundos de ajuda económica, o regresso das multinacionais publicitárias, Com o início da televisão a cores, a expansão publicitária (1981 a 1988) decuplicou os seus investimentos.
O BOOM consumista e a sua euforia acarretaram um alargar do leque de escolhas e até de qualidade, mas em contrapartida, a cosmética da publicidade e as características técnicas dos novos produtos passaram a escapar cada vez mais aos critérios de escolha dos consumidores.
A expansão do mercado de consumo e a sofisticação publicitária cresciam em progressão geométrica, as estruturas oficiais de defesa, fiscalização e informação ao consumidor mantiveram-se a funcionar ao “ralenti”, com poucos quadros, verbas limitadas e poucas acções.
Numa visão generalista, a sociedade civil portuguesa, habituada ao come e cala e, eufórica com o novo comércio, comia e calava!
Os jornais vieram abanar o sonambulismo e passividade do consumidor.

Começaram por tratar de assuntos, não só relacionados com a carne, a fruta, o leite, o peixe, o vinho…, como as condições de segurança dos centros comerciais, dos cinemas e das discotecas, a tristeza gastronómica das cantinas escolares e mesmo as creches-aviários, onde as crianças eram depositadas. As vigarices que se escondem por detrás dos negócios que prometiam acabar com as carecas e com as gorduras. O massacre dos transportes rodoviários e o escândalo do armazenamento dos idosos em lares privados e, também a burocracia torturante das repartições públicas, que na altura eram autêntica força de bloqueio ao quotidiano dos portugueses.
A escala da trafulhice encontra-se agora a um nível planetário, com a integração no mercado mundial dos produtos e, o problema é que as estruturas de fiscalização e controle oficiais existentes continuam a ser cronicamente mantidas em estado de subnutrição.
Não foram garantidas as necessidades do momento e, não se acautelaram as necessidades que se avizinhavam com a entrada de Portugal na CE - Comunidade Europeia.
O crédito ao consumo banalizou-se e hoje é enorme o número de famílias endividadas.
Vivem-se actualmente momentos de crise, que não é só económica.

O desafio é de vulto, mas a solução é só uma: a máquina de defesa do consumidor, que até ao momento apenas chocalha peças soltas, terá de passar a funcionar para bem de todos nós”.

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