Homenagem - Biblioteca MunicipaldoBarreiro,dia 8 de Maio -17 horasHomenagem à médica Laura Seixas
Que saudades mãe

Por Jornal Rostos
Quando nasci Maria Laura Cabrita Seixas estava nos seus 43 anos e já era uma médica respeitada no Barreiro. Costumava recordar com saudade os tempos que passara em Coimbra, onde finalizou o curso de Medicina.
Aos 33 anos decidiu abrir uma maternidade numa antiga moradia da Rua Elias Garcia, quando o mais fácil seria seguir uma carreira num hospital público. A Clínica recebeu o nome de “Casa de Natividade São Gonçalo de Lagos”. Foi a primeira maternidade particular a funcionar no Barreiro e a 15ª no país, como comprova o número de alvará emitido pelo Ministério da Saúde. Em 1930, o seu pai, professor José Joaquim Rita Seixas fizera o mesmo na área do Ensino, inaugurando no Barreiro o “Colégio Barreirense”, depois Mendonça Furtado, a primeira escola privada do concelho.
A dedicação de Laura Seixas era total. Horas a fio de bata branca vestida e muitas noites sem dormir. Era assim o seu dia-a-dia, sem descanso. A relação entre as parturientes e a minha mãe era quase familiar. Muitas pediam-lhe que fosse a madrinha do bebé. Se fosse menina era certo que o nome seria Laura. Outras pacientes regressavam à maternidade para uma simples visita ou para o nascimento de um segundo ou terceiro filho. Também houve casos em que algumas mães viram nascer os netos na nossa Clínica.
No início dos anos 70, um sonho antigo concretiza-se com a construção de uma nova maternidade na Rua Eça de Queiroz. À medida que a população ia crescendo no Barreiro, a clínica modernizava-se. As novas instalações estavam ao nível das melhores maternidades do país em matéria de equipamento. Bloco operatório, duas enfermarias, quartos particulares, sala de partos e consultório. O novo edifício oferecia todas as condições às parturientes que continuavam a chegar em grande número de norte a sul. Confesso que a dada altura perdi a conta dos bebés que vi entrar e sair do berçário. Um dia a minha mostrou-me os registos oficiais. Os números são no mínimo invulgares. Entre 1965 e 1988 nasceram 10.286 crianças. Foram internadas 11.380 mulheres e feitas 1.194 intervenções cirúrgicas.
Entre estas crianças está a maior parte dos meus amigos. Na escola era habitual ter muitos colegas nascidos na Clínica. Orgulhava-me disso. Todos estes momentos preencheram a minha infância, até aos 16 anos. Recordo-me dos médicos, enfermeiras e das funcionárias incansáveis que colaboraram com a minha mãe nesta grande aventura. Lembro-me como se fosse hoje do inconfundível cheiro a éter que perfumava os corredores da Clínica, onde tive o privilégio de crescer a ver nascer.
Actualmente, a Casa de Saúde continua a funcionar e ainda bem. A gestão está agora a cargo de uma sociedade de médicos do Barreiro.
Homenagem no Barreiro, dia 8 de Maio
O primeiro bebé nasceu na Clínica no dia 14 de Fevereiro de 1965. Uma menina. Passados 40 anos, achei que seria interessante assinalar a data através de uma cerimónia que relatasse o percurso profissional e humano da minha mãe no Barreiro. Conto com o apoio precioso das professoras Amélia Farias, Assunção Vitorino e do vereador Amílcar Romano. A iniciativa realiza-se no auditório da Biblioteca Municipal, no próximo dia 8 de Maio, pelas 17 horas. Na sessão, serão escutados os testemunhos de antigos colegas e parturientes de Maria Laura Cabrita Seixas.
Na mesma cerimónia será apresentado o livro de poemas editado em Outubro de 2000 pela minha mãe, poucos meses antes de falecer, aos 70 anos. “Cantares para os meus Amigos” é um bonito livro de versos com relatos dos momentos mais marcantes, vividos pela minha mãe durante a década de 90. Como era seu desejo, a receita reverte a favor das duas corporações de bombeiros da cidade que ao longo dos anos colaboraram com a “Casa de Natividade São Gonçalo de Lagos”, conhecida entre os barreirenses como a clínica Laura Seixas. Que saudades mãe...
Armando Seixas Ferreira
Filho










