Barreiro - Francisco Moita Flores na Tertúlia Augusto CabritaAntero Quental - o homem tem necessidade da sua própria transcendência
Antero Quental, “nasceu no tempo de todas as descobertas do século XIX, de toda a euforia do século XIX, vivida através das descobertas científicas e do conhecimento cientifico, recordou Francisco Moita Flores.

Por Jornal Rostos
No arranque do novo ano lectivo recomeçaram as Tertúlias da Escola Augusto Cabrita, que são um ponto de encontro com a comunidade e simultaneamente um laboratório do conhecimento.
Nesta primeira sessão foi convidado o escritor Francisco Moita Flores, que deu uma palestra dedicada à Vida e obra de Antero Quental. A sessão foi moderada por Natália Nunes.
Espírito mais brilhante no século XIX em Portugal
Francisco Moita Flores, começou por referenciar que Antero Quental “é um antigo tema da minha vida”, sublinhando que – “termos Antero nas nossas vidas e nas nossas conversas é termos o espírito mais brilhante produzido no século XIX em Portugal”
“Não há, não houve inteligência tão fina como a inteligência e o espírito critico e o seu olhar sobre o tecido social, que Antero entregou a Portugal”, disse.
Recordou que Antero Quental ainda faz parte dos programas escolares, “ainda é estudado, ainda é um autor omnipresente na literatura, na filosofia e na política, onde teve uma participação activa e proeminente”.
«Um génio que era santo»
Francisco Moita Flores, referiu que no ano de 1896, cinco após a morte de Antero, seu amigo Alberto Sampaio convidou outros amigos do poeta- filósofo para escreverem um texto «in memoriam de Antero Quental».
Entre eles, disse, Eça de Queiróz, escreveu um «texto sublime», no qual afirma que Antero é «um génio que era santo», foi das “páginas mais brilhantes que eu já li sobre o valor da amizade, um texto em que Eça falou das qualidades ímpares do poeta, do filósofo, um génio, um Santo, “no sentido laico do termo”.
Afirma-se como socialista
Francisco Moita Flores, recordou que Antero “não tinha uma grande expectativa em relação ao Deus dos católicos, ele tinha uma visão panpsiquista, muito mais próxima de S. Francisco de Assis, que das ideias da Igreja Portuguesa”
No tempo em que nasceu, Antero, pela sua inteligência, tinha de ser forçosamente um génio, salientou.
Nasceu no tempo de todas as descobertas do século XIX, de toda a euforia do século XIX, vivida através das descobertas científicas e do conhecimento cientifico, recordou.
“Ele domina o positivismo, de Augusto Comte. Domina a expectativa de uma sociedade mais justa, que começa a surgir com pensadores como Proudhon ou nos socialistas utópicos. Afirma-se como socialista, e faz parte da fundação do Partido Socialista Português. O PS que ele criou, que está nos seus escritos e poesia, nada tem a ver com o PS que temos hoje”, referiu Francisco Moita Flores.
Uma dimensão espiritual
Na sua intervenção, o escritor, saleinta que Antero Quental, «tinha uma dimensão espiritual, uma necessidade metafisica muito forte e uma aspiração de justiça social muito grande”, aspirações que estão no território das ideias e não das práxis políticas
“Torna-se um grande adepto do positivismo, a razão e a racionalidade ao serviço da descoberta da ciência, e do aprofundamento do conhecimento científico, é qualquer coisa que o deslumbra.”, disse.
Recorda, que Antero procura através da possibilidade da ciência, através da razão, sedimentada num método científico, poder atingir a Liberdade.
Liberdade suprema, que ele aprendeu com o Hegel, porque foi um leitor profundo de Hegel e da ideia dialéctica de Hegel, como um dos parâmetros para aplicar na sociedade.
“Antero ganha uma dimensão moderna, e pela sua própria natureza, sente a necessidade de inspirar outros, para aquilo que, para ele, era o acordar do novo tempo, de uma nova idade que surgia com o conhecimento cientifico”, salienta Francisco Moita Flores.
Pensamento paroquial que domina a sociedade portuguesa
Nas suas vivências em Coimbra, Antero “começa a agitar consciências”, cria a sociedade o Raio, onde se discutem as novas ideias”, de Victor Hugo e pensadores de França e da europa.
Antero “tem uma visão muito larga daquilo que é a diferença entre países desenvolvidos da Reforma e aquilo que são os países subdesenvolvidos da Contra Reforma, caso da Espanha e Portugal. “, disse o escritor.
Na sua obra «A causa da decadência dos povos peninsulares», Antero Quental refere “o nosso subdesenvolvimento” e aponta “a necessidade de Portugal romper para o mundo, romper para as ideias, romper para o conhecimento.
Que vá para além do conhecimento de sacristia e do pensamento paroquial que domina a sociedade portuguesa”, sublinha Moita Flores.
Geração 70 - nunca foram de forma unívoca e universal uma geração
“A sociedade portuguesa vivia um tempo, diria cinzento, muito parecido ao tempo de hoje, na pintura, na música, na literatura, as coisas viviam dentro do quadro do romantismo, existindo raras excepções”, disse.
Antero vive “um tempo de ruptura, do conhecimento científico, da imposição da racionalidade e do positivismo. Tempo das grandes descobertas e das grandes percepções no domínio das artes, que vão desaguar directamente no realismo e na discussão sobre o realismo, que a geração 70, como é chamada, por João Gaspar Simões. Que não é bem uma geração, é um slogan, porque todos eles são de diferentes origens, todos tiveram caminhos diferentes, e, os seus percursos cruzam-se pontualmente, Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Teófilo Braga ou Ramalho Ortigão – “cruzaram-se em certos momentos na vida. Foram contemporâneos. Nunca foram de forma unívoca e universal uma geração”.
Coimbra é um meio da rebelião
Coimbra é um meio da rebelião e ficou para a história como o lugar da questão coimbrã, com o registo de Antero e Teófilo que enfrentaram o grande patrono das artes e da poesia Feliciano Castilho, por Antero definido como o “presidente de um clube do cumprimento mutuo”, porque, era, Feliciano tinha que confirmar tudo.
Por essa razão, Antero Quental, defendia que “nós não precisamos de ter donos nem patrões, não temos nada a ver com essa literatura oficial, que falam do vazio, que cantam o amor eterno vazio e decadente e sem contacto com o real.
Nós somos a outra geração, partimos do real para assumirmos as verdadeiras dimensões da vida, nada comprometidos com a subserviência, com o cumprimento, com a veneração, vemos a evolução da realidade tal como ela é, mostrando e introduzindo, nela, tal como ela é”, recordou Francisco Moita Flores.
“Eça de Queirós vê o realismo como um grande caminho para o osso da verdade, é preciso chegar ao osso da verdade. O osso da verdade é o realismo nas suas formas mais esplendorosas. Eça o grande timoneiro do realismo, massacra o real português da altura, com as chispas de ironia, um perfeito mestre a ironia. O primeiro da nossa galeria de cínicos”, disse o escritor Moita Flores.
Antero nos caminhos do realismo e naturalismo
Antero Quental, “não consegue ver o positivismo como aquela caminhada para a desnecessidade de Deus, ou uma procura da verdade absoluta, através dos instrumentos da ciência.
A ciência não é suficiente para Antero, para além das verdades absolutas do bisturi, das descobertas do laboratório, as autópsias”, disse Francisco Moita Flores.
“O homem tem necessidade da sua própria transcendência, é preciso equilibrar o discurso do realismo, realista, científico, articulando -o com uma outra decisão, que é a decisão de conseguir construir um homem, que deve ter na sua expectativa aquilo que é um denominador comum de todos os homens – a sua própria escatologia e a sua própria necessidade de infinito.”, acrescentou Moita Flores.
Não há nenhum de nós que não aspire à imortalidade
“Em todos nós, existe uma contradição profunda, todos sabemos que num dia e numa hora iremos morrer, e, todos nós aspiramos à imortalidade. Não há nenhum de nós que não aspire à imortalidade. É nesta contradição que Antero, avança para outro tipo de raciocínio e outra elaboração intelectual, que vai para além do positivismo. Quer ultrapassar o patamar do positivismo através de uma elaboração da física que interpele os sinais do homem e da sua existência. Antero capta a ideia de que nós vivemos dentro de um pessimismo activo, necessitando de mais, queremos sempre estar a construir coisas, até chegarmos ao momento do nada absoluto”, disse.
“Na morte passamos para optimismo transcendental. O Optimismo transcendental é uma metafisica que tem a necessidade de Deus. Não estou a falar do Deus católico, nem o deus cristão. É o Deus, do nirvana, budista, onde assumimos toda a nossa existência em toda a sua plenitude.
Conferências do Casino Lisbonense um embate contra o estado
Na sua intervenção, Francisco Moita Flores, referiu que as Conferências do Casino Lisbonense, foram “um embate contra o estado, contra o poder absoluto, contra a realeza” e foram “um momento de apoteose”.
Numa das cinco conferencias, Antero falou sobre a causa da decadência dos povos peninsulares, expressou o seu intenso patriotismo, a sua conferência, é actual, do ponto de vista das mentalidades e da produção dos discursos do poder – “é tão actual que arrepia, como é possível passados 250 anos, nós, andámos tão pouco”.
“Continuamos a ser um país subdesenvolvido, culturalmente desnutrido, que aqui está, neste canto da europa, sem conseguir sair daqui, por mais esforços e medidas que se queiram tomar, por aqueles que gostam de nós, ou que nos matam a fome, que é a União Europeia.
Nós vivemos esta ilusão, a ilusão de um país, em franco progresso, nós só vivemos como vivemos, porque temos milhares de milhões que nos são dados pela União Europeia, que são os países do norte, que nos dão este dinheiro. Hoje já não se chama esmola, chama-se subsídio, mas as finalidades do subsídio são as mesmas. Este é um país que não é autónomo, nunca foi autónomo, deixou de se tornar autónomo, desde o século XVII, como disse Antero Quental.”. sublinhou Moita Flores.
Uma aliança entre o trono e o altar
O escritor Francisco Moita Flores, recordou os pilares, descritos por Antero Quental para caracterizar as razões da decadência, por um lado “o poder anquilosado, sustentado numa nobreza, e num projecto de conquista militar”, por outro lado, “a subordinação ao preconceito religioso, ao medo religioso, que fazia que o país vivesse atormentado, entre o trono e o altar. O Antigo Regime, não passava de uma aliança entre o trono e o altar,”, recordou, citando Oliveira Martins.
O escritor referiu que a conferências do casino tornaram-se num escândalo, por essa razão foram suspensas, por serem os seus protagonistas considerados – “inimigos da civlização”, e, esses, “não falam”.
As conferências são tema de debate no Parlamento e a suspensão é reconhecida como uma “decisão inconstitucional”.
O Marques da Vila, que suspendeu as conferências, acaba por cair, recordou Francisco Moita Flores.
Profunda depressão que o leva ao limite
Francisco Moita Flores, salientou a importância de ser conhecido o outro lado de Antero Quental, conhece-lo “não só na filosofia e na literatura”, mas conhecer o “lado da sua própria natureza, ele é um homem frágil”
Um homem que se divide entre a grande euforia e o entusiasmo, tem grande depressões, depressões que vão-se acentuando.
No seu “último combate”, aquele que aceitou ser o presidente da Liga Patriótica do Norte, contra os ingleses, sente-se que para Antero Quental já “não há entusiasmo”,
Um movimento que findou com a compra de um couraçado para combater Inglaterra.
Francisco Moita Flores, recorda que a sua tese de doutoramento, foi sobre a morte e o suicídio de Antero Quental, no ano de 1891, em S. Miguel, nos Açores, terra onde nasce.
Referiu que existe muita mitologia em torno da morte de Antero, porque aqueles que amam, alguma realidade, por vezes, perdem o sentido do limite.
Há os que encontram na poesia de Antero a antevisão da sua morte.
“Não é assim. A poesia dela é uma poesia inteira, entre o pessimismo activo e o optimismo transcendental”, disse.
Recorda que Antero Quental, “cai numa profunda depressão que o leva ao limite. Ele morreu com um tiro na cabeça. Não por causa da sua filosofia, não por causa dos seus sonetos, não por causa da literatura, não por causa da coisa pública. Antero, morreu porque estava doente, deprimido. Foi apenas um homem deprimido”, disse.
Sempre que escreve, ele escreve aquilo que sente
Moita Flores, recordou que na tradição hegeliana, Antero “procura o bem universal, a justiça universal, tudo o que demais perfeito exista na existência humana.”
“Sempre que escreve, ele escreve aquilo que sente. Antero era um poço cheio, desejoso de ser ainda mais cheio, desejoso de um mundo universalmente bom, bondoso, um mundo que ele procurava através da literatura, da filosofia. Esse bem universal que Hegel, era o grande anunciador.”
António Sousa Pereira













