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Cidade com Rostos

Almada não esqueceA escritora e a obra Maria Rosa Colaço

LEIA NO “ROSTOS ON LINE” – OPINIÃO – texto de Manuela Fonseca.

“A Assembleia Municipal de Almada lamenta o falecimento da escritora Maria Rosa Colaço e presta-lhe uma sentida homenagem, propondo que o 8 de Março do próximo ano seja dedicado à divulgação da obra e vida de Maria Rosa Colaço, eventualmente através de diversas iniciativas nas escolas e de uma exposição e recolha de memórias promovida pela autarquia e por associações que se sintam motivadas para tal” – refere-se na “moção de pesar” aprovada pela Assembleia Municipal de Almada, apresentada por Luís Gomes, Deputado Municipal do Bloco de Esquerda.

3 min de leitura

Por Jornal Rostos

Companheira do sol e das raízes, cheguei à grande cidade.
Numa mão levava o diploma, na outra o medo...
A escola em que fui trabalhar,
não era um desses poéticos lugares,
brancos e cheios de flores com que sonhamos no fim do curso;
era um velho primeiro andar, de uma escola suja de sal, pregões e humidade.
Os rapazes que me couberam também não tinham nada em comum
com esses meninos de bata branca...
Vinham dos barcos ancorados no cais, dos bairros da lata,...
Não eram génios nem poetas, nem meninos prodígios.
Eram filhos de pescadores, de varinas,...
Moravam em casas com buracos e dormiam nos barcos,
no vão das portas, nos degraus da doca, em qualquer sítio."

Foi assim que MARIA ROSA COLAÇO ancorou em Almada nos anos 50.
Da aventura que foi dar aulas pela primeira vez a meninos desprovidos de tudo, nasceu "A criança e a vida". Nasceu também a escritora, a mulher inquieta, preocupada com a injustiça e as desigualdades sociais.
Deixou-nos, aos 69 anos de idade, com uma vasta obra literária que não era só destinada às crianças, como às vezes se faz supor. Quem não se deliciou com o "Espanta Pardais", quem não ficou com uma névoa nos olhos ao ler o "Gaivota", quem não se divertiu com a "Maria Tonta como eu"?
Mulher de solidariedades várias tinha o raro saber de fazer brotar imagens das palavras que fluíam em ondas de poesia nos seus textos. Qualidade dos grandes criadores, assim se referia Lídia Jorge, quando afirmava que os seus textos constituíam uma contemplação.
Mulher de combates vários. Contra o fascismo, pela liberdade de pensamento, acção e criação. Contra os seus olhos cansados que a impediam de escrever nos últimos anos. Contra a doença que a vitimou ainda nova e com um grande desejo de viver.

Almada deve-lhe muito.
Porque aqui viveu grande parte da sua vida.
Porque prestigiou com o seu nome e a sua obra a cidade de Almada.

A Assembleia Municipal de Almada lamenta o falecimento da escritora Maria Rosa Colaço e presta-lhe uma sentida homenagem, propondo que o 8 de Março do próximo ano seja dedicado à divulgação da obra e vida de Maria Rosa Colaço, eventualmente através de diversas iniciativas nas escolas e de uma exposição e recolha de memórias promovida pela autarquia e por associações que se sintam motivadas para tal.

Almada, 29 de Outubro de 2004

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