Saltar para o conteúdo
Cidade com Rostos

António Sardinha PereiraCriação do Museu Industrial - “achei que era uma responsabilidade que me competia”

Foi no Alentejo que nasceu, mais propriamente em Montemor-o-Novo, há 70 anos, Sardinha Pereira. Após concluir o curso de engenharia mecânica, ingressou na antiga CUF e acompanhou toda a evolução do complexo. Hoje, com 45 anos de casa, Sardinha Pereira continua ligado à Quimiparque. Em conversa com o jornal Rostos, o engenheiro falou da sua história de vida, quer profissional, quer pessoal e como conseguiu atingir alguns objectivos, nomeadamente a construção de um Museu Industrial.

6 min de leitura
António Sardinha Pereira Criação do Museu Industrial - “achei que era uma responsabilidade que me competia”

Por Cátia Pacheco

Sardinha Pereira viveu no Alentejo até aos 17 anos, onde frequentou o ensino básico em Montemor-o-Novo e o secundário em Évora. Mais tarde, ingressou no Instituto Superior Técnico, já em Lisboa, onde frequentou o curso de engenharia mecânica.
Quando concluiu o curso, em 1959, veio estagiar para a CUF, onde é posteriormente convidado a ficar, como engenheiro de conservação mecânica, até 1971. “Era de grande importância para um engenheiro entrar na CUF,” recorda Sardinha Pereira.
Em 1971, vai para o departamento de projectos, onde se mantém cerca de ano e meio, até que surge o projecto da FISIPE e, nesta altura, o engenheiro é convidado para director e coordenador da engenharia, cargo que aceita.
Com a Revolução Industrial, em Abril de1974, são vários os problemas e as dificuldades que têm de ultrapassar, mas, em 1976, ultrapassados os problemas, é inaugurado oficialmente o complexo, “apesar das dificuldades, o projecto correu com muito sucesso,” ressalva o engenheiro.
Com o sucesso do projecto FISIPE, surge a ideia, por parte da CUF, de se criar uma direcção de novas instalações, desta forma, em 1976, foi criada uma direcção geral de novas instalações. “Vim a ser director e fui envolvido num conjunto significativo de projectos. Em 1981, já como Quimigal, fui convidado para director geral do complexo e da divisão de serviços do Barreiro,” menciona Sardinha Pereira.
Enquanto director da divisão de infra-estruturas industriais, um dos grandes trabalhos, do qual Sardinha Pereira fez parte, foi a reconversão do complexo industrial, “visitámos vários países para o estudo, nomeadamente Inglaterra, onde encontrámos a ideia para essa transformação,” revela o engenheiro.
Nessa altura, propuseram à Quimigal a transformação dos complexos industriais em Parque Empresariais, não só o do Barreiro, mas também o de Estarreja.

Criação da Quimiparque

As indústrias químicas estavam na sua fase final e era uma incógnita o que iria acontecer com aquele espaço; é nessa altura, em 20 de Dezembro de 1989, que é criada a Quimiparque.
“Com a experiência confirmámos o que vimos lá fora, sobretudo em Inglaterra. Essas experiências existiram e tiveram bom resultado,” reconhece Sardinha Pereira.
No entanto, essas transformações não foram bem encaradas por alguns. O Barreiro tinha uma forte ligação à industria química e não era fácil incutir nas pessoas que essa actividade já não tinha futuro. Por outro lado, o aumento significativo de habitações, que se foi verificando por todo o concelho e em redor da CUF, também impedia a continuação da actividade, uma vez que os problemas ambientais eram muito graves.
“Só passados alguns anos é que as pessoas começaram a perceber que toda a actividade tradicional, primeiro da CUF e depois da Quimigal, estava na sua fase final e perceberam que a criação da Quimiparque tinha sido a solução mais conveniente,” comenta o engenheiro.
Em 1990, Sardinha Pereira assume a vice-presidência, cargo que ocupa até 2002, altura em que deixa o executivo e é convidado para consultor da empresa, onde se encontra actualmente.

Projecto “Masterplan”

No que diz respeito ao “Masterplan” e na opinião de Sardinha Pereira, “o estudo do “Masterplan” surge naturalmente, porque só existe uma possibilidade de se ocupar os espaços livres.”
Os casos de estudo que foram visitados quando ocorreu a criação da Quimiparque mostraram que era viável a criação de habitação dentro do complexo, “nós já temos aqui habitação, temos o bairro operário, onde ainda vivem antigos trabalhadores da CUF e da Quimigal,” recorda o engenheiro.
O projecto “Masterplan”, tal como aconteceu com a criação da Quimiparque, também não tem tido uma aceitação passiva, “muitas pessoas não compreendem, mas também não podemos ter a pretensão de convencer as pessoas, as coisas têm de ser muito bem explicadas e a Quimiparque tem tentado fazê-lo de diversas formas,” ressalva Sardinha Pereira que considera ainda, “as pessoas vão acabar por compreender o projecto e tenho a ideia que essa reacção que se manifestou há cerca de um ano tem diminuído, porque as pessoas já vão compreendendo melhor o que vai acontecendo.”
Em Outubro de 2004, a Quimiparque entregou, na Câmara Municipal do Barreiro, o projecto de reparcelamento da zona 2 do Plano Geral de Zonamento. A zona 2 é a maior das oito zonas em que foi dividido o território para o estudo, tem cerca de 60 hectares e está vocacionada para a implementação de empresas de pequena e média dimensão.

Criação do Museu Industrial - “achei que era uma responsabilidade que me competia”

Foi desde os anos 80 que Sardinha Pereira começou a desenvolver uma vertente museológica, “comecei a desenvolvê-la na altura em que era director do complexo, achei que era uma responsabilidade que me competia, olhar para uma componente histórico - museológica. Comecei a conhecer pormenores de Alfredo da Silva e a admirar a figura,” recorda o consultor da Quimiparque.
No entanto, a ideia de se criar um museu não surgiu apenas nessa altura, tanto a CUF como mais tarde a Quimigal pensaram em criar um museu, “ pensaram desenvolver um projecto museológico, mas não surgiu a oportunidade,” salienta Sardinha Pereira.
Contudo, no interior do complexo, já existia desde 1944 o Mausoléu Alfredo da Silva, mandado edificar pela sua família, no antigo cemitério do Barreiro, que se situava junto das fábricas da CUF. Com a Transferência, em 1963, deste cemitério para o Lavradio, ali ficou apenas o mausoléu, enquadrado num arranjo arquitectónico de 1971, que, em 1993, foi beneficiado com um amplo espaço verde.
Em 1965, surge a Casa Museu Alfredo da Silva, habitação onde perpassa a memória do fundador da CUF, que, nos anos 90, já sob o domínio da Quimiparque, foi enriquecida, pela transferência para esse espaço de todo o espólio proveniente da Fábrica do Sol, em Alcântara.

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção