Saltar para o conteúdo
Cidade com Rostos

Teresa Almeida – Governadora Civil de Setúbal“Estamos a assistir ao desenvolver de uma nova perspectiva para o Distrito de Setúbal”

Em conversa com Teresa Almeida, Governadora Civil de Setúbal, procurámos conhecer a mulher, o seu percurso de vida e, aqui, queremos registar a alegria que sentimos, nos seus olhos, quando referiu que, “há quinze dias que tenho uma netinha, a Beatriz”.

9 min de leitura

Por António Sousa Pereira

Teresa Almeida, Governadora Civil de Setúbal, nasceu no ano de 1954, em Vale de Cambra, Distrito de Aveiro.
Viveu a sua meninice em Vale de Cambra, onde concluiu a sua instrução primária e aos 7 anos partiu rumo a Lisboa, cidade onde cresceu e vive a sua adolescência.
A sua formação humana teve como cenário a grande cidade, na zona da Avenida dos Estados Unidos da América, aquele que era o espaço onde Lisboa encontrava a sua modernidade dos anos 70.
“Os jovens universitários, nos anos 70, eram muito atraídos pelas lutas sociais, nós éramos permeáveis a estarmos atentos, a procurar perceber melhor a sociedade e, de facto, nas Universidades fervilhavam as ideias, de certa maneira, de contestação ao regime.” – recorda Teresa Almeida.

“Livro Vermelho” era uma preciosidade

“Nós todos, tínhamos o sentimento comum que as coisas estavam mal, que era necessário alterar qualquer coisa, por isso, informávamo-nos muito, qualquer livro, dos chamados livros proibidos, eram livros por nós cobiçados e circulavam avidamente, proporcionando discussões em grupo restritos” – salienta ao falar da sua adolescência.
“O livro vermelho do Mao, era uma preciosidade, o próprio Marx, as teorias do Engels, sobre a família, a propriedade, o Estado, eram as matérias que nos despertavam alguma curiosidade.
Mesmo os jornais, como o “Comércio do Funchal”, “Noticias da Amadora” ou a “Seara Nova”.
Havia aquela Livraria Barata, velhinha, na Avenida de Roma, onde lá por baixo nós conseguíamos sempre descobrir alguma literatura, que nos interessava que, até, não estava muito visível, mas que os jovens estudantes procuravam, para depois partilharem” – salienta Teresa Almeida.

Lutávamos pela justiça social

Na nossa conversa sublinha que “nunca teve actividade politica antes do 25 de Abril” pois, acrescenta “ despertei para a política após o 25 de Abril.”
Nota-se, nas suas palavras, a forma apaixonada que recorda os tempos pós 25 de Abril, um tempo de sonhos e paixão pela liberdade.
Teresa Almeida refere que nessa altura andou pelo esquerdismo – “Pelas ideias esquerdistas. Não tinha partido nenhum, o que eu queria era contribuir para um mundo mais justo. Não éramos, propriamente, de um partido politico, éramos uma série de entusiastas, que lutávamos pela justiça social, Era a acção política da irreverência e das lutas estudantis, porque, naquele tempo haviam muitas lutas estudantis. Foi uma altura muito interessante, muito participada.”

Libertação da capacidade de falar

Neste diálogo pelas memórias interrogámos o que tinha significado para Teresa Almeida, o 25 de Abril.
“O 25 de Abril foi uma alegria, foi o sentir uma libertação que, penso, foi a muitos níveis.
Foi uma libertação da capacidade de falar, da liberdade de podermos falar, de reunir, de nos podermos encontrar.
Foi, depois, também a mudança usos e costumes.
Nós éramos jovens contraídos, numa determinada forma de estar e de sermos, e, na verdade, o 25 de Abril permitiu que libertássemos todas as nossas capacidades de nos relacionarmos, de nos assumirmos socialmente” – sublinha.

Construir novas realidades

“Sabe, até a própria verticalidade das classes, que eram muito estratificadas, foram alteradas, porque antes do 25 de Abril, as pessoas de uma determinada classe não se podiam envolver ou misturar, com pessoas de outros registos, tudo isso acabou com o 25 de Abril e, nesse sentido o 25 de Abril foi uma revolução” – recorda com emoção nas suas palavras.
“Nós íamos para os Bairros Operários, partilhávamos as experiências e ajudávamos a construir novas realidades, e de facto, nesses contactos, tínhamos a capacidade de encontrarmos o país, descobrirmos que Portugal éramos.
Nada melhor para assistir e participar numa transformação social que aquilo que foi a pujança, o acreditar, quer todos vivemos naqueles tempos após o 25 de Abril.” – salienta Teresa Almeida.

Na Função Pública desde os 20 anos

Quando do 25 de Abril, Teresa Almeida era estudante universitária na Faculdade de Arquitectura.
“O pessoal de Arquitectura fechou a escola e saneou os professores todos, não esteve meias medidas.
Achou que estava tudo mal e que era preciso começar de novo. Esta foi uma atitude que gerou algumas consequências, que não nos foram favoráveis. O pessoal queria acabar os cursos e afinal não havia professores.” – salienta.
Mas, afinal, foi precisamente o facto de a Faculdade estará encerrada que a motivou a escolher um novo caminho.
“Para mim foi bom, porque fui dar aulas. Entrei na Função Pública exactamente com 20 anos. A Faculdade estava fechada, então, eu, fui para a vida activa. Comecei a leccionar em Alverca na Escola Preparatória.
Entrei na vida activa e, na verdade, nunca mais deixei a Função Pública. A partir daí fiz sempre uma carreira na Função Pública.” – sublinha Teresa Almeida.
Posteriormente foi leccionar para Miratejo, durante três anos.
Estudando à noite, leccionando de dia, foi assim que conclui o seu Curso de Arquitectura, tinha então 23 anos – “podia ter acabado um pouco mais cedo se não tivesse havido o PREC”.

Fazer trabalho com as populações

“Nessa altura nós crescíamos muito rápido. Casei, resolvi logo ter uma filha.” – refere com o sentido afirmativo de quem está firme nas suas opções de vida.
“Mas, continuei sempre activa, com reuniões, com vontade de participar.
Logo que acabei o Curso fui para Castro Verde, já como Arquitecta, como Técnica do Ministério da Administração Interna.” – recorda como quem conta uma aventura na descoberta de um tempo novo e de um Portugal profundo.
Exerceu, em 1977, funções num Gabinete que apoiavam os municípios que estavam muito carenciados de Técnicos.
“Foi uma experiência muito interessante. Nós tínhamos uma área muito grande Odemira, Aljustrel, Almodôvar, Ourique, Castro Verde e Mértola.
Nós éramos jovens técnicos que convivíamos muito com jovens professores, com jovens médicos, éramos todos que, de certa maneira, estávamos a fazer um trabalho deslocado com as populações” – salienta Teresa Almeida.

Apaixonei-me por Setúbal

“Sabe, foi uma época muito interessante de contacto com a realidade, de contacto com as dificuldades do país, com as populações, ainda muito desfavorecidas.
Estivemos esses anos em Castro Verde numa actividade muito intensa, trabalhávamos com toda a disponibilidade” - recorda
“Depois vim por Concurso Público para a Câmara de Setúbal, era Presidente da Câmara Francisco Lobo, da CDU, e, desde então, apaixonei-me por Setúbal” – salienta.
“Pensei que ia estar aqui em Setúbal pouco tempo, mas apaixonei-me por esta cidade e por este distrito, hoje, penso que é aqui que eu vou permanecer o resto da minha vida” - salienta
Neste tempo, estava a fazer o seu percurso profissional e, como nos diz “a criar as minhas crianças” e, desde 1980 que abraçou Setúbal como a sua cidade.
As crianças são a Inês, agora com 29 anos e a Sara que tem os 25 anos.
Na Câmara de Setúbal esteve dois anos a acompanhar a Habitação Social.
“ Estive ligada ao final do Programa SAAL, Bairro do Independente, Pinheirinhos e às cooperativas de habitação. Todas as cooperativas de Habitação foram acompanhadas por mim.
Tudo isto permitiu-me conhecer essa realidade social das pessoas mais carenciadas” – refere Teresa Almeida.

Responsável pelo PDM de Setúbal

Posteriormente exerceu funções na área do Urbanismo, sendo responsável pelo Plano Director Municipal de Setúbal – “fui responsável pela sua execução”.
Nota-se o orgulho com que afirma – “Foi um Plano Director que foi feito dentro dos serviços, um Plano muito adaptado à realidade, desde a identificação da reserva ecológica, do património natural. Toda essa identificação foi feita e, de facto, hoje, já não se pisam esses solos”.

De Técnica a Vereadora

“Desliguei-me como Técnica da Câmara de Setúbal para concorrer como politica à Câmara de Setúbal” – salienta.
No período da Presidência de Mata Cáceres, na Câmara de Setúbal exerceu funções de Vereadora, entre 1997 e 2001, assumindo o Pelouro da Habitação, Urbanismo e as Obras Municipais
“O POLIS foi um extra. Foi uma candidatura que eu fiz, a candidatura da Câmara de Setúbal ao POLIS. Felizmente conseguimos ver a candidatura aprovada. Fizemos o contrato em 2001.” – sublinha Teresa Almeida.
Em 2001 volta a candidatar-se não sendo eleita, parte então, como Técnica, para a Câmara Municipal do Montijo.

Candidata à Presidência PS Setúbal

Aderiu ao Partido Socialista em 1990, há 15 anos
Exerceu no PS vários cargos, na Comissão Concelhia de Setúbal, na Federação Distrital e na Comissão Nacional do PS.
“Quando me meto nas coisas é para as fazer com todo o empenho e motivação” – sublinha.
Nas últimas eleições de 2002, para a Comissão de Setúbal, foi candidata à Presidência – “Obtivemos 40 % dos votos”.
Actualmente pertence ao Secretariado Federação Distrital do Partido Socialista.
Em Almada, no Instituto de Estradas, esteve a exercer actividade profissional durante dois anos.
Ultimamente estava a exercer funções na CCDR de Lisboa e Vale do Tejo.

Poder servir as populações

“Sabe, nunca me desliguei de Setúbal e penso que quando o Ministro António Costa me formulou o convite, para exercer este cargo, teve em atenção a minha ligação a Setúbal” – refere Teresa Almeida, acrescentando que assumir esta função – “significa ter correspondido a um convite, a um desafio, e, agora, ter a possibilidade de poder servir as populações, quer como representante do
Governo, implementando as políticas do governo no Distrito, quer no contacto directo com as populações, estando presente em muitos actos, por todo o Distrito.
Uma das preocupações que tenho é sair e ouvir as populações, percorro este território com muita frequência” – salientou Teresa Almeida.

Nova perspectiva para o Distrito

Sobre o exercício do cargo de Governadora Civil do Distrito de Setúbal disse-nos – “Considero que é muito compensador, quer em termos pessoais, quer em termos políticos.
Sei que, pela minha formação, tenho um conhecimento profundo de uma certa realidade, mas o exercício destas funções, dá-me um acréscimo, inigualável, no conhecimento mais profundo de todo o tecido social e de toda a realidade.
Esta é uma missão de grande responsabilidade, que nos exige uma grande disponibilidade.
Sabe, começo a ter uma grande satisfação, ao perceber que, neste momento, o Distrito está, quer pelo seu potencial humano, quer pelo seu potencial territorial, em fase de desenvolvimento, com diversos projectos em marcha.
E sinto que é a nós, que nos compete, neste mandato, fazer que estes projectos se concretizem, para criar emprego, criar riqueza, numa zona que viveu diversas crises.
Digo-lhe, acredito firmemente que estamos a assistir ao desenvolver de uma nova perspectiva para o Distrito de Setúbal e, acredito, que no final deste mandato poderemos dizer que fomos autores de grandes transformações.”

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção