Telenovela – Um lugar na históriaCapítulo V
A comunicação on line
Por Jornal Rostos
Ela acordou esticou os braços e sentiu que alguém estava a seu lado. Sorriu. Há muito tempo que não sentia o calor de um sorriso ao acordar.
Levantou-se de um salto, eram dez horas. Começou por ligar o computador e efectuar a sua visita matinal ao “Rostos on line”, particularmente à “Carreira 7”. Ela era uma fã da Carreira 7. Leu palavra a palavra e foi com surpresa que leu as últimas daquele dia.
Ele acordou. Eram horas de recomeçar mais um dia. Foi á cozinha aqueceu um copo de café com leite e fez uma torrada. De imediato ligou o computador. Era um gesto matinal. Sentia uma alegria enorme de começar os seus dias a navegar pela “Carreira 7”. Divertia-se. Ria-se sozinho a bom rir.
Ela chegou ao emprego. Sentou-se à Secretária. Ligou o computador. Dava-lhe uma alegria enorme começar os seus dias a visitar a “Carreira 7”. Depois procurava descobrir as personagens.
A “Carreira 7 “ fazia parte de quotidiano de muita gente. Os políticos começaram a ficar preocupados. Numa reunião de “altas esferas” foi debatida a “Carreira 7” e a “telenovela” que está a causar alguma sensação. Houve quem considerasse que era necessário utilizar uma estratégia com o objectivo de esvaziar a “força da telenovela” e da “Carreira 7”. Foi decidido: a partir de hoje nunca mais ninguém vai falar da “Carreira 7”.
Mas a verdade é que as visitas ao “Rostos on line” de dia para dia não paravam de aumentar. E apesar de todas as tentativas de silenciamento, a verdade é que aquela era uma onda que envolvia toda a cidade.
Era uma verdadeira telenovela da vida real. Os personagens encontravam-se e procuravam identificar-se.
Era um perigo. Foi decidido colocar escutas. Era preciso existir uma noção real de quantas pessoas liam a “Carreira 7”.
A verdade é que, quando a “Carreira 7” não realizava as suas viagens, logo, de imediato, aumentavam os telefonemas e os e-mail’s interrogando : “Então houve avaria do autocarro? Deixou de se fazer a viagem da Carreira 7 ? vai ser feita a viagem noutro percurso ?
A “Carreira 7” era uma exigência. Era uma necessidade. Todos sentiam que aquele momento matinal era essencial para a vivência de um dia mais sorridente.
O grande mistério era de facto saber quem eram as personagens. Uns identificavam x com y. Outros identificavam y com n. Outros n com x. Uma bagunça.
Foi decidido colocar gralhas nos textos, para criar impactos. Uma ideia de imediato aproveitada por alguns especialistas de comunicação. Nunca fez mal aprender com os erros dos outros.
Ele deu-lhe um pontapé por baixo da mesa. Cala-te. O homem de imediato mudou de opinião. O que antes era azul passou a ser azul marinho. Os grandes dirigentes vêem-se nestas ocasiões. Nos pontapés que dão e obrigam a mudar o rumo das coisas.
Alguém comentou : “É pá aquela telenovela é esquizofrénica”. É um mistério.
O Lucas entrou na sala, pegou numa vela e acendeu, disse : “É para afastar os fantasmas”. “Acreditas nessas coisas” – interrogou o Fifi.
O Fifi vai aparecendo. Não tem espaço nos jornais, mas parece. Os seus rivais quando o vêem ficam brancos. É uma luta feroz essa por um lugar na história.
O Senhor dos Anéis vai abrindo portas. O Grande Senhor vai abrindo portas. O importante é isolar, tapar, de forma a que não exista espaço de manobra. É uma luta, um combate por um lugar na história.
Dividir para reinar. Colocar os peões em combate. Estimular as ambições.
A luta dos peões anuncia a luta das torres e dos cavalos. O objectivo é dar cheque mate ao rei.
“Outros senhores começam a movimentar-se. Estou a gostar” – diz o Necas.
O telefone toca : “É pá que porcaria é essa. Corta lá essa conversa de chácha. Qual é o peso que isso tem? Esteve lá o nosso “mirone” e disse que não estava lá ninguém ...” De imediato foram tomadas medidas. A conversa emergiu nos arquivos. Tudo está bem quando acaba em bem...
Hora a hora, momento a momento, estamos sob observação. É bonito saber, afinal, que a “Carreira 7” marca...
Continua













