Saltar para o conteúdo
Cidade com Rostos

Criação do Museu Industrial - “achei que era uma responsabilidade que me competia”

Foi no Alentejo que nasceu, mais propriamente em Montemor-o-Novo, há 70 anos, Sardinha Pereira. Após concluir o curso de engenharia mecânica, ingressou na antiga CUF e acompanhou toda a evolução do complexo. Hoje, com 45 anos de casa, Sardinha Pereira continua ligado à Quimiparque. Em conversa com o jornal Rostos, o engenheiro falou da sua história de vida, quer profissional, quer pessoal e como conseguiu atingir alguns objectivos, nomeadamente a construção de um Museu Industrial.

8 min de leitura

Por Cátia Pacheco

Sardinha Pereira viveu no Alentejo até aos 17 anos, onde frequentou o ensino básico em Montemor-o-Novo e o secundário em Évora. Mais tarde, ingressou no Instituto Superior Técnico, já em Lisboa, onde frequentou o curso de engenharia mecânica.
Quando concluiu o curso, em 1959, veio estagiar para a CUF, onde é posteriormente convidado a ficar, como engenheiro de conservação mecânica, até 1971. “Era de grande importância para um engenheiro entrar na CUF,” recorda Sardinha Pereira.
Em 1971, vai para o departamento de projectos, onde se mantém cerca de ano e meio, até que surge o projecto da FISIPE e, nesta altura, o engenheiro é convidado para director e coordenador da engenharia, cargo que aceita.
Com a Revolução Industrial, em Abril de1974, são vários os problemas e as dificuldades que têm de ultrapassar, mas, em 1976, ultrapassados os problemas, é inaugurado oficialmente o complexo, “apesar das dificuldades, o projecto correu com muito sucesso,” ressalva o engenheiro.
Com o sucesso do projecto FISIPE, surge a ideia, por parte da CUF, de se criar uma direcção de novas instalações, desta forma, em 1976, foi criada uma direcção geral de novas instalações. “Vim a ser director e fui envolvido num conjunto significativo de projectos. Em 1981, já como Quimigal, fui convidado para director geral do complexo e da divisão de serviços do Barreiro,” menciona Sardinha Pereira.
Enquanto director da divisão de infra-estruturas industriais, um dos grandes trabalhos, do qual Sardinha Pereira fez parte, foi a reconversão do complexo industrial, “visitámos vários países para o estudo, nomeadamente Inglaterra, onde encontrámos a ideia para essa transformação,” revela o engenheiro.
Nessa altura, propuseram à Quimigal a transformação dos complexos industriais em Parque Empresariais, não só o do Barreiro, mas também o de Estarreja.

Criação da Quimiparque

As indústrias químicas estavam na sua fase final e era uma incógnita o que iria acontecer com aquele espaço; é nessa altura, em 20 de Dezembro de 1989, que é criada a Quimiparque.
“Com a experiência confirmámos o que vimos lá fora, sobretudo em Inglaterra. Essas experiências existiram e tiveram bom resultado,” reconhece Sardinha Pereira.
No entanto, essas transformações não foram bem encaradas por alguns. O Barreiro tinha uma forte ligação à industria química e não era fácil incutir nas pessoas que essa actividade já não tinha futuro. Por outro lado, o aumento significativo de habitações, que se foi verificando por todo o concelho e em redor da CUF, também impedia a continuação da actividade, uma vez que os problemas ambientais eram muito graves.
“Só passados alguns anos é que as pessoas começaram a perceber que toda a actividade tradicional, primeiro da CUF e depois da Quimigal, estava na sua fase final e perceberam que a criação da Quimiparque tinha sido a solução mais conveniente,” comenta o engenheiro.
Em 1990, Sardinha Pereira assume a vice-presidência, cargo que ocupa até 2002, altura em que deixa o executivo e é convidado para consultor da empresa, onde se encontra actualmente.

Projecto “Masterplan”

No que diz respeito ao “Masterplan” e na opinião de Sardinha Pereira, “o estudo do “Masterplan” surge naturalmente, porque só existe uma possibilidade de se ocupar os espaços livres.”
Os casos de estudo que foram visitados quando ocorreu a criação da Quimiparque mostraram que era viável a criação de habitação dentro do complexo, “nós já temos aqui habitação, temos o bairro operário, onde ainda vivem antigos trabalhadores da CUF e da Quimigal,” recorda o engenheiro.
O projecto “Masterplan”, tal como aconteceu com a criação da Quimiparque, também não tem tido uma aceitação passiva, “muitas pessoas não compreendem, mas também não podemos ter a pretensão de convencer as pessoas, as coisas têm de ser muito bem explicadas e a Quimiparque tem tentado fazê-lo de diversas formas,” ressalva Sardinha Pereira que considera ainda, “as pessoas vão acabar por compreender o projecto e tenho a ideia que essa reacção que se manifestou há cerca de um ano tem diminuído, porque as pessoas já vão compreendendo melhor o que vai acontecendo.”
Em Outubro de 2004, a Quimiparque entregou, na Câmara Municipal do Barreiro, o projecto de reparcelamento da zona 2 do Plano Geral de Zonamento. A zona 2 é a maior das oito zonas em que foi dividido o território para o estudo, tem cerca de 60 hectares e está vocacionada para a implementação de empresas de pequena e média dimensão.

Criação do Museu Industrial - “achei que era uma responsabilidade que me competia”

Foi desde os anos 80 que Sardinha Pereira começou a desenvolver uma vertente museológica, “comecei a desenvolvê-la na altura em que era director do complexo, achei que era uma responsabilidade que me competia, olhar para uma componente histórico - museológica. Comecei a conhecer pormenores de Alfredo da Silva e a admirar a figura,” recorda o consultor da Quimiparque.
No entanto, a ideia de se criar um museu não surgiu apenas nessa altura, tanto a CUF como mais tarde a Quimigal pensaram em criar um museu, “ pensaram desenvolver um projecto museológico, mas não surgiu a oportunidade,” salienta Sardinha Pereira.
Contudo, no interior do complexo, já existia desde 1944 o Mausoléu Alfredo da Silva, mandado edificar pela sua família, no antigo cemitério do Barreiro, que se situava junto das fábricas da CUF. Com a Transferência, em 1963, deste cemitério para o Lavradio, ali ficou apenas o mausoléu, enquadrado num arranjo arquitectónico de 1971, que, em 1993, foi beneficiado com um amplo espaço verde.
Em 1965, surge a Casa Museu Alfredo da Silva, habitação onde perpassa a memória do fundador da CUF, que, nos anos 90, já sob o domínio da Quimiparque, foi enriquecida, pela transferência para esse espaço de todo o espólio proveniente da Fábrica do Sol, em Alcântara.
O Bairro Operário é outro dos núcleos do Património Histórico-Museológico, começou a ser construído a partir de 1908 e, em 1914, este bairro já contava com cinco extensos blocos de moradias, todas iguais.
A maioria das antigas habitações é, actualmente, ocupada por empresas de comércio e serviços.
A partir do momento em que Sardinha Pereira começou a perspectivar a criação de um museu, todo o trabalho foi-se desenvolvendo, primeiro, angariando peças, “criámos alguns núcleos museológicos e depois reunimos todo o material,” revela.
“Quando é desactivada a Central Diesel, em 1991/1992, já nessa altura pensei que ali iria ficar o museu,” partilha Sardinha Pereira, depois foi necessário esperar pelo momento que fosse mais oportuno, “ia custar muito dinheiro. Só a partir de 1998 é que se pegou em termos de projecto.”
Nesta altura, o primeiro passo foi recuperar o edifício em si, “foi um processo longo, mas foi o único que permitiu que se pudesse concretizar esse objectivo,” adversa o engenheiro.
Para que o Museu Industrial, hoje, seja uma realidade, para além do empenho de Sardinha Pereira, ao longo dos anos, também foi fundamental “o grande apoio da Câmara Municipal do Barreiro e das várias direcções e administração da Quimiparque,” reconhece o engenheiro.
O Museu Industrial reúne um espólio constituído por equipamentos industriais de índole diversa e um conteúdo documental representativo das áreas como a química, a têxtil, a metalomecânica, a produção de energia, a segurança e higiene industrial, entre outros.

Fundação - “o património está garantido e salvaguardado”

Tendo em conta que neste momento já existe no interior da Quimiparque quatro núcleos museológicos, a Quimiparque, enquanto empresa, considera não estar vocacionada para tratar desta componente, “pensamos que a melhor solução seria a criação de uma fundação, que apresenta um conjunto significativo de vantagens. Estando o património integrado na empresa, a Quimiparque não tem qualquer tipo de benefícios, se esse património passar para a fundação a empresa tem benefícios fiscais.” salienta Sardinha Pereira.
“Tudo o que se tem feito tem sido à custa directa da empresa, se fosse património da fundação poderíamos concorrer a fundos comunitários assim como também os edifícios deixariam de pagar impostos, nomeadamente contribuição autárquica,” menciona.
Para além deste conjunto de interesses de natureza fiscal, existe também um conjunto de interesses para os doadores, uma vez que existem pessoas que põem em causa o paradeiro do património caso a Quimiparque seja vendida.
“O património fica mais resguardado, fica entregue a uma entidade autónoma, mesmo que se venda a Quimiparque, todo o património está garantido e salvaguardado,” garante Sardinha Pereira.

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção