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Leal da Silva «Rosto do Ano 2022» – Área VETERANOO passado tem de ser o trampolim para o futuro e não o resvalar para uma minimização cultural

"Neste 62 anos, entre vitórias e derrotas, fiz do Barreiro a minha terra e estive sempre pronto a convosco formar equipa pela terra que adoptei. Muito vim aprender aqui e lamento que hoje se tenha tornado moda minimizar a História como coisa do passado, recusar a leitura e desvalorizar os conteúdos culturais", afirmou Leal da Silva, ontem no decorrer da Cerimónia de Entrega de Rostos do Ano 2022.

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Leal da Silva «Rosto do Ano 2022» – Área VETERANO O passado tem de ser o trampolim para o futuro e não o resvalar para uma minimização cultural

Por Jornal Rostos

Transcrevemos integralmente o texto da intervenção de Leal da Silva, após ter recebido o Diploma de Rosto do Ano 2022, na área Veterano, Esta distinção visa homenagear personalidades que, pelo seu trabalho, deram um contributo para a dignificação do concelho do Barreiro, e, cuja vida é um exemplo e uma referência inscrita na história do concelho.

Intervenção de Leal da Silva
Senhoras e Senhores,

Não resisto à tentação de usar da palavra nesta sessão e em fazê-lo com dois objetivos. O primeiro, no singular, transporta um agradecimento à Rostos pelo que esta oportunidade representa e pela honra que me é dada de nela me trazerem aqui.

O segundo, àquele inseparavelmente associado e já no plural, representa um renovar do pulsar desta cidade com reconhecimento de áreas de atividade que merecem destaque e em que o Barreiro continua a ser rico e em que, teimosamente, dever recusar qualquer subalternização ou descaracterização imposta.

Desembarquei aqui com 24 anos, nascido em Vila Nova de Gaia, recém formado em Engenharia Química e hoje, com 86 anos, posso estar mais velho e fisicamente limitado, mas mantenho a mesma ansia de saber e de transmitir esse conhecimento. Neste 62 anos, entre vitórias e derrotas, fiz do Barreiro a minha terra e estive sempre pronto a convosco formar equipa pela terra que adoptei. Muito vim aprender aqui e lamento que hoje se tenha tornado moda minimizar a História como coisa do passado, recusar a leitura e desvalorizar os conteúdos culturais.

Pois em todas essas componentes do convívio social o Barreiro teve presenças muito salientes e delas pode reclamar destaque. Em muitos casos até por isso pagou caro… e muito caro.
Diversas circunstâncias convergentes trouxeram-lhe recentemente a denominação de “cidade dos arquivos” - mas já ouvi a crítica minimizadora do “não é isso que nos dará de comer”. Pois é, mas foi e, denodadamente deverá ser. Apesar do processo complexo que hoje é o ensino pague-se o que se deve, exija-se responsabilidade a docentes, discentes, familiares e, sobretudo, restaure-se o prestígio e o mérito das escolas, de quaisquer escolas, reconhecendo a educação como única via de ascensão formativa. Haja rigor. Democracia não é nem pode ser bagunça.

E é este o meu apelo aos jovens barreirenses. Aprendam o que é a vossa terra. Orgulhem se dela e das gerações que aqui vos precederam e vos criaram. Conheçam-na.
Sejam exigentes. Recusem, para alem do razoável, os artefactos lúdicos que criam solidão e que, vistas bem as coisas, encobertos pelo carimbo comum de utilidades, podem configurar insidiosas e viciantes armas colocadas nas mãos de adultos e crianças pela força dos mercados.

O passado tem de ser o trampolim para o futuro e não o resvalar para uma minimização cultural em que todos acabaremos por ser vítimas, incluindo os próprios ascensoristas galardoados.
Temos uma via aberta à nossa frente. Não a fechemos e recusemos tudo o que dela nos queiram fechar, e esta é uma reclamação pouco pacífica a trazer ao dia de hoje. Não esqueçamos jamais o lapidar terceiro princípio do “1984” de George Orwell que reza “ ignorância é força” e que, melhor entendido na sua bilateralidade, deve ser lido como “a ignorância de uns será certamente a causa e justificação para a força que outros lhes queiram impor.”.
Que assim nunca seja.

E, a fechar, um renovado obrigado a Rostos.

Rosto do Ano 2022 – Área VETERANO
Leal da Silva

A distinção ROSTO DO ANO VETERANO pretende destacar uma personalidade que, pela sua acção, pela sua vida, deu um contributo para valorizar o concelho do Barreiro, enriqueceu a nossa vida colectiva, e, o seu percurso, é um exemplo de vida. José Miguel Leal da Silva, nasceu no dia 8 de Junho de 1936, no concelho de Vila Nova de Gaia. Veio para o Barreiro, no ano de 1961, num tempo que a CUF empregava milhares de pessoas, eram acima de 10 mil ou 11 mil trabalhadores. Na sua Fábrica de Ácido Sulfúrico, exerciam funções entre 800 a 900 trabalhadores.

“Na CUF erámos uma equipa de alto abaixo. Só com a colaboração de todos foi possível fazer, do Barreiro, o maior produtor europeu de ácido sulfúrico. Fizemos verdadeiras proezas.”, disse em entrevista ao jornal Rostos. A Fábrica foi a sua cultura, o lugar onde cultivou amizades e o respeito. Foi candidato à Presidência da Câmara Municipal do Barreiro, pelo Partido Socialista, tendo sido eleito vereador. Sua vida é uma lição de história do Barreiro. Uma lição de vida. Aprendeu esperanto com um ferroviário. Integrou a equipa que, há 59 anos, motivou a criação da Biblioteca Municipal do Barreiro. Viveu sempre de forma activa a vida cultural do concelho, investigador, académico, com várias licenciaturas - Direito e Antropologia. Leal da Silva, cidadão do Barreiro, homem exemplar, culto, humilde, com valores e pensamento, por vezes fora da caixa, um jovem a caminho dos 87 anos, recebe a distinção, ROSTO DO ANO VETERANO 2022.

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Cerimónia de entrega do ROSTOS DO ANO 2022
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