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Colunistas

Por António Matias LopesA ponte e o silêncio
Barreiro

Na mesma semana, o Presidente da Câmara do Barreiro mostrou-nos as suas duas faces. A 21 de Setembro, na Casa da Cidadania Caboz Gonçalves, abriu o primeiro dos cinco «Encontros com a Região» com que a Comunidade Intermunicipal da Península de Setúbal, a que preside, pretende recolher contributos para o Plano Estratégico 2028–2034. No dia seguinte, o Rostos publicou a entrevista em que Frederico Rosa comenta a distinção Rosto do Ano. Vale a pena lê-las juntas, porque uma explica o que falta na outra.

8 min de leitura
Por António Matias Lopes A ponte e o silêncio Barreiro

Por Jornal Rostos

Uma despedida anunciada

Há entrevistas que se lêem como um balanço e outras que se lêem como uma despedida. Esta pertence à segunda família. Três vezes fala de “transitoriamente”. Diz que não sabe se voltará a ocupar outro cargo político e que isso “não é importante”. É a voz de quem já olha para o mandato pelo retrovisor, quando ainda lhe faltam três anos para o cumprir.

Registo, antes de mais, o que é justo registar. Há na entrevista frases com que qualquer pessoa séria concorda: a política deve resolver os problemas das pessoas, fugir ao populismo e às soluções simplistas, olhar para as questões estruturais e não para a espuma dos dias. E no Encontro da véspera o Presidente foi mais concreto do que na entrevista. Reconheceu os serviços saturados, o problema da habitação e o facto de sermos “a região do país onde mais tempo se consome de casa para o trabalho e do trabalho para casa”. Disse que a Península “não pode ser um território que só pensa crescer ao nível da habitação”. Segundo os números que apresentou, a Península passou de 800 mil para um milhão de habitantes entre 2021 e 2025 e chegará a um milhão e meio dentro de dez anos. São números que merecem ser confirmados, mas a direcção ninguém a contesta. Subscrevo o diagnóstico. O problema não está no que se diz. Está na distância entre o que se diz e o que se pratica.

O espelho do discurso

Na entrevista, o Presidente lamenta que hoje seja “muito fácil instrumentalizar opiniões”. Lamenta que as pessoas “não têm tempo para ouvir, não têm tempo para apreender”, e que haja quem fale de soluções fáceis sem conhecer a complexidade da realidade. É uma crítica conhecida: as pessoas falam do que não sabem.

Mas uma crítica destas tem sempre dois lados, e um espelho não escolhe quem reflecte. Quem governa há quase uma década, com maiorias absolutas sucessivas e com lugares acumulados na Câmara, na Área Metropolitana, na Comunidade Intermunicipal e no Conselho Regional da CCDR-LVT, corre também o risco de falar do que já não ouve. O poder prolongado tem um defeito conhecido: rodeia-se de concordância, confunde o silêncio com consenso e passa a ver a divergência como um incómodo, não como informação.

Muitos barreirenses, e não só os da oposição, sentem que no Barreiro de hoje a opinião livre tem um preço. Sentem que o espaço público de discussão encolheu e que quem pensa diferente passou a ser olhado de lado, em vez de ser ouvido. Pode ser uma percepção injusta. Mas numa democracia local as percepções também são factos políticos, e quem apela ao “diálogo mais abrangente” devia ser o primeiro a desmontá-las. O isolamento e o controlo não são sinais de força, são um obstáculo. E o primeiro prejudicado é quem governa, porque deixa de saber o que se passa fora do seu círculo.

Participar em quê, e onde?

A mensagem final da entrevista é um apelo à “participação com um olhar crítico” e à “participação como criadora de soluções”. No Encontro, o moderador, Miguel Major, prometeu “uma estratégia construída com a região e não apenas para a região”. O Secretário Executivo da CIM, Álvaro Balseiro Amaro, garantiu que todo o processo se desenvolverá “de forma participada, de forma permanente”. Óptimo. Mas a participação não se decreta numa entrevista nem num discurso de encerramento. Constrói-se com espaços, procedimentos e tempo: consultas públicas a sério, com as alternativas em cima da mesa, e sessões onde a crítica tem resposta e não apenas registo. É preciso que as associações, os técnicos e os cidadãos saibam o que foi feito do que disseram.

O teste é simples. Os contributos recolhidos nestes encontros vão ser devolvidos publicamente, com a indicação do que foi aceite e do que foi recusado, e porquê? E a participação que se promete à escala da Península vai praticar-se também à escala do Barreiro? Pedir participação crítica e depois tratar a crítica como hostilidade é uma contradição que os barreirenses conhecem bem.

Porquê a espera?

O Presidente diz, e bem, que o Barreiro e a Península de Setúbal vão passar por “um momento completamente transformador”. A ponte Chelas–Barreiro, a ponte Barreiro–Seixal e o aeroporto de Alcochete não afectam apenas os concelhos onde assentam: vão mudar os preços da habitação, os fluxos de mobilidade, a estrutura do comércio e a composição social dos bairros. Os dados apresentados no Encontro são claros. A habitação está acima da média nacional em preço, os indicadores de pobreza e exclusão estão acima dos do país, a oferta hospitalar por habitante é inferior e mais de 20% da população tem mais de 65 anos. Miguel Major deixou a pergunta certa: estaremos a conseguir fazer crescer a capacidade social e pública ao ritmo a que cresce a população?

É aqui que as duas intervenções me deixam a pergunta mais importante: o que esperar dos restantes anos do mandato? O Plano Estratégico só vale para 2028–2034, e os primeiros documentos só chegarão aos órgãos intermunicipais no fim de Outubro ou em Novembro. Mas a transformação não espera pelos planos. Estes três anos não são uma sala de espera. São o momento decisivo. É agora que se define se o Barreiro será uma centralidade metropolitana com vida própria ou um dormitório valorizado do outro lado da ponte. É agora que se protege, ou se deixa ir, o centro tradicional, os seus moradores, o seu comércio e a sua memória. É agora que se prepara a frente ribeirinha, que se garante habitação acessível antes que a especulação chegue, que se negoceia com o Estado o que a ponte deve deixar ao Barreiro e não apenas o que ela leva.

Falar do futuro como algo a que “nos vamos adaptar” é aceitar um papel passivo. As cidades que souberam aproveitar as grandes infra-estruturas, e acompanhei várias ao longo da minha vida profissional, não se adaptaram: anteciparam-se. Bilbao não esperou pelo Guggenheim para repensar o Nervión. Hamburgo não esperou pela HafenCity para desenhar a sua relação com o porto.

As universidades, finalmente

Fico contente por verificar que, nos painéis de discussão promovidos pela Comunidade Intermunicipal, há sempre académicos entre os participantes. No Encontro do Barreiro ouviram-se da Universidade NOVA, do Politécnico de Setúbal e da Egas Moniz as palavras certas. Paula Urze pediu que se ouvissem as pessoas, que se antecipasse e que não se fragmentasse a realidade. Madalena Gomes da Silva lembrou que “a saúde depende da habitação” e que “é preciso antecipar problemas para podermos responder”. José João Mendes propôs a cooperação entre universidades e municípios, uma federação dos parques de empreendedorismo da região e um curso de medicina na Península. Ouviu-se também que o Politécnico forma enfermeiros que emigram, porque as condições são melhores “aqui mesmo ao lado”. É o retrato de uma região que produz conhecimento e não o consegue reter.

Faço, por isso, a pergunta sem arrogância, mas com a franqueza que a vida pública exige: foi preciso que outros o escrevessem, aqui mesmo nestas páginas, para que esta evidência chegasse à agenda? Se a resposta for não, melhor. Mas convidar académicos para um painel não é o mesmo que decidir com base no que eles estudam. O diagnóstico está feito, e foi feito à frente do próprio Presidente. Quem executar o Plano já não será, provavelmente, quem o encomendou. Se estas presenças académicas ficarem pela fotografia de circunstância, terão servido de pouco.

Lançar pontes, também para quem critica

A frase mais bem conseguida da entrevista é a última: além das pontes físicas, precisamos de “lançar pontes, para unir opiniões diferentes, sentimentos diferentes”. Aceito o desafio e devolvo-o. Uma ponte que só liga quem já está de acordo não é uma ponte, é um corredor. Se o Presidente quer deixar um legado que vá além do betão, dos planos e do calendário eleitoral, tem três anos para o provar: abrir a Câmara à divergência, ouvir quem estuda o território e agir antes da transformação, não depois dela.

Seria a melhor forma de se despedir. E de não ter de se despedir cedo demais.


António Matias Lopes

Investigador Urbano- Doutorando em Sociologia – Cidades e Culturas Urbanas na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra / CES.

Setembro 2026

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