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Bastidores

Dia Internacional da Pessoa com Deficiência em Setúbal«Foram apenas oito minutos das vossas vidas: quatro sem som e quatro sem imagem»

. Público experimenta ser “diferente”

No âmbito do Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, que se assinala amanhã, dia 3 de Dezembro, o Governo Civil do Distrito de Setúbal promoveu hoje um encontro que contou com a presença de cerca de 300 pessoas, entre eles vários jovens de escolas do Distrito, do Instituto Politécnico de Setúbal (IPS) e do Centro de Formação do IEFP, para debater a problemática.

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Dia Internacional da Pessoa com Deficiência em Setúbal «Foram apenas oito minutos das vossas vidas: quatro sem som e quatro sem imagem»

Por Jornal Rostos

Mas o que a plateia não estava à espera é que o desafio fosse outro: o de experienciarem, por três horas e meia, as sensações e as dificuldades das pessoas com deficiência. Para além de terem aprendido algumas palavras em língua gestual e de terem sido surpreendidos com testemunhos reais e emocionados de quem vive diariamente com as barreiras e condicionalismos que impedem o livre acesso aos serviços básicos, o público deparou-se com a dificuldade de ter de lanchar com uma venda nos olhos. Estes são apenas alguns exemplos do que estava reservado aos participantes na iniciativa.

“Sairemos daqui hoje com uma responsabilidade diferente”

«É difícil ser “diferente”?» era o mote do encontro que contou, esta manhã, na Escola Superior de Ciências Empresariais, do IPS, com a presença, na sessão de abertura, da Secretária de Estado Adjunta e da Reabilitação, Idália Moniz.
“Sairemos daqui hoje com uma responsabilidade diferente”, começou por dizer avisando para o facto de sermos agentes de mudança, capazes de criar condições para que os direitos das pessoas com deficiência possam ser satisfeitos.
“Dentro das nossas diferenças, todos temos direitos iguais” e “por isso temos de nos adaptar uns aos outros. Em primeiro lugar somos portadores dessa mensagem e em segundo agentes de mudança. Todos somos imprescindíveis neste processo”, ressalvou.

A “língua das mãos” foi o primeiro tema proposto

Numa sessão conduzida pela Governadora Civil do Distrito de Setúbal e pelo adjunto Pedro Ruas, Eurídice Pereira, alertou os presentes para o facto de, durante a manhã, irem ser confrontados com realidades diferentes das que estavam habituados, e que iriam descobrir, porventura, situações que não estariam à espera.
“Vamos ser confrontados com realidades com as quais também vamos ficar embaraçados e quem, sabe, vamos descobrir aqui algumas das nossas ignorâncias”, disse.
A “língua das mãos” foi o primeiro tema proposto. O professor de língua gestual Carlos Gonçalves começou por fazer uma pequena intervenção utilizando apenas aquela forma de comunicar, sem a ajuda da intérprete. A plateia foi desafiada a escrever numa folha em branco o que tinha entendido daquela intervenção. A maioria dos presentes só conseguiu perceber o “bom dia” e “adeus”.
Depois houve, ainda, oportunidade para o professor Carlos Gonçalves ensinar algumas palavras em língua gestual, como os dias da semana e as cores.
No segundo momento do dia, intitulado “Ter luz no escuro”, a Governadora Civil pediu a todos que tentassem responder a duas questões depois de lerem a história que lhes tinha sido distribuída numa folha em Braille. A única pista dada era que se tratava de um conto dos irmãos Grimm. A dificuldade instalou-se nos presentes, como é o caso de uma participante que escreveu: “Posso resumir as duas questões a uma só resposta. Senti-me revoltada e ansiosa com a tarefa. Calculo que seja o mesmo que as pessoas com capacidades diferentes das minhas sentem perante tarefas para as quais não têm preparação”.
A história, que se veio a saber ser a do Capuchinho Vermelho, foi posteriormente contada por um cego, perante a dificuldade inicial das pessoas em posicionar a folha de Braille.

“Foram apenas oito minutos das vossas vidas: quatro sem som e quatro sem imagem”

A aventura seguinte era ver o filme “O feiticeiro de Oz” durante oito minutos e responder a duas perguntas. Os primeiros quatro minutos foram passados sem som, mas com imagem, e os últimos com som, e sem imagem, impedindo que os participantes pudessem retirar a informação pedida. “Foram apenas oito minutos das vossas vidas: quatro sem som e quatro sem imagem”, preveniu Eurídice Pereira. No fundo, a situação que ali estava a ser colocada era a privação, numa primeira fase, da audição e, posteriormente, da visão.
Sobre este exercício escreveu uma participante: “Nem vale a pena dar resposta às duas perguntas. É de facto estranho deparar-me com este tipo de situações. E sinto-me cada vez mais impotente. Afinal era necessário alguém com as minhas capacidades ajudar e fornecer apoio a quem não as tem. É de facto pensar, serei eu a deficiente? Ou o deficiente é aquele fez e tem capacidade de fazer coisas que eu não consigo.”

“Cada um de nós pode dar o seu contributo no dia-a-dia”

Na pausa dos trabalhos assistiu-se à actuou do Rancho da APPACDM de Setúbal. Já no auditório, os presentes foram incitados a pôr uma venda nos olhos e a lanchar às escuras. Entre a agitação e o natural desconforto da situação, o burburinho dos sacos de papel com as sandes e bolos e da troca de impressões invadiu a sala. Houve, ainda, quem se lembrasse de pegar no telemóvel para registar aquele momento, mesmo estando com os olhos vendados.
Seguiu-se um debate, moderado pela intérprete e professora de língua gestual Maria José Almeida, que contou com os testemunhos do professor de língua gestual João Alberto, que nasceu surdo, do presidente do Grupo Desportivo os Trovões, António Barreto, deficiente motor, e Custodio Jesus, ex-mecânico que ficou invisual aos 51 anos.
O evento pretendeu, de acordo com a Governadora Civil, estimular nas pessoas uma maior solidariedade com o próximo, levando ao conhecimento, de cada um, vivências diferentes. No final do encontro, Eurídice Pereira lembrou que as principais barreiras a superar são a ignorância, o preconceito e o egoísmo e que “por melhor que seja a legislação, dificilmente será cumprida se os cidadãos não perceberem que há pessoas que precisam de respostas diferentes na sua vida quotidiana. Não vale a pena deitarmos as culpas de tudo ao «sistema». Cada um de nós pode dar o seu contributo no dia-a-dia”, reforçou.

Estiveram presentes na iniciativa, que contou com a colaboração do Instituto Politécnico de Setúbal e a APPACDM de Setúbal, alunos das Escolas Secundárias D. Manuel Martins, D. João II, e de Palmela e do IEFP.

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