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Cidade com Rostos

Carlos Humberto, Presidente da Câmara Municipal do Barreiro“Acho que houve despesismo, não houve rigor na gestão das contas do município”

Carlos Humberto, Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, em entrevista a “Rostos” faz o seu primeiro balanço da gestão de dois meses da autarquia.

23 min de leitura
Carlos Humberto, Presidente da Câmara Municipal do Barreiro “Acho que houve despesismo, não houve rigor na gestão das contas do município”

Por António Sousa Pereira

Gostaria de começar por lhe perguntar se foi difícil, para si, adaptar-se a esta função de Presidente da Câmara Municipal do Barreiro?
“Não, não foi difícil. Acho que foi uma coisa que surgiu com naturalidade, com a mesma naturalidade com que surgi como candidato. Sou Presidente da Câmara, com essa naturalidade.
Acho que procuro ser como Presidente da Câmara o cidadão que sempre fui, interventivo, tal como o fiz, na minha vida, participando inicialmente no desenvolvimento social, cultural, lúdico, do nosso concelho, da minha rua, da minha zona, e, posteriormente, ao despertar para a vida política, com a naturalidade das opções, difíceis, mas opções que foram feitas pela vida, dos acontecimentos da vida, intervir na vida politica.
A força política pela qual fui candidato a CDU, o PCP, ganhou as eleições e, portanto, com essa naturalidade, sou Presidente da Câmara.
De alguma forma não conhecia o funcionamento interno de uma Câmara, mas posso afirmar que conhecia, razoavelmente, direi bem, os problemas globais das autarquias, até, tendo em conta toda minha experiência de vida partidária, a minha experiência, durante alguns anos a intervir no concelho do Barreiro, onde assumi a responsabilidade do trabalho autárquico e fui, também, responsável ao nível partidário pelo concelho.
E, durante mais de uma década, tive a responsabilidade regional, ao nível partidário, de acompanhar as autarquias, ou, participando no Grupo de Trabalho de Acompanhamento das Autarquias ao nível nacional e integrei a Comissão Nacional de Autarquias do PCP.
Portanto, isto para salientar que os problemas de uma autarquia, globalmente considerados, são por mim conhecidos, e, os problemas do concelho do Barreiro, também os conhecia.
Por isso, não tem sido difícil assumir o papel de Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, ainda que, às vezes, me incomodo, um bocadinho, quando me chamam Presidente, mas isso…”

A vida é aprendizagem

Mas, já está mesmo convencido que é Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, ou ainda não?
“Nestas coisas, como em tudo na vida, há sempre uma aprendizagem. Tudo na vida é uma aprendizagem. Eu, estou a aprender a ser Presidente da Câmara. Já vesti a pele de Presidente de Câmara, sou Presidente da Câmara, assumo o cargo e assumo as consequências disso, acho que estou como Presidente e estou a aprender a ser Presidente da Câmara.”
Costuma comentar-se que um Presidente da Câmara, eleito pelo PCP, não tem autonomia, depende das decisões do seu partido, como interpreta estes comentários?
“Não estou de acordo com essa análise. Como disse, fui durante muitos anos responsável por trabalho autárquico, muitos anos responsável por concelhos na região, e, até fora da região, e, posso afirmar, com plena consciência que assim não é, porque sei que um Presidente da Câmara eleito, em listas da CDU, membro do PCP, tem uma grande autonomia naquilo que é a gestão da autarquia.
Naturalmente que as questões estratégicas, de opção política, devem e são discutidas colectivamente, com os seus camaradas ou companheiros de vereação, e, naturalmente, no próprio partido.
Uma pessoa que é eleita por um partido político, não é justo, que tome decisões, que responsabilizam a força política, pela qual foi eleito, sem discutir os problemas e as decisões com a sua força politica, que, naturalmente, é aquela que vai ter que assumir, politicamente, essas decisões.
Portanto, desse ponto de vista, há, ou deve haver, uma discussão, colectiva sobre as questões estratégicas.
Na verdade, essa imagem que, por vezes, se tem é caricata, porque se cada vez que o Presidente decidir, tem que ser discutido no seu partido, obrigava à existência de uma máquina no partido para acompanhar todas as decisões do Presidente da Câmara nas mais diversificadas matérias, o que era impossível.
Se discutíssemos no PCP, todas as decisões dos eleitos na Câmara, não fazíamos mais nada na vida do que andar as decisões dos comunistas eleitos na Câmara. Isso é uma caricatura.”

Não tenho verdadeiras surpresas

Vejamos, então, fazer um balanço destes primeiros 60 dias de exercício de funções?
“Ainda não são 60 dias. Fazemos 60 dias no dia 28 que iniciámos as funções.
O que posso dizer é que não tenho verdadeiras surpresas, nem a situação financeira, nem as questões da estrutura, talvez, a surpresa maior, se, se pode dizer que é surpresa, seja a pressão permanente sobre as pequenas questões de funcionamento e da estrutura, tão pesada e tão complexa e, não tendo medo das palavras, tão burocratizada, como é uma Câmara Municipal.
Não estou a falar da Câmara do Barreiro, em concreto, porque este não é apenas um problema da Câmara Municipal do Barreiro.
Portanto, a primeira constatação é que não há verdadeiras surpresas, uma segunda constatação, talvez, de satisfação que me deu mais “gozo” foi o contacto com as populações.
Penso, que nem conhecia esta minha característica, não sei se pode classificar assim, do prazer que sinto em falar com as pessoas, ouvi-las, dialogar com elas, aprender com elas, e, aqui, estou a falar da população, mas também dos trabalhadores da autarquia.
E, quero dizer, que muitas vezes ouço coisas das quais discordo, muitas, mesmo muitas vezes, o que é perfeitamente normal, porque cada cabeça sua sentença, pois, sabemos, que as pessoas dão as suas opiniões na base das suas experiências, mas com base no conhecimento que cada um de nós tem das coisas.
Na verdade, quanto mais tempo vamos passando ligados ao dia a dia da Câmara, mais conhecimento vamos tendo e começamos a ter uma visão diferente.
O facto de ter prazer em ouvir as pessoas e escutar as opiniões, não significa que concordo com tudo o que me dizem, mas, são opiniões que ajudam a tomar decisões e torna-se enriquecedor.
Considero que o diálogo com as pessoas é uma metodologia que eu acho indispensável para desenvolver a gestão do município, de todos os municípios, e, particularmente um município como o nosso, onde as dificuldades são muitas, sendo importante estimular a participação das pessoas, dos trabalhadores.
A tomada de consciência de que a resolução dos problemas, as soluções, têm que contar com as opiniões, o envolvimento, das pessoas e dos trabalhadores, este é um trabalho que é necessário fazer todos os dias, é um trabalho muito exigente, talvez, até, este seja um percurso mais difícil, alcançar os objectivos seja mais difícil de atingir, mas a tomada de decisões será mais sustentada, visando a procura de soluções para o desenvolvimento do concelho.
Ainda, uma terceira constatação, reside na complexidade dos problemas, a dificuldades de tomarmos opções, porque não fazemos o que queremos, como é evidente, porque estamos condicionados por múltiplos factores, entre os quais, uma questão que é objectiva, que não é nenhuma demagogia, nem é nenhuma acusação a ninguém, é uma constatação, das reais e muito grandes dificuldades financeiras.”

Uma opção para o desenvolvimento

Nesse estilo de experiência e contactos é se insere a realização da iniciativa “Opções Participadas”?Que significou esta iniciativa?
“Esta é uma opção estratégica. É uma opção para o desenvolvimento do concelho, é uma opção estratégica que caracteriza a forma como queremos gerir a Câmara, de como achamos que devem ser geridos os órgãos autárquicos no concelho.
Esta opção tem uma multiplicidade de objectivos gerir melhor, gerir com os cidadãos, fazer compreender aos cidadãos que eles têm responsabilidade, têm uma palavra a dizer, têm direitos e têm deveres, portanto, que é bom que os exerçam.
Porque, quando nós discutimos com os cidadãos as soluções, os projectos, os percursos, as ideias, ajudamos a que cada um de nós cresça socialmente, percebendo que o contraponto de opiniões enriquece cada um de nós, factor que considero muito importante, nesta visão estratégica que queremos se desenvolva no nosso concelho.
Portanto, para nós, a realização das “Opções Participadas” não é folclore…”
Mas já se escutam acusações que esta acção não passa de uma iniciativa demagógica?
“Eu acho que a vida provará se é demagogia, ou não. Nem vale a pena estar a dizer que essas acusações são mentira. Demos tempo ao tempo.
Se as “Opções Participadas” forem apenas um fogacho, estarei de acordo que se calhar é demagogia, ou que, pelo menos, não passou de uma tentativa falhada.
Mas, como estou convicto que esta estratégia nos vai acompanhar durante estes quatro anos, estimulando várias formas de fomentar a participação, o envolvimento das populações e dos trabalhadores na construção de um Barreiro melhor e encontrarmos soluções para o nosso concelho, posso afirmar que, não é demagogia, é uma forma de estar no Poder Local”.
Esse estilo de trabalho vai reflectir-se em todas as áreas, ou é uma visão estratégica global?
“O que é mais difícil nas sociedades é mudar hábitos de trabalho, é mudar mentalidades.
O nosso objectivo é para que esta vertente da participação seja global, por um lado, mas que em todas as áreas de trabalho sejam envolvidas.
Mas, sabemos que isto não se faz porque nós decidimos que se faça, isto é uma construção.
É necessário envolver também os serviços.

Melhorar a qualidade de vida

Na realização desta iniciativa “Opções Participadas” que sentimento ficou de quais as prioridades sentidas no concelho do Barreiro?
“Tenho a ideia que a realização das “Opções Participadas” deram um contributo para conhecer os problemas mais sentidos no concelho.
No entanto, nós não podemos desligar esta iniciativa, da forma como decorreu a Campanha Eleitoral, e digo nós, não o Presidente da Câmara, mas o então candidato a Presidente da Câmara e a força política pela qual foi candidato.
Realizámos uma Campanha Eleitoral, com um determinado estilo, que nos permitiu, ir a todo o lado, envolver muita gente, ouvir muitas pessoas, realizar muitas reuniões, que enriqueceu a nossa vivência de conhecimento do concelho, de eleitos no concelho na Assembleia Municipal, nas freguesias, uma força com intervenção e responsabilidade politica, acrescento a tudo isso, o contacto com os trabalhadores, com as Chefias, também a realização das “Opções Participadas”.
É, todo este conjunto que nos permite consolidar a visão dos dramas, dos problemas e começarmos a ter opções.
Considero que a iniciativa das “Opções Participadas” foram marcadas por duas vertentes : uma dimensionada para o pequeno problema, que classifiquei de “micro problema”, o problema da rua, ao pé da porta, visto por si só, nós podemos desvalorizar, pela dimensão que tem, mas, quando nós somamos os “micro problemas” ao pé da porta de muitos cidadãos, passamos a ter um problema de grande dimensão, que carecem de respostas adequadas, porque a sua resolução contribui par melhorar a qualidade de vida, ajudando ao desenvolvimento do concelho.
Eu sempre disse isto, mesmo na Assembleia Municipal, na Campanha Eleitoral e nas intervenções no decorrer das “Opções Participadas”.

Problema das Escolas do Ensino Básico

Então, quais as angústias que o Presidente da Câmara ficou no final da realização das “Opções Participadas” nas oito freguesias do concelho?
“Posso dizer que fiquei com muitas angústias, mas não diria que foi em resultado das “Opções Participadas”, esta iniciativa acentuaram essas angústias numa determinada direcção, mas, angústias com que fiquei foram, no essencial, as que já tinha, dos contactos que mantive.
Mas, a minha maior angústia, é a incapacidade de resolver e ir de encontro à solução dos problemas que as pessoas sentem e são necessários resolver, e, por outro lado, os problemas do desenvolvimento do concelho.
Por exemplo, o problema das instalações dos trabalhadores da Câmara Municipal do Barreiro, o problema das Escolas do Ensino Básico, o problema do Barreiro Velho, do Bairro das Palmeiras, da Quinta da Mina, os problemas do emprego…”

Resolver os problemas

Por exemplo, quando o Presidente da Câmara fala da sua angústia das Escolas do Ensino Básico, e outras situações, esquece que a sua força política geriu o concelho durante décadas e tem responsabilidade nesses dramas?
“Ainda bem que é feita essa pergunta. Eu não levanto os problemas para acusar ninguém. Levanto os problemas porque eles existem.
Não pretendo acusar o Partido Socialista de ser responsável por esses problemas.
O que eu acuso o Partido Socialista é de outra coisa, é que perante esses problemas, os ter empolado, e ter dito que resolvia todos, quando tinha consciência que não os podia resolver, o que é diferente, portanto, fique claro que não acuso o Partido Socialista de não ter resolvido estes problemas.
Acuso, repito, isso sim, de ter prometido resolver e não ter resolvido.
Até que, considero que o meu adversário principal, e já o disse publicamente, várias vezes, não é o Partido Socialista, nem são os partidos políticos, são os problemas.
Tenho perfeita consciência que a força política que eu integro sairá mais prestigiada se os problemas forem resolvidos.
Penso que, até num combate politico-partidário, considero que o resultado mais eficaz será se nós conseguirmos resolver os problemas.

Quimiparque é um parceiro

O futuro do Quimiparque, é uma das questões centrais do desenvolvimento do concelho do Barreiro. Que perspectivas existem? Que estratégia existem em relação ao Masterplan?
“Já efectuámos reuniões com a Quimiparque. E não são com estas reuniões que se resolvem os problemas, mas foram reuniões positivas, com entendimentos, não digo acordos, sobre alguns caminhos que começámos a traçar.
Posso referir que, até agora, há um bom entendimento, entre o Conselho de Administração do Quimiparque e a Câmara Municipal do Barreiro.
Do resultado destas reuniões penso que temos indicadores positivos.
Pode considerar-se que o Quimiparque deve ser um espaço de projecção do centro do Barreiro?
“Há entendimento, de ambas as partes, que a Quimiparque é um parceiro do desenvolvimento do concelho do Barreiro, é assim que o Presidente da Câmara e a Câmara vê a Quimiparque.
O território da Quimiparque é um território que terá que ser, fundamentalmente, voltado para as questões do desenvolvimento económico e do emprego.
O Parque Empresarial Quimiparque tem que ser revitalizado, reestruturado, reordenado.
No Parque Empresarial do Barreiro há um conjunto de equipamento, de memórias, que tem que ser preservado.
Estes são aspectos que podem ser uma base de entendimento, entre as duas entidades que estão a discutir o futuro daquele território e o futuro do concelho do Barreiro.
Relativamente, à pergunta concreta, não há ainda conversas sobre a matéria, o que se poderá dizer, como convicção pessoal e enquanto Presidente da Câmara, é que é necessário, relativamente ao centro do Barreiro, se alargue a malha urbana do centro do Barreiro, e isto passa, naturalmente, também, pela Quimiparque.
Nós não queremos uma Quimiparque que se feche ao concelho, murada sobre si própria.
Nós queremos um Parque Industrial que seja um Parque Empresarial parte integrante do concelho e que se interpenetre com o próprio concelho.

Modelo de desenvolvimento

Significa que o Masterplan continua em aberto?
“Não diria que o Masterplan vai ficar em aberto, até porque nós temos uma visão critica do Masterplan.
Diria que, com base nestas ideias e com a convicção, que compromissos assumidos não voltam atrás, porque nós não podemos dizer, chegámos e o que está para trás acabou, porque a Câmara é uma pessoa de bem e assume os seus compromissos.
Mas não diria que o Masterplan é uma coisa para continuar, posso dizer, com base nos princípios que referi, é possível, em parceria, construir um modelo de desenvolvimento, para aquele território.

Distribuição dos pelouros

Como foi a distribuição dos pelouros na Câmara. Por exemplo, defendendo o PCP, que o papel do partido é importante na discussão da intervenção política, porque é que o Presidente da Câmara optou por dialogar com os Vereadores eleitos e não com os partidos políticos? Não é contraditório?
“Não, não acho que seja. O Presidente da Câmara tem perfeita convicção, mais até defende, que para a Câmara haja forças politicas a concorrer e que de acordo com o método Hondt, hajam eleitos a participar na gestão do município.
O Presidente da Câmara nas conversas com os eleitos na Câmara, tem perfeita consciência que os eleitos são de forças politicas, e, isso, nunca é posto em causa.
Agora, pela competência exclusiva do Presidente da Câmara, a distribuição dos pelouros e a distribuição dos tempos, que a Câmara decide, e, neste pressuposto, considerando que os entendimentos para a gestão do município, os acordos faz-se entre os eleitos e não entre forças politicas, na base desse principio, o Presidente decidiu utilizar a metodologia que considerei ajustada.”
Mas foi complicada a negociação?
“Para já, não houve negócio. Houve conversas, com cada um dos eleitos. Não houve negociação, porque não dei pelouros a ninguém, no pressuposto que esse alguém, obrigatoriamente, tinha que fazer isto ou fazer aquilo, nem exigi, nem autorizei que exigissem, nada a não ser, dar as condições suficientes para quem recebesse um Pelouro, ter condições para o exercer. Esta exigência eu admitia, mas não foi preciso fazer.
Houve respeito mútuo, nas diferenças de opinião. Considero que correu muito bem, na forma como as coisas decorreram, com seriedade.
Estão criadas condições de governabilidade da Câmara?
“Acho que sim. Estão criadas as condições. Penso que não vale a pena fugir às coisas, até ver, a vida pode criar surpresas.
Penso que, hoje, posso afirmar que, desde que há maiorias relativas no Barreiro, nunca estiveram criadas tão boas condições para a governabilidade do município como neste momento.
Nunca houve um entendimento que as três forças politicas participassem.

Descentralização Freguesias

A descentralização para as freguesias, como está o processo?
“Foi uma das primeiras preocupações que tivemos. Fizemos reuniões, definimos metodologias.
Nós convidámos as Juntas de Freguesia a fazer uma proposta, que já está entregue e vamos analisar.
Pensamos que podemos começar a aproximar posições, que será analisada com as Juntas, de acordo com cada uma, nomeadamente matérias relativas à limpeza urbana, arranjos de Escolas do Ensino Básico, toponímia, calcetamento, são diversas as matérias que estão em apreciação”

Situação Financeira é preocupante

As finanças da autarquia. A situação é tão preocupante como tem sido referido, ou não é muito diferente daquilo que o PS herdou da gestão CDU?
“Eu acho que a situação é preocupante. Não estou a dizer que é uma situação insolúvel.
Mas é preocupante.
Admito que o Presidente da Câmara e a Câmara não tenha condições de fazer opções, sobre médias questões municipais, porque não tem margem de carácter financeiro para fazer essas opções.
Digamos o que está a decorrer e duas obras que estão abertos concurso, mas que ainda não foram adjudicadas, não sei o que se pode fazer mais.
Se temos ou não condições de fazer opções, temos que esperar pelo Orçamento.
Neste momento tenho receio. A situação financeira é má, e, estou convencido, que nenhum Vereador, nenhuma força politica desmentirá, aquilo que afirmo, que a situação financeira do município é má.
Todas as informações que fui dando ao longo deste tempo, foram informações que fui obtendo dos serviços. Não inventei nada.
Não inventei um número. Não deduzi, não fui eu que fiz as análises. Limitei-me a transmitir aquilo que os serviços me informaram.
A situação vai exigir medidas de rigor da parte da autarquia, se é pior ou melhor do que vem de trás, eu acho que é pior.
E, digo, mais que não seja por um elemento, não vale a pena acrescentar mais, o Sousa Pereira tem presente que, no inicio do mandato do Partido Socialista, foi feito um empréstimo de 10 milhões de Euros. Desse empréstimo nada existe. Existe alguma verba. Mas, não existe no sentido que, do total dos activos, mesmo do dinheiro que temos a receber, não cobrem os compromissos já assumidos, não é que vamos assumir, é que já assumimos, ou temos em divida, ou compromissos assumidos.
Há um diferença de cerca de 5 milhões de Euros.
Foram buscar 10 milhões de Euros e hoje temos um défice de 5 milhões.
Portanto, é uma situação pior, agravada com outra situação, que hoje, nós, não temos capacidade de endividamento. Está esgotada a capacidade de empréstimo.
Não se trata de estar a acusar.

Uma postura de despesista

Mas era possível fazer as obras que estavam assumidas pela anterior gestão CDU, como o AMAC, o Mercado de Stº André e outras, sem que a gestão socialista tivesse que recorrer ao empréstimo?
“Na vida autárquica têm que se fazer opções. Fizeram-se essas obras. Mas, também é verdade que os quadros da Câmara subiram 89 trabalhadores., em quatro anos e foi ampliado o quadro de assessores.
Eu acho que teria sido avisado não se ter uma postura de despesista. Acho que houve despesismo, não houve rigor na gestão das contas do município. Estou a falar em rigor. Não estou a falar de outras coisas que depois se começa para aí, no diz que diz-se, cada um que assuma as suas, o que considero é que não houve suficiente rigor na gestão do município.
Não é possível gerir com rigor quando se empola o Orçamento.
A Câmara do Barreiro tem pouca capacidade de angariar receitas próprias.
Eu nunca quis fazer demagogia com a situação financeira da Câmara, quis transmitir apenas a situação financeira como encontrei no município. Era uma obrigação, um dever, mais do que estar a dizer que o Partido Socialista é culpado. Que eu acho que é, mas não é isso que está em causa.”
Mas o Partido Socialista divulgou que vão realizar-se no Barreiro um conjunto de projectos que vão gerar receitas?
“Deus queira, Deus queira. Vamos fazer todo o esforço que esteja ao nosso alcance para angariar receitas.
É verdade que há hipóteses. Também era melhor que não houvesse hipóteses nenhumas.
A ideia que fica é que estão criadas um conjunto de condições estruturantes que podem permitir à gestão nos próximos quatro anos boas condições financeiras?
“Não temos ainda esses elementos. Sou só Presidente há mês e meio, é natural não conheço todos os dossier’s. Mas se assim for melhor para o concelho.
Pode eventualmente acontecer, mas, já agora, penso que não é ofensivo dizer :não contemos com o ovo no cu da galinha.
E não podemos cair no erro, que foi feito, que algum desses projectos que se dizem que vão dar receitas financeiras, ter sido considerado em Orçamento, como receita, quando ainda, nem o terreno é da Câmara. Mas ainda não é da Câmara e já foi orçamentado. E já fomos chamados à atenção por uma Inspecção dessa irregularidade”.

Revisão do PDM vai avançar

Como vai avançar a revisão do PDM? E o Plano Municipal do Ambiente é para concluir?
“A revisão do PDM é para a avançar. O Plano Municipal do Ambiente é para avançar.
Como já tenho dito, a Câmara é uma pessoa de bem, o que existe, o que for possível reavaliar, reavalia-se, o que estiver adiantado que não é possível reavaliar é para andar para a frente.
O PDM e o Plano Municipal do Ambiente são coisas que consideramos indispensáveis que avancem, avaliando.
Mas serão construídos com a participação das populações.”

Saneamentos na Câmara

Acusa-se que estão a fazer-se saneamentos na Câmara do Barreiro, que tem isto de verdade?
“Eu gostava que quem acusa que me dissesse quem foi saneado.
Se me disserem quem foi saneado eu respondo.
Enquanto disserem que houve saneamentos, eu como não sei do que estão a falar, aguardo que me digam quem foi saneado.
Se tiver alguém para me dizer, este ou aquele, responderei.
Se é saneamentos, aguardo informação directa, porque eu acho que não houve saneamentos nenhuns na Câmara do Barreiro, mas há quem diga que houve, digam quem, para eu poder responder…”
Diz-se também que a actual gestão está a encher a Câmara de assessores?
“Sobre essa matéria também pergunto quais os assessores que foram metidos na Câmara para eu poder responder, se me disserem que foi x, y, h, eu respondo, enquanto não me disserem, nada posso dizer, mas, sobre isso, basta olhar para o Gabinete do Presidente.”

Barreiro sofreu mutações

Que pensa da identidade do Barreiro nos dias de hoje?
“O Barreiro sofreu mutações profundíssimas nas últimas décadas.
Se há mutações de carácter social elas reflectem-se no pensamento e na maneira de ser de cada um de nós, portanto, uma certa identidade do concelho do Barreiro alterou-se.
É evidente que o Barreiro dos anos 40, não foi o Barreiro dos anos 60 e o Barreiro dos anos 2000, alterou-se, mesmo em relação aos anos 80, mas considero que há um conjunto de traços de identidade do Barreiro que se perderam, mas há um conjunto de traços que se mantêm, mesmo nas gerações mais jovens, nota-se que faz sentido, o sentimento de solidariedade, de participação, de defesa de direitos de cidadania, de associativismo, de cooperar, de relações com o outro, mesmo nas gerações mais jovens tudo isso se mantém.
Uma certa cultura operária vai esvaziando. É evidente se os operários, não digo que desapareceram, mas reduziram muito, é natural que esse traço se altere, mas, por exemplo, a cultura associativa, considero que no essencial mantém-se.

Não ver o comboio passar

O Barreiro do Século XXI pode ter um papel importante na Área Metropolitana de Lisboa?
“Considero que sim, sem falsos protagonismos. Sem querermos ser o centro do mundo.
Se a nova travessia do Tejo for construída, e se ela for rodo-ferroviária, se não for apenas para o TGV, para nós ficarmos a ver o comboio. Não apenas para termos os problemas de termos uma travessia, mas termos também as vantagens dessa travessia, ferroviária e rodoviária, como nós defendemos.
E, se numa visão, não casuística, mas de desenvolvimento estratégico se olhar para o território da Quimiparque, como um factor de desenvolvimento estratégico, não apenas do concelho, mas da região e até do país, então, o Barreiro pode ter um papel, uma centralidade, não digo a centralidade, mas uma centralidade importante na Área Metropolitana de Lisboa.
Isto não se faz porque a gente diz que quer, faz-se com medidas concretas, sustentadas, podem até ser mais demoradas de conseguir, menos imediatistas, com algumas angústias pelo meio, porque queremos e não conseguimos, mas assim, com essa visão estratégica o Barreiro pode ter um papel na AML e desejo que tenha”.

Novas instalações Municipais

No final do mandato que gostaria de ver resolvido no concelho do Barreiro?
“Há algumas coisas que considero estruturantes. Não quero dizer que estejam resolvidas no final do mandato, mas que estivessem a andar numa determinada direcção : as questões do Quimiparque, a revitalização do centro do Barreiro, as zonas ribeirinhas, o Plano de Mobilidade do concelho, com as novas acessibilidades, juntava, a estas situações, os problemas da área do Ensino e Juventude.
Penso, ainda que seria importante caminhar na reabilitação urbana, em zonas como Barreiro Velho, Bairro das Palmeiras, Quinta da Mina e AUGI’s.
Não estou a dizer que ao fim de quatro anos tudo isto está resolvido, isso era promessa de outros, é impossível, estar tudo resolvido, mas, queria que se dessem passos e, eventualmente, algumas delas estarão resolvidas.
E, se, construirmos a Piscina e novas instalações municipais, sentiria como um Presidente realizado.
Que é isso de novas instalações Municipais?
“Não me estou a referir aos Paços do Concelho.
Até porque o maior problema de instalações municipais não são os Paços do Concelho, sendo um problema não é o maior problema.
São novas instalações. Não quero dizer mais. Há perspectivas e possibilidades em análise.”
Que mensagem para os munícipes, neste fim de ano e principio de mandato?
“Muito simples: felicidades para todos".

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