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Cidade com Rostos

João Franco – Presidente da TranstejoBarreiro transporta 10 milhões de passageiros/ano

João Franco - Presidente do Conselho de Administração da Transtejo/SOFLUSA, considera que - “É fundamental criar uma cultura de utilização de transporte público”.
A linha da SOFLUSA que estabelece as ligações Barreiro-Lisboa transporta anualmente 10 milhões de passageiros. A linha do Barreiro foi a única que não perdeu passageiros e registou um ligeiro aumento.

12 min de leitura
João Franco – Presidente da Transtejo Barreiro transporta 10 milhões de passageiros/ano

Por António Sousa Pereira

Fomos conversar com João Franco, Presidente do Conselho de Administração da Transtejo, empresa responsável pela gestão de toda a frota de transportes de passageiros que navega no Rio Tejo, de Cacilhas, Seixal, Barreiro, Montijo, Alcochete, de certa forma coordena todas as ligações entre as duas margens.
Há mais de 20 anos que João Franco, Advogado, está ligado à temática dos transportes.
“Gosto desta actividade. É para mim uma actividade aliciante, desde que se possa fazer coisas. Isto não é um emprego, isto é uma missão, ou se está com vontade de melhorar o produto e deixar alguma coisa feito, ou então não se consegue fazer nada” – disse-nos, no decorrer da nossa conversa, ali, no seu Gabinete, de onde se olha a beleza do Rio Tejo.
O que é a SOFLUSA ?
“A SOFLUSA faz parte da Transtejo, a SOFLUSA presta um serviço de transportes de passageiros numa das linhas mais importantes que nós temos em números de passageiros.
A que transporta mais passageiros no conjunto, aqui do Rio Tejo, é a linha de Cacilhas e em segundo lugar a linha do Barreiro, que, só por si, transporta 10 milhões de passageiros/ano.
No conjunto do Tejo transportamos 32 milhões de passageiros/ano. O Barreiro é um terço aproximadamente.
A SOFLUSA tem, neste momento, 9 catamarans novos, todos iguais e mais cinco catamarans que eram da Transtejo e que foram transferidos para a propriedade da SOFLUSA, para cumprir o artigo 35 do Código das Sociedades Comerciais, para recomposição dos capitais próprios da SOFLUSA.
A Transtejo conta com 580 trabalhadores, a SOFLUSA tem cerca de 150 trabalhadores, correpondendo a 25% dos trabalhadores da Transtejo.
A realidade do transporte é, portanto, o conjunto da actividade fluvial que nós tratamos. Há um aspecto especifico da SOFLUSA que é o de fazer a ligação Barreiro- Lisboa. Mas, é uma linha como as outras, muito importante porque são dez milhões de passageiros.”

Nova Estação no Terreiro do Paço

Como comenta as criticas que são feitas ao facto de que os barcos pararem nessa linha quando há mau tempo ?
“Os momentos de mau tempo têm perturbado o serviço, em situações extremas, não é o simples mau tempo, é em mau tempo extremo, que tem gerado perturbação na linha do Barreiro, não no Barreiro, mas sim no Terreiro do Paço.
Tal acontece, por duas razões. O Terreiro do Paço está, na margem norte, no pior sitio possível em termos de navegação, devido às correntes existentes, associado a isto há o facto de, quando há temporal extremo, os pontões que estão no Terreiro do Paço, que estavam preparados para acostagem dos barcos muito grandes, que compunham a frota antiga, agora, como estes barcos têm características diferentes, aqueles pontões não são os adequados.
Estes pontões pelas suas características oscilam muito, isso não fazia diferença nos barcos antigos, porque eram barcos de aço e não causava problemas. Os barcos actuais são mais leves, e não têm peso suficiente para travar os movimentos do pontão.
Isto só vai ser resolvido quando se colocarem os pontões novos, que precisam de prévia colocação de estacas marítimas, é uma obra que vai arrancar e depende do Metropolitano de Lisboa.
A obra vai arrancar em breve, de acordo com o que nos foi dito e, no próximo Inverno, esperamos que o problema esteja realmente resolvido.
Têm-nos dito que os pontões estão prontos e nós não os pomos lá. Claro. Porque não podem ser postos. Primeiro terá que ser feita a obra marítima, depois é que podem ser colocados os pontões. É um trabalho que se vai iniciar mais mês, menos mês.
As obras dos novos pontões, no Terreiro do Paço, de consolidação da muralha e a construção dos novos pontões de terra, onde vão acostar os pontões marítimos, todo esse trabalho implica a construção de cinco pontões, serão todos renovados, e vai ficar a funcionar uma Estação do tipo da que existe no Cais do Sodré.
Alguma perturbação vai haver, com essas obras. É inevitável.
No entanto, estão a ser realizados inquéritos aos passageiros, para perceber a origem destino de forma termos uma perspectiva dos movimentos e dos interesses de quem vem do Barreiro, ou do Seixal, dos convenientes e inconvenientes dos barcos atracarem no Terreiro do Paço ou no Cais do Sodré.
Garantir a segurança é um requisito essencial no transporte público e muito especialmente neste, porque é talvez o transporte mais dependente das condições atmosféricas, pelo que é necessário evitar o mais possível o cruzamento das linhas de navegação e ter em atenção os interesses dos passageiros, as preferências deles em termos de origens e destino.
Tudo isto estamos a equacionar com vista a que, numa situação transitória, que virá a existir, com perturbação do serviço, como disse inevitável, mas que desejamos que essa perturbação seja a menor possível.”
A frota que a Transtejo e a Soflusa possuem é suficiente para garantir o serviço que prestam ?
“A frota que temos nas diferentes linhas do Rio Tejo é mais que suficiente. Temos aliás frota a mais, porque já a herdámos assim, há frota que temos para venda. Os navios antigos vendemos, ao preço que foi possível obter, que não foi grande coisa.
Temos neste momento quatro catamarans a mais. Só que eles estão a mais porque têm uma capacidade muito pequena, são barcos que transportam menos de 500 passageiros, e , neste serviço público barcos com menos de 500 passageiros não vale a pena ter, salvo num caso ou outro.
Temos aí um catamaram que tem estado na área do Turismo, que é o Fantasia.
Temos dois de 200 lugares e outros dois de 300 lugares. E esses de facto não nos servem para nada. Servem pontualmente para substituir outros. Mas é um investimento que está ali parado que não compensa.
Nem compensa utilizá-los fora das horas de ponta, porque a diferença de consumo é muito pequena. E, o tempo que se perde a ir buscar um barco e encostar o outro, e o custo da operação em vazio, não compensa.
Estão para venda os quatro. Só que o mercado está mau e é muito difícil libertá-los.”

Novos cais na Margem Sul ?

É possível que no futuro com o desenvolvimento urbano na Quimiparque ou na zona da Moita, sejam construídos cais naquelas zonas ?
“ A nossa resposta é sempre a mesma : nós temos que ter uma dimensão mínima de procura para justificar o investimento, quer em cais, pontões, navios, pessoal, que justifique a operação. Já equacionámos isso, mas ainda não há procura minimamente necessária para justificar a operação.
Os meios são muito caros, os barcos são muito caros, os equipamentos são muito caros e só se justifica o investimento, se houver alguma procura com uma dimensão mínima que viabilize.
Não é que pague os custos, porque isso nenhuma das linhas é sustentada pelas receitas dos passageiros, mas não devemos agravar ainda mais o problema.”
A linha Barreiro-Expo vai manter-se?
“É uma linha com muito pouca procura. Não funciona aos sábados, domingos e feriados e mesmo assim hoje é insustentável. É uma linha ruinosa.
A receita dessa actividade não chega para pagar o combustível. Nem o investimento do pessoal, nem o desgaste dos barcos para a manutenção, nem seguros, nem coisa nenhuma.”
Quando os vossos transportes causam défice o governo cobre o custo social?
“É quando o governo contribui. Mas, o que historicamente tem se verificado, desde há muitos, muitos anos, é que o governo, nem todos os anos tem capacidade para por nestas empresas de transporte público o dinheiro que elas precisam, para colmatar essa diferença entre o que é pago pelo passageiro e o custo da operação.
Em números redondos posso dizer-lhe que os passageiros pagam apenas 1/3 do custo da operação.
O Estado quando pode contribui, quando não pode a empresa vai-se endividando.”
Há gestão integrada com os restantes operadores de transportes?
“Procuramos coordenar os horários com os outros operadores e eles procuram coordenar connosco, mas não é fácil, até porque há operadores que são privados e, por vezes, fazer carreiras para os nossos terminais não é rentável. Por isso há problemas de interligação entre transportes.
Mas temos procurado, da nossa parte, tudo fazer para que essa articulação exista, mas nem sempre existe. Há aí falhas temos essa noção.”

Barreiro aumentou passageiros

Com a construção da nova ponte e os comboios na Ponte 25 de Abril, os passageiros no transporte fluvial reduziram?
“Tem diminuído, com excepção do Barreiro. Na generalidade das linhas temos vindo a perder passageiros de há muitos anos para cá, no Barreiro, contudo, em 2004, deixamos de perder passageiros.
Estabilizou, e até já se nota um ligeiro aumento em relação a 2003.
Aumento o número de passageiros em 2004, em relação a 2003, cerca de 1%, porque fundamentalmente, há uma melhor qualidade do serviço, em resultado da comodidade dos barcos, da rapidez da viagem, e penso também porque temos vindo a oferecer uma melhor prestação na medida do que é possível, um melhor atendimento, melhor informação ao público, melhores instalações sanitárias. Procuramos melhorar, mas temos noção que ainda há muito para fazer.
Os novos barcos contribuem para essa melhoria de serviço mas há muito para fazer ainda
Os barcos do Barreiro vão para o Terreiro do Paço que temos a noção que é muito mau. É um processo. Está em obras, daqui a um ano dois anos é que teremos ali muito boas condições.
Na generalidade do transporte fluvial do Tejo temos vindo a perder passageiros, com excepção do Barreiro em 2004, que revela uma tendência para os anos seguintes. A perda de passageiros que se verificou nos últimos dez anos, decorreu fundamentalmente da transferência dos passageiros do transporte colectivo para o transporte individual, é também para o comboio, é também para o transporte rodoviário, mas é muito para o transporte individual.
Tem que haver políticas do Governo central, mas também muito das autarquias, nomeadamente as de Lisboa, no sentido de condicionar o uso do transporte individual, em certas áreas da cidade.
Mas, ao mesmo tempo devem ser criadas melhores condições no transporte colectivo.
É uma decisão politica de privilegiar o transporte público, ou não, porque a utilização do transporte público é um contributo para a melhoria da qualidade de vida, quer em termos ambientais, quer em termos mobilidade.”

O importante é que o sistema funcione

Quais são os projectos ou sonhos que gostava de ver concretizados ?
“Há muitas coisas para fazer, melhorias. O que interessa nesta actividade é uma visão do sector. Não é importante que esta empresa, ou aquela, não é o modo fluvial, ferroviário, ou rodoviário, o que é importante é que haja um sistema em que isto funcione articuladamente, e que haja uma melhoria da mobilidade dos cidadãos.
Não é tanto que esta empresa, seja mais rápida, tenha mais barcos, isto é importante, mas que tem ser visto tudo no conjunto, que as pessoas possam vir de barco, mas que tenha boa ligação ao metro, boa ligação aos autocarros, que consigam os interfaces cómodos sem andarem à chuva ao calor do verão. Com bons acessos, com serviços essenciais no caminho, com boa sinalética, com casas de banho adequadas. Com segurança.
Interessa é que o sistema funcione bem. O objectivo obviamente é esse que os cidadãos deixem cada vez mais o transporte individual e se sintam aliciados para usar o transporte colectivo.
Como analisa quotidiana da Transtejo e da SOFLUSA?
“O que pretendemos é fazer o melhor possível para que o serviço seja cada vez melhor.
Há significativas melhorias das condições de trabalho.
Nos trabalhadores há maior brio e uma satisfação pessoal, ao verem que o trabalho é reconhecido, é prestigiante para os próprios e para a empresa em que trabalham.
Se não se pode dar às pessoas um ordenado mais adequado, mais desejado, mais justo, pelo menos que se dê estímulos às pessoas em termos de reconhecimento, de agradecimento, pelo seu empenho.
Temos neste aspecto provas dadas de bom relacionamento com Comissões Trabalhadores, com dirigentes sindicais.
Às vezes temos divergência de opinião, mas isso é normal, é salutar, é dessas divergências que surgem coisas positivas, mas tem havido um relacionamento positivo, muito cordial.”

Competir com o transporte individual

Quais os seus principais objectivos como Administrador?
“Gostava de ver um sistema de mobilidade dos cidadãos, claramente, mais procurado pela sua qualidade, e pelo de serviços oferecidos, que fosse mais procurado que o transporte individual.
Nós não queremos competir coma ferrovia, nem com a rodovia, nós queremos competir é com o transporte individual. E é essa lógica que temos que ter sempre presente.
Todos os operadores em conjunto temos que prestar melhor serviço aos clientes. Não podemos andar cada um a puxar para o seu lado. O que interessa é que o sistema funcione.
O cidadão tem que ter um título de transporte e utilizar qualquer transporte indiferentemente. Isto é que cria as condições para a mobilidade.
Criar uma cultura de utilização de transporte público
Se forem construídas novas pontes no Rio Tejo o transporte fluvial poderá ser afectado?
Com a construção de novas travessias no Tejo a empresa terá que redimensionar a sua oferta. Mas o transporte fluvial nunca irá acabar.”
Há segurança nos barcos do Tejo ?
“Há. E para nós é fundamental a segurança. Temos câmaras de vigilância em quase todo o lado, piquetes de segurança nas estações e a bordo dos barcos.
Há um conjunto de coisas que nem os cidadãos se apercebem, mas essa é uma tarefa imensa que é desenvolvida.
Mas ainda bem que não se fala nela, porque é sinal que as coisas correm bem.”
Foi uma agradável conversa que nos permitiu conhecer a realidade dos transportes do Tejo e alguns projectos de futuro.

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