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Cidade com Rostos

Em SetúbalMorreu o poeta Alberto Cavaco da Palma

Morreu na cidade do Sado no dia 29 de Outubro de 2005. Poeta à moda antiga, cujos versos caracterizavam e caracterizam (os versos atravessam todas as dimensões) a impulsividade da oralidade do discurso popular, na exploração de situações anedóticas do quotidiano.

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Por Jornal Rostos

“SAIBA A CIDADE DE SETÚBAL E QUEM NELA MANDA E PROMOVE A CULTURA QUE MORREU O POETA POPULAR ALBERTO CAVACO DA PALMA”

Hoje vou escrever para o insigne poeta Alberto Cavaco da Palma. O idealista nasceu em Odeleite, concelho de Castro Marim, aos 13 de Janeiro de 1923 e fez de Setúbal, desde muito novo, a sua terra afectiva. Morreu na cidade do Sado no dia 29 de Outubro de 2005. Poeta à moda antiga, cujos versos caracterizavam e caracterizam (os versos atravessam todas as dimensões) a impulsividade da oralidade do discurso popular, na exploração de situações anedóticas do quotidiano, num gosto, rima e métrica muito pessoais que, curiosamente, só as suas actuações em palco, verdadeiramente, faziam apreender completamente, o fascínio da criatividade à solta. Foi membro fundador do Nerp – Núcleo de escritores e recitadores portugueses, colaborador regular do mensário “Diz Ilusão” e está incluído na antologia poética Florilégio I e Florilégio II. Obras do autor, entre muitas outras, editadas: Pausa no stress, adivinha meu nome é bicho, valores de Setúbal, adivinhas em verso, versos ao Deus dará, histórias de todos os tempos (conjunto de rubricas do programa de rádio Arestas de Vento), o Alentejo também é português e bom humor a conta gotas.

Protesto imediato e irónico

Foi uma honra trabalhar com Alberto Cavaco da Palma, desde a 1ª emissão, no projecto de cultura na rádio “Arestas de Vento”. E assim, passaram 18 longos anos com mais ou menos pachorra a estoirar balões, escrever páginas que muitas vezes rasgávamos e, vertiginosamente, voltávamos a escrever, preenchendo filosofias que logo abandonávamos. Por isso agora… a tranquilidade e o desassossego equilibram-se nas minhas veias!... Porém, não será demais repetir: Na estruturação das ideias de combate, a sensibilidade simples de Alberto Cavaco da Palma, porque era genuína e sabedora, como as metáforas em que o vulgar cidadão faz diariamente o seu circo, representava e representa para mim o ardor, a voz, o desejo social do homem amordaçado nas teias da hipocrisia. Não foram poucas as vezes que o protesto imediato e irónico desse saudoso amigo, com rasto noutros espaços e entendimentos, serviu para animar e reforçar a minha estrela cultural em carência de estima.

Alberto Cavaco da Palma, não sendo um Deus ou um profeta, tinha a força sagrada do verbo de Raul Brandão e António Aleixo. E cuidado…era um repentista muito critico e exigente! Para ele, ser poeta, não era rimar pão com melão?!!! Escrevia e dizia a brincar…mas, com preocupações estéticas, misturando com rigor e harmonia artifícios gramaticais com causas existenciais. Fazia do facto de não usar como cajado um dicionário de rimas uma grande vantagem. Não era castrado na inspiração que anda…

Numa noite de versos, anedotas e histórias do fim do mundo bem contadas disse-me: “Eu devia ter conhecido o Ricardo Cardoso 20 anos antes”…

Quis o autor que o amigo e poeta Mário Gomes Silvério lhe dedicasse algumas palavras por altura do lançamento do livro “Bom humor a conta gotas”, coisa que companheiro fez com muito prazer: “Conheço há muito a faceta criativa de Alberto Cavaco da Palma! Uma faceta, especialmente, humorista e em verso, o que é original. E sempre admirei a sua maneira muito peculiar de tratar os mais variados temas, temperando-os de sal e pimenta popular nas doses certas. Fazer rir é uma tarefa difícil. Fazê-lo com inteligência, mais difícil se torna. Tem a graça e a beleza das coisas simples. Talvez a sua maior virtude”…

Quem também pensou e escreveu para este senhor das letras foi o saudoso Carlos César, fundador do Tas: “Num verso o poeta diz «Deus ou o Diabo», essa presença de Deus e do Diabo, do bem e do mal estão patentes em toda a sua obra. Os temas abordados pelo escriba são para miúdos e graúdos, mas aqueles que foram criados para crianças dão alegria e emoção aos adultos e os que foram feitos para os mais crescidos podem interessar os mais pequenos. Se quisermos classificar a poesia de Alberto Cavaco da Palma, poderíamos dizer que é o poeta da emoção, do amor, da liberdade e da solidariedade.
Se continuarem a surgir mais poetas como este em Setúbal, isso quererá dizer que esta cidade tem cada vez mais valores que honram Manuel Barbosa du Bocage”.

Alberto Cavaco da Palma, como escritor, deixou uma obra que marca a cultura popular Setubalense e… como amigo…deixou muitos amigos… na cidade verdadeira e… no “Arestas de Vento”… Mário Gomes Silvério, Vítor Serra, António Manuel Ribeiro, Luís Filipe Estrela, Alexandrina Pereira, Manuela Matos Silva, Ângela Marques, Luís Artur de Sousa, drª Conceição Quintas, Alfredo Campos Lopes, Pais Garcia, Carlos Resende, Céu Campos e Ricardo Cardoso.

Até sempre companheiro!!!

RICARDO CARDOSO

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