Bloco de Esquerda Barreiro - MoitaColóquio - “A CUF, o grupo Mello e o Portugal do pós-guerra”

Por Jornal Rostos
Na mesa estiveram presentes Alfreda Cruz, investigadora; Fernando Rosas, historiador; e Brandão de Brito, economista.
Alfreda Cruz traçou um panorama geográfico sobre o que era a Margem Sul no Portugal após a II Guerra Mundial. Zona de perfil costeiro, a esta margem esquerda do estuário do Tejo, começou a chegar, através do caminho-de-ferro, quantidades volumosas de matéria-prima e capitais provenientes do estrangeiro. Destaque para a cortiça, cuja indústria teve um papel muito importante para o desenvolvimento e identidade regional. O Distrito de Setúbal, por ser uma rota de comércio, é o local escolhido para a instalação de indústrias pesadas, como a CUF, a Siderurgia e a Lisnave, empresas que se afirmam como pilares na sustentação económica do país. Ainda segundo a investigadora, os trabalhadores da CUF, eram maioritariamente originários da Beira, do Algarve e do Alentejo.
Fernando Rosas apontou cinco grandes desafios como critérios para o Estado Novo ter conseguido modernizar o país: o desafio do desenvolvimento sustentado, a descolonização, a integração europeia, a democratização política e a democratização social. Desafios estes fracassados pela postura anti-democrata de Salazar que via o povo português como "infatilóide", carecendo de "um pai austero". Por sua vez, as colónias eram objecto de grandes interesses económicos, dos quais demorou 13 anos a abdicar com uma guerra cujo esforço de combatentes foi maior que o dos Estados Unidos no Vietname. A Banca, os seguros e o comércio fazem de tudo para se agarrar ao Império e a CUF tem um papel preponderante, com negócios solidamente implantados em África.
Para o historiador, Portugal foi protagonista de uma espécie de tragédia. Quando inicia a integração na Europa, já os efeitos da globalização se começavam a sentir e o país estava mal preparado. É o MFA que, 30 anos depois da guerra, vai retomar como programa o que o Estado Novo não conseguiu cumprir no pós-guerra, ou seja, "democratizar, descolonizar e desenvolver".
Brandão de Brito destacou o papel da CUF durante os três primeiros quartéis do século, caracterizando-a como uma das principais forças que mudaram o modelo económico do Portugal do pós-guerra e como o grupo económico que maiores taxas de expansão registou e com maior número de actividades.
Falou de Alfredo da Silva e da forma como este, graças à fortuna que herdou aos 17 anos, conseguiu criar o grupo económico que a CUF se veio a tornar. Com uma personalidade de instinto killer, Alfredo da Silva "esmagou os preços até ao último concorrente falido, ficou sozinho no mercado e passou a ter o monopólio do sabão", explicou o economista.
Brandão de Brito referiu que, com a II Guerra Mundial, o capitalismo ganhou novo fôlego e Portugal sentiu a necessidade de deixar de ser um país sobretudo agrícola e de se industrializar. Neste contexto, a CUF vai começar a apostar na Europa com a concretização da EFTA, da qual Portugal é membro fundador. Conta, ainda, que o Grupo Mello compra o Banco Totta com o objectivo de se financiar a si próprio.
Texto e foto enviados pelo Bloco de Esquerda













