Saltar para o conteúdo
Cidade com Rostos

João Gregório – Presidente do Centro Náutico Moitense“A nossa grande preocupação é que não se perca a tradição”

Junto ao Cais da Moita, na zona ribeirinha, encontra-se o Centro Náutico Moitense. Foi na esplanada das instalações do clube que fomos encontrar João Gregório, presidente do mesmo. Num fim de tarde radioso com o Tejo como cenário, falou-nos da sua paixão por esta arte e tradição que já marcou no seu rosto as feições de um fragateiro e que revela na cor dos olhos as águas do rio.

6 min de leitura
João Gregório – Presidente do Centro Náutico Moitense “A nossa grande preocupação é que não se perca a tradição”

Por Catarina Simão

O Centro Náutico Moitense nasceu a 1 de Dezembro de 1980 com o objectivo de “motivar as pessoas a adquirirem barcos tradicionais”. Como nos explicou João Gregório, “após o 25 de Abril os barcos tradicionais foram um pouco abandonados porque se acabou o trabalho no rio, fazendo com que desaparecessem também os barcos”. Actualmente com cerca de 200 associados e 15 barcos particulares, o clube oferece alojamento a estas embarcações e disponibiliza ajuda na manutenção. Para o presidente do Centro Náutico a verdadeira riqueza do mesmo reside no “espirito de entre-ajuda que se cria entre os proprietários”, onde os barcos são reparados com a ajuda de todos gratuitamente.

“Qualquer barco que esteja doente eu consigo tratá-lo”

Ligado ao clube há vários anos, João Gregório desempenha as funções de presidente há dois anos, altura em que regressou depois de um breve afastamento. Nascido “aqui à borda de água”, na zona ribeirinha da freguesia da Moita, esta paixão corre-lhe nas veias, já que o avô era fragateiro. “Ainda apanhei movimento aqui no cais e fiquei apaixonado”, tendo comprado um barco tradicional que ao longo de três anos restaurou no Centro Náutico. “Foi o próprio barco que me ensinou tudo, e hoje posso dizer que tirei um curso intensivo de medicina de barcos tradicionais. Qualquer barco que esteja doente eu consigo tratá-lo”, refere com um olhar divertido mas que revela a sinceridade da sua paixão.

A formação

A nível desportivo, o clube possui uma Escola de Vela e uma Escola de Canoagem, cujos alunos participaram no Campeonato Mundial de Caiaque, realizado recentemente na Noruega, de onde trouxeram o 19º lugar. A Escola de Vela reúne 15 alunos na classe Optimist, pois esta é a menos dispendiosa e para a qual o clube tem embarcações. No entanto, existe a preocupação de tentar que os alunos mais velhos continuem a praticar a modalidade através do empréstimos de algumas embarcações de sócios. “No ano passado foi renovada a frota optimist e hoje estamos a tirar os frutos”, revelou-nos João Gregório. O clube candidatou-se para organizar o Campeonato Regional de Optimist, e a Associação Regional de Vela concordou, pelo que foi aqui empreendido no passado mês de Julho o campeonato em que a equipa da casa venceu o primeiro lugar. No inicio do mês de Setembro, o clube participou no Campeonato Nacional de Escolas, tendo obtido a 7ª posição.

Entidade oficiais indispensáveis para a sobrevivência do clube

Para alem das suas escolas, o clube empreende outras actividades para promover esta tradição tão características do concelho da Moita. Ainda em Julho, realizou-se um Cruzeiro no Tejo, onde as embarcações características regressaram ao rio que lhes deu origem fazendo a travessia entre a Moita e Vila Franca.
Para todas estas actividades o clube recebe “apoios das entidades oficiais, sem os quais era completamente impossível dar vida a todos estes projectos”, defende peremptoriamente. A Câmara Municipal da Moita e as Juntas de Freguesia da Moita e do Gaio-Rosário “têm criado uma envolvência no sentido de nos apoiar”.

“A nossa grande preocupação é que não se perca a tradição”

Os barcos tradicionais são um dos símbolos culturais da Moita, e constituem um sinónimo de cultura. Assim, o centro procura “melhorar e aumentar o numero de barcos tradicionais da Moita. Em Outubro os barcos regressam ao centro, onde têm o seu espaço reservado e onde é feita a manutenção dos mesmos com a ajuda de todos. Para o presidente do clube, esta actividade de preservação e manutenção feita a várias mãos “reforça a amizade entre as pessoas que se envolvem aqui num ambiente são”, que na verdade se respira na envolvência do centro.
Indo de encontro a um sonho de há muito do clube, desde Janeiro de 2004, está a ser construído de raiz um barco tradicional. “O clube já nos rouba todo o tempo, mais ainda conseguimos arranjar um pouco para tentar dar vida a este barco”, revelou-nos João Gregório sem qualquer arrependimento do tempo que despende no clube. “Preocupamo-nos muito para que no presente se prepare o futuro”, para que se mantenha a arte dos barcos tradicionais. Este fragateiro de corpo e alma acredita que são “estes miúdos que estão agora aqui a ser formados que vão dar continuidade a este clube, para que não se perca a tradição. Esta é a nossa grande preocupação”. “Ao mantermos os barcos tradicionais estamos também a manter vivos alguns ofícios que estão em vias de extinção, como o carpinteiro naval, o pintor, o calafato, o ferreiro e o fragateiro”. Por tudo isto, “todo o tempo que tenho dedicado a esta casa tem valido muito a pena”, confessa-nos no decorrer da nossa conversa sem esquecer que, para tudo isto ser possível, o apoio e compreensão incondicionais da esposa Hermínia Gregório, foram indispensáveis.

“Temos motivos para ter orgulho”

Como qualquer “moiteiro”, João Gregório mostra-se orgulhoso desta tradição. “Quando se diz que nós aqui na terra somos muito vaidosos é mesmo verdade. Somos mesmo vaidosos e temos motivos para isso, pois este barcos são únicos no mundo e aqui, no concelho da Moita, existem em maior quantidade”.
O Centro Náutico tem tido um papel fundamental nas Festas em Honra da Nossa Senhora da Boa Viagem. Dando vida a uma das componentes destas festividades, o clube tem empreendido actividades de relevo no contexto festivo “para dinamizar toda a actividade cultural das festas”. Realizou-se pelo terceiro ano consecutivo, o Cais Vivo, uma exposição que decorre no cais e que reúne pinturas e fotografias alusivas ao tema, bem como os próprios barcos. Ainda no âmbito desta iniciativa, é promovido um passeio de barcos tradicionais que saem da exposição em direcção à muralha, onde as pessoas podem embarcar. Este ano decorreu pela primeira vez a Noite do Fragateiro, onde as canoas invertidas serviram de palco para uma belíssima “zorra” de fados. As tradicionais regatas também tiver lugar, assim como “a benção da Santa com os barcos enfeitados a rigor”.

O POLIS

O POLIS, programa que vai revitalizar toda a zona ribeirinha da Moita, vai, como é natural, mexer com o Centro Náutico Moitense. O clube vai ser deslocado um pouco para Norte, mas vai ganhar novas instalações que compreenderão uma sala museu e uma oficina para a reparação dos barcos. A opinião do presidente do Centro Náutico Moitense não podia ser mais favorável: “pata nós, o Polis é um sonho. Estamos emprenhados em acompanhar a obra e auxiliar a Câmara Municipal da Moita em tudo o que for necessário”.

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção