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Cidade com Rostos

Padre RodrigoFala da Procissão Nª Srª do Rosário
Uma caminhada que tem a ver com a vida

No dia 15 de Agosto, pelas 18 horas, realizou-se a Procissão de Nª Srª do Rosário, um momento vivido, com uma grande intensidade por muitos barreirenses e por muitas pessoas da nossa região que se deslocam à nossa cidade para viver este momento de profunda religiosidade, aliás, aquele que está na origem desta Festa que, desde 1780, se realiza no Barreiro.
Fomos conversar com Padre Rodrigo, para conhecermos um pouco mais, o sentido e o significado desta festividade
. Aqui fica o registo da conversa editada no Suplemento “Rostos Notícia”.
7 min de leitura
Padre Rodrigo Fala da Procissão Nª Srª do Rosário Uma caminhada que tem a ver com a vida

Por António Sousa Pereira

As Festas do Barreiro tiveram sempre e têm esta componente religiosa ?
“Nasceram assim...”

Acha que o Barreiro continua a viver a sua Nª Srª do Rosário ?
“O Barreiro em geral, em geral, em geral, se calhar não. Mas uma parte importante do Barreiro, da população do Barreiro, acho que sim, tanto do ponto de vista popular, como do ponto de vista de umas certas elites, penso que se interessam por esta dimensão religiosa da Festa pois, segundo aquilo que se vai aprofundando, parece ser um elemento fundamental.”

As Festas do Barreiro têm uma longa tradição, remontam no tempo a quando?
“Estas Festas tanto quanto consta lá nos livros, desde que elas se começaram a fazer, registaram algumas oscilações nas datas, entre Setembro e Agosto, na sua realização. A sua origem é aí por 1780, é a partir desse ano que elas tomam, mais ou menos, uma grande dimensão.
Inicialmente, realizaram-se pelo início de Setembro, depois vão recuando para o último domingo de Agosto, acabam por se fixar no 15 de Agosto, em 1780. Foi nesta altura que se deu inicio à construção da Igreja e, a partir daí, tomam esta dimensão mais importante.”

A Festa da Nª Srª do Rosário, em tempos, teve uma relação com Lisboa?
´”Sim. Porque esta Irmandade, a Real Irmandade da Nª Srª do Rosário do Barreiro, tinha a sua sede em Lisboa . O Barreiro era o destino do Círio.
O Círio era uma espécie de caminhada, passeio, passeata, mas religiosa, transportando um Círio, uma Vela grande e uma imagem pequenina. E, depois, os farnéis.
Nessa caminhada, os participantes, dirigiam-se a um lugar próximo, ou mais ou menos próximo, onde festejavam.
Inicialmente iam ao Rosairinho, até 1736, esta Irmandade ia até ao Rosairinho da Moita.
Em 1736 houve uma tempestade que os empurrou para aqui, para o Barreiro, para a Ermida de S. Roque e de S. Pedro. Nessa altura foram aqui muito bem recebidos, segundo rezam as Crónicas que estão escritas.
Assim, a partir daí, e, também porque este era um lugar mais acessível porque os ventos facilitavam mais a vinda do Terreiro do Paço para o Barreiro do que para o Rosairinho ( porque as nortadas não ajudam nada), então passaram a vir para aqui sempre.
A Irmandade comprou a Ermida de S. Roque e de S. Pedro e desenvolveram-na, sobretudo com o apoio da Rainha D. Maria I.
A partir de 1780, quando esta Igreja começa a tomar uma dimensão maior, a Irmandade começa a espalhar-se com o título de Irmandade de Nª Srª do Rosário do Barreiro.
Há referências à Irmandade no Brasil, sobretudo na Baía, nos Açores, na Madeira. Esta é uma Irmandade que toma uma dimensão muito importante.”

Hoje, quando a procissão sai à rua e vê-se uma multidão a acompanhar a Nª Srª do Rosário, que sente o Padre Rodrigo quando vai ali no cortejo religioso ?
“Eu sinto como toda a gente ao vivermos uma determinada dimensão da nossa vida, esta relação com o mistério.
Nós pudemos viver a nossa vida só no dia a dia, no imediato, mas, a gente vê bem, que por trás disto tudo há um mistério, há um infinito, tanto para o lado do infinitamente grande, como para o lado do infinitamente pequenino. Há sempre coisas que a gente não sabe e isso está na base da própria ciência.
Esta relação com o mistério exige uma mediação que não tem a ver com a linguagem objectiva, tem a ver com a linguagem simbólica.
Eu, como as pessoas, vivo esta dimensão, refiro-me àquele símbolo, ao símbolo da Mãe – Maria como Mãe – refiro-me ao símbolo da corrente e das contas a que a gente se agarra para não sombrearmos no nada, ou no negrume. Enfim, esses símbolos do Cristianismo que para mim são pontos de referência, fundamentais, da presença de Deus na humanidade sofredora.
O que eu vejo ali, na Procissão, é isso esta gente que sofre, que luta, que muitas vezes se vai abaixo, mas, que precisa de encontrar um fôlego que só a religião lhe pode dar, que só esta linguagem, esta mediação religiosa lhe pode dar.
E, por outro lado, há esta história, que é uma caminhada, uma caminhada aparentemente inútil, que não tem utilidade nenhuma objectiva, mas, é, simplesmente, uma caminhada que tem a ver com a vida, de meditação sobre a vida e até de uma certa encenação - uma pessoa entre as representações de Jesus Cristo.
São as pessoas revestidas de auréolas de Santos. São as pessoas que transportam. São aqueles que vivem hoje e que precisam.
Há esta dimensão, a qual eu comungo profundamente, embora, reconheça que possa haver dimensões alienantes, quando as pessoas, efectivamente, se demitem diante das suas possibilidades e se empobrecem porque se calhar Deus pedia-lhes desenvolvessem a sua humanidade e não que pusessem a sua humanidade de rastos, que, é, de facto, o que acontece muitas vezes.
Agora, tudo isto tem a ver como uma canalização. E, penso, que é pior se abandonarmos estes fenómenos da religiosidade popular simplesmente a uma dimensão pagã, onde as pessoas ou se arrastam ou se embededam...
É preciso agarrar um bocadinho nas pessoas e procurarmos mantê-las bem humanas. Foi aquilo que Jesus Cristo fez, foi pegar na humanidade”.

Que mensagem vai procurar transmitir nas homilias e nos momentos de oração que antecedem a realização da Procissão?
“A mensagem mais importante é as pessoas tomarem consciência que Deus gosta delas. Penso que nós vivemos numa sociedade em que as pessoas têm muito pouca auto estima. As pessoas sentem-se Zés Ninguéns e passam a vida atentar afirmar-se e às vezes de uma maneira idiota e de maneira estúpida porque, realmente, não acreditam que este Ser infinitamente grande, gosta bastante delas e que vem ao seu encontro.
E creio que Maria - Nª Srª - sobretudo a maneira como ela está vestida, tem uma veste de uma rainha, ela que foi uma pobre mulher do povo, é um exemplo, que, efectivamente, Deus gosta de nós como se nós fossemos reis, como se nós fossemos rainhas. Revelar este Amor que Deus tem às pessoas, acho que é um aspecto muito importante.
Depois, outro aspecto, também, aqui, este ano, para nós na Diocese, foi o ano do Congresso Eucarístico, portanto, para mim, é muito importante as pessoas saberem que esta luta das pessoas, pelo pão nosso de cada dia, por uma vida um bocadinho melhor, porque as pessoas vivem uma luta muitas vezes dificil, porque as pessoas não têm trabalho e vivem dificuldades bastante graves, é preciso salientar que esta luta tem sentido, que Deus agarra nela e a transforma num êxito, se nós efectivamente lha confiarmos.
Esta dimensão Eucarística da nossa celebração ao longo deste ano parece-me importante, até porque estamos num ano em que a Eucaristia foi o centro da vida da nossa diocese.”
Foi uma breve conversa com um homem que sempre associou a sua caminhada no mistério com este sentido da vida de luta e entrega...o amor por Deus e pela humanidade.

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