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Cidade com Rostos

Fui amiga do Sr. João do Carmo

Razões de saúde, felizmente passageiras, impediram-me de estar no lançamento do livro Eu, meus senhores, amo a igualdade cujo autor, João Azevedo do Carmo, fez o favor de ser meu amigo, tendo começado a nossa relação nos anos sessenta porque então eu recebia lições de Matemática do genro, Dr. Hélder Fráguas, outro barreirense ilustre, com um currículo como docente e cidadão só divulgado após ter falecido, tal a modéstia que sempre o norteou.

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Por Jornal Rostos

Não vou, neste texto, repetir o que tantas pessoas que privaram com o Sr. Carmo referem no livro póstumo ou disseram no auditório da biblioteca municipal desta cidade aquando do lançamento do mesmo, no dia 12 de Fevereiro. Darei um testemunho pessoal acerca de quem reiterou as lições de liberdade e democracia que colhi em casa, como mais alguns cidadãos que me ajudaram a crescer.
Era, nesse tempo triste do encontro inicial, João Azevedo do Carmo um homem maduro que, há décadas, lutava e esperava pela queda da ditadura que nos amesquinhava mas nos unia para além das gerações, do género sexual, da situação económica e social. Queríamos viver em liberdade, sem prisões físicas e do foro simbólico, votar (como isso era um dos desejos mais importantes que tínhamos!), exprimir-nos em pluralidade, melhorar as condições degradantes a que o país (a pátria, sim, a pátria!) chegara, ver salários condignos para os trabalhadores que, de muitas formas, enriqueciam Portugal e continuavam pobres e, não poucas vezes, impedidos de desenvolver as tarefas a que se dedicavam por serem antifascistas e a pata salazarista se ter abatido sobre eles. Queríamos também novas formas artísticas e havíamos de tê-las! Foi nesse contexto que João do Carmo e eu construímos uma relação que passou pelo diálogo acerca dos mais diversos temas, com destaque para o político, o desportivo, o televisivo, o estético.
Homem atento à comunicação social, à leitura da imprensa que, como num de muitos e inesquecíveis poemas, Manuel Alegre disse acerca de António Sérgio, “era contra em tempo de ser por”, João do Carmo não prescindia de recolher sempre informação nos históricos, combativos e perseguidos jornais de âmbito nacional que norteavam a opinião pública opositora do salazarismo: “ República” e “Diário de Lisboa”. Sempre calmo (disse Goethe que os grandes homens são tão tranquilos com as altas montanhas e assim era João do Carmo), educado e com requintado humor, esperava o dia da mudança e colocava a televisão sem som quando um dos mais temíveis homens do regime ditatorial, Barradas de Oliveira, disfarçado de jornalista, clamava contra a “oposição”, ou seja contra nós, a maioria dos portugueses, mulheres e homens, velhos e novos que tínhamos como desígnio atingir a liberdade, tantas vezes tentada sem êxito mas que chegaria um dia! O que aconteceu sem ser em noite de nevoeiro, pela mão competente do Movimento das Forças Armadas, intérprete do sentimento popular e a ele unido pela convicção, força das armas e espírito pacifista.
O Sr. Carmo, marido (como amava e se enternecia com a D. Felicidade, companheira de décadas!), cunhado, pai, sogro, avô, tio, amigo, dirigente associativo, mestre de esperanto, cidadão notável da então vila operária pôde realizar muitos dos sonhos que tinha para viver em Democracia. E continuar a formar e a colaborar na formação de jovens com quem privava, outros e eu que tivemos o privilégio de nos ter adoptado: que, por isso, nos aprovou e que proporcionou, com meigo e firme tom de voz (nunca lhe ouvimos outro) que o seguíssemos, escutando-o. O Cabós Gonçalves (penso que posso referir, sem lhe pedir licença, este irmão que encontrei, há décadas, junto da família Carmo e que, embora meu vizinho, só lá deixou de ser apenas um conhecido mais novo) e eu fomos alguns desses afortunados. Dos que poderemos dizer, citando Maria Fernanda Fráguas, no livro que hoje aqui me traz, nossa excelente amiga, a primeira filha da pessoa mais fina que conhecemos: “Guiou-nos, às filhas, aos netos e a tantos jovens que o rodeavam, para nos deslumbrarmos com a beleza, com as múltiplas manifestações da arte.”. E, quase parafraseando a mais nova, Isabel do Carmo, também querida amiga de quem matamos saudades telefonando-lhe, lendo-a ou vendo-a na televisão, poderemos dizer, com prazer e orgulho, que fomos amigos do Senhor Carmo.

Manuela Fonseca
Março de 2005

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