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Bastidores

QuotidianosUma gota que se esvai na terra entre flores

O dia de hoje amanheceu triste. Uma única gaivota voava no espaço.
O horizonte estava marcado pela penumbra que marca a distância entre o caminho que percorremos, os sonhos que construímos, e, afinal, a única certeza que fica – tudo tem um fim.
3 min de leitura

Por S.P.

É, neste dias, amargos, feitos da cor das lágrimas que nos rasgam os nervos que nós, paramos e encontramos o silêncio, cá dentro, bem dentro de nós. Um silêncio feito de recordações, de partilha e angústia.
Paramos e pensamos – afinal para que servem todas estas dores que, por vezes, enchem os nervos dos nossos dias ?
Paramos e pensamos os momentos que partilhámos com alguém que, naquele dia, pela causa natural da vida, ou pela precipitação da causa natural da vida, deixou-nos, mais sós, mais pensativos e mais perto do nosso futuro.
Todos temos este caminho marcado.
Vou caminhando pela rua. Subo a escada, onde, por vezes cruzava os meus passos com os seus passos. Ela cumprimentava. Sempre com um sorriso. Um sorriso maior que o seu corpo, muito maior que o seu corpo. Um sorriso feito da imensidão da palavra amizade.
Um sorriso feito de momentos vividos em comum, de respeito e comunhão.
Recordo a alegria de vermos as nossas crianças saltitando e subindo, naqueles dias de Festa – o nosso Sarau.
Ela lá estava, sempre na equipa da frente. Ela lá estava, sempre disponível para dar o seu tempo à causa comum – a nossa velhinha.
Depois quando nos encontrávamos, nos caminhos do dia a dia, na nossa empresa comum, ela comentava : “O nosso Sarau foi muito bonito”.
E, ficávamos, a aguardar a festa do ano seguinte, sempre com a mesma disponibilidade e entrega.
Sinto que nunca mais vou brincar, com aquele meu grito estridente, a imitar a sua voz aguda, um som próprio, fino e melódico.
Sinto que perdi uma amiga, alguém que sempre teve por mim, tal como o seu companheiro e filha, uma amizade sincera, aquela amizade que se dá e nada pede em troca, senão um sorriso.
E, hoje, ao fim da tarde, ao escrever esta crónica do quotidiano, dói-me o coração, revolta-me a minha impotência, a nossa impotência perante a vida.
Somos uma gota que se esvai e perde na terra entre flores.
Vejo, aquela menina, de lágrimas nos seus olhos, e no meu pensamento ocorrem os momentos de encontro : a menina e a mãe – a atleta e a mãe companheira de todos os seus sonhos. Os Trampolins. A música.
“Oh Senhor Sousa, ela agora está mais dedicada à música. Mas tem saudade da Ginástica” – comentava.
Nestes dias paramos. Paramos. Olhando ao nosso redor encontramos rostos marcados de lágrimas.
Hoje o dia nasceu triste. Um pouco das pequenas coisas e simplicidade que fazem os nossos dias ficou pelo caminho – um sabor a café amargo!
Força! Que mais teremos para dizer senão apenas isto: Força miúda! Força amigo!
A vida marca-nos com os sulcos da morte e diz-nos que, afinal, deveríamos ser capazes de viver, todos dias, aprendendo esta lição : viver é aprender a morrer!
E, nestes dias tristes, com a dor nos olhos, com o silêncio no coração, devemos ser capazes de perceber também esta verdade : na vida, todos são necessários e todos nos fazem falta, principalmente, quando a amizade se coloca como farol dos nossos dias.
Adeus. Um beijo.
Fiquei distante a olhar, porque gosto de guardar comigo, de todos aqueles que partem, tal como um dia hei-de partir, a imagem do último momento que partilhei – um grande sorriso e aquele som : “Olá Bom Dia!”
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