«Barreiro Reconhecido» na área da Resistência Anti-FascistaAlbertina Marques Teixeira, uma vida dedicada ao Partido

Por Jornal Rostos
O jornal «O Riachense» na sua edição de hoje dia 22 de Abril, dedica várias páginas a recordar personalidades da luta contra a ditadura derrubada no dia 25 de Abril.
Entre os antifascistas, estão referenciadas três personalidades com ligações ao Barreiro, com a devida vénia, vamos divulgar as três biografias do barreirenses com ligação a Riachos, terra do poeta cantor Pedro Barroso.
Albertina Marques Teixeira, uma vida dedicada ao Partido
“Nasceu em Riachos, no distrito de Santarém, em Setembro de 34”. É com esta frase que começa a nota biográfica publicada pela Câmara do Barreiro que anuncia a homenagem feita a Albertina dos Santo Marques, aqui nascida a 7 de Setembro de 1934, filha de João Chora Marques e de Ângela Santos Almeida, mas que iria para o Barreiro com a família com apenas um ano de idade.
O pai cedo procurou trabalho fora da sua terra. No início dos anos 30 do século passado foi trabalhar para os Caminhos de Ferro, em Lisboa, “...para os comboios”, em Campolide, Ângela foi ter com ele e lá nasceu a primeira filha do casal. Entretanto deixou de haver trabalho, regressaram a Riachos para procurar meios de subsistência na sua terra, sendo nessa altura que nasceu a Albertina, a segunda de seis filhos: a Maria, a Albertina, o Zé, a Lisete, a Judite e a Irene.
Já faleceram a Albertina, a 4 de Dezembro de 2008, e a Lisete. A procura de melhores condições de vida levou a família de novo para fora, para o Barreiro, porque João Chora Marques lá arranjou trabalho na CUF.
No Barreiro viveram na Quinta da Lomba, numa casa alugada numa grande quinta. O pai contava aos filhos que carregava sacos de adubo que “pesavam mais do que ele”. A mãe cuidava dos filhos, da casa e reforçava o parco orçamento familiar a lavar à mão roupa para “as senhoras”. A filha Irene (hoje com 68 anos) recorda-se de, ainda criança, ir entregar essas trouxas de roupa lavada. Por Riachos, os laços familiares resumem-se actualmente ao ramo da avó paterna, Maria Augusta Chora, que foi descendente do casamento de Francisco Miguel Chora com Maria do Rosário Lemos.
Dos filhos deste casal descenderam alguns riachenses bem conhecidos, como o prof. Chora Barroso e Alfredo Chora (pais, respectivamente, de Pedro Barroso e de António Chora, da clínica), assim como Mário e Júlio Chora “Falifas”. Albertina, a Tina como era tratada pela família, camaradas e amigos, fez a antiga 4.ª classe e logo muito jovem começou a trabalhar “a servir”, arranjando depois trabalho na CUF.
Foi operária têxtil, onde trabalhavam centenas de mulheres. Uma amiga recrutou-a para o Partido, quando tinha 22 anos, mas segundo Hélder Teixeira, seu filho de um segundo casamento, com o dirigente comunista Blanqui Teixeira, a esse facto não terá sido alheia a influência do primeiro marido, o também comunista Lenine Sobreiro. Integrou a célula clandestina dos trabalhadores da CUF do PCP e distribuía o “Avante, “O Militante e “O Corticeiro” (na altura, no Barreiro existiam várias e importantes fábricas de transformação de cortiça).
Em 1957, Albertina e Lenine viriam a ser presos no Barreiro. Como funcionária do Partido, viveu durante cerca de sete anos a dureza da clandestinidade, de 1964 a 1969 e de 1972 a 1974, incluindo períodos de exílio fora de Portugal.
Numa dessas ocasiões, já divorciada, viria a conhecer Fernando Blanqui Teixeira, com quem viria a casar, mas de quem muitas vezes teve que viver afastada por causa das condições da clandestinidade. Família solidária com a Tina Na sua casa realizaram-se muitas reuniões clandestinas.
A família não só era solidária, como participava de várias formas nesta luta que era de todos. Uma dessas expressões está na acção da mãe, a inesquecível “Ti Ângela”, como era tratada pelos amigos e camaradas, que de forma segura enterrava no quintal, na capoeira das galinhas, materiais do Partido, nomeadamente o “Avante”, para os pôr a salvo de eventuais rusgas da PIDE.
Também a casa da sua irmã Maria foi ponto de apoio de funcionários do Partido e para reuniões clandestinas. Albertina Teixeira possuía uma grande perspicácia e astúcia na defesa das casas, e nunca houve problemas com a entrada e saída dos seus camaradas.
A irmã Irene, com 13 anos também já distribuía o “Avante”. Irene cresceu, assim como se reforçou a sua consciência da luta para pôr fim às desigualdades e às injustiças sociais.
Em 1972 fez também ela a opção de ser funcionária do Partido e “mergulhou” na vida clandestina. Foi na clandestinidade que as irmãs viveram até ao 25 de Abril. Esse momento tão ansiado, no entanto, não pôde ser festejado nas ruas, como tantas outras pessoas. Encontrava-se na altura no Porto mas a sua condição clandestina implicava muitos cuidados e podia não ser seguro deixar logo a casa do Partido.
“Assisti a tudo da janela, as lágrimas caíam-me, sabia que a minha filha estava no Porto mas não podia vê-la”, declarações suas ao jornal Rostos.pt.
Só em Maio regressa ao Barreiro, com a sua irmã Irene, e volta então a reencontrar-se com o seu companheiro, Fernando Blanqui Teixeira, agora já num Portugal livre. Na clandestinidade, Albertina “assumiu muitas vidas e igual número de pseudónimos”: Margarida, Ana, Rosa e Paula. Esteve algum tempo na União Soviética, a frequentar um curso de ciência política. Após o 25 de Abril manteve-se como funcionária do Partido e, durante anos, assumiu responsabilidades na organização interna do PCP.
Em 1999 ainda foi nomeada consultora do grupo parlamentar comunista na Assembleia da República. Albertina foi mãe de dois filhos. Do primeiro casamento, com Lenine Sobreiro, nasceu a Paula, hoje com 58 anos. Do segundo casamento, com Fernando Blanqui Teixeira, que pertenceu ao Comité Central do PCP, nasceu o Hélder, hoje com 45 anos.
Em 2006, Albertina Santos Marques Teixeira foi homenageada pela Câmara Municipal do Barreiro com o galardão “Barreiro Reconhecido”, e afirmou na ocasião: “Sinto que, à minha maneira, contribuí para construir um mundo melhor. Estou contente com a vida que escolhi e com as opções que fiz”.
Carlos Brito lembra a “saudosa Albertina”
Em depoimento ao nosso jornal, o antigo dirigente comunista Carlos Brito recordou a “saudosa Albertina”: Conheci a Albertina, em Outubro de 1966, em Moscovo.
Frequentava um curso de formação política no «Instituto de Ciências Sociais», mais conhecido pelas designações de «Escola Leninista» ou «Escola do Partido». Fomos colegas. Na altura ela era casada com o Lenine Sobreiro, que também frequentava a Escola.
Eram os dois «funcionários do Partido» (PCP) e tinham ido da clandestinidade em Portugal, para onde voltaram terminado o curso de 1 ano na URSS. A Albertina distinguia-se pela sua simplicidade, generosidade e grande dedicação à causa comunista.
Sem ter muitos estudos de base, enfrentou o curso com dificuldades, mas também com grande força de vontade para vencê-las.
Até ao derrubamento do fascismo não voltei a vê-la. Depois do 25 de Abril, encontrei-a muitas vezes, praticamente sempre que ia ao Barreiro em tarefas do Partido. É esta a contribuição que vos posso dar sobre, a para mim, saudosa camarada Albertina. Acho muito positivo tudo que puderem divulgar sobre a sua vida de combatente pelas causas da liberdade e do socialismo. Carlos Brito










