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Cidade com Rostos

Faleceu em SetúbalMestre Azóia …aos 89 anos
Por Ricardo Cardoso

. CARTA DO SAUDOSO MESTRE AZOIA AO ARESTAS DE VENTO

Mestre Azoia faleceu aos 26 de Fevereiro de 2006 em Setúbal com 89 anos de idade. Melhor, fez questão de musicar, lá em cima, nas nuvens mais bonitas, uma revista, em sociedade com velhos companheiros cá da terra, entre os quais o poeta João Imaginário! Pelo que dizem os mais sensitivos essa criação vai chamar-se “SETUBALIDADES? QUEM AS VÊ?!!!”

5 min de leitura

Por Jornal Rostos

“Em 1923, com sete anos desejei aprender música. Meu pai levou-me à presença de um amigo, músico da Sociedade União que, por sua vez, se dispôs à instrução.
Quando, porém, mostrei vontade de aprender piano o meu instrutor achou por bem que eu deveria procurar alguém que melhor me pudesse servir.

Assim, depois de varias tentativas frustradas, consegui aos 9 anos ser aluno de uma senhora espanhola de nome Margarita Palmer y Mejia, pianista da Sociedade Capricho, em Setúbal. Isto no tempo em que os bailes eram só a piano. E pela mão dessa senhora fui levado para essa popular colectividade aos 12 anos de idade.

Como não tinha piano (era oriundo de uma família pobre, ou melhor, remediada) passei a estudar e utilizar esse instrumento na Capricho. Por essa altura, o senhor Henrique Rosa, saudoso ensaiador do Grupo de Teatro dessa colectividade, convidou-me para acompanhar variedades.
Nesse tempo os espectáculos na Capricho resumiam-se a uma comédia ou drama em 1 acto e outro de diversidade. Como assistia aos ensaios das peças, depressa tomei o gosto pelo teatro e, talvez por intuição desmedida, conseguia saber de cor todos os papéis das peças em ensaio.
Assim, e por falta de um grande amador e dedicado Caprichense – Augusto Envia – que fazia muito bem os “criados” das comedias, ofereci-me ao senhor Rosa para o substituir… A muito custo fui aceite, mas nunca mais deixei de fazer comedia, alta comedia, comedia policial e, pela 1ª vez, em 1937, salvo erro, fui o compére da revista “Prata da casa”, de Rogério Claro, com música de Idalino Cabecinha.

E a partir daqui sempre compére e autor das músicas das revistas “Peço desculpa”, “Miscelândia da casa” e “Isto agora é outra loiça”, cujo genérico musical era da autoria de Emídio Silva. Nessa altura militava no conjunto “Blue Star Melody”, onde estive mais de uma dezena de anos e, do qual, ainda hoje, guardo muitas saudades. Em 1941 escrevi e musiquei uma revista infantil com o pessoal das escolas da “Casa dos Pescadores de Setúbal”, com o título “A gente do mar” que, aliás, foi um sucesso. Em 1949 escrevi a marcha do VII centenário do Fórum de Setúbal.

Marcha essa chamada “Setúbal das sardinhas”, com letra do dr. Cabral Adão. Em 1970, com a música da marcha do bairro Trindade, ganhei o 1º prémio no concurso das marchas, no valor de 3.000$00. E falando de marchas, também ganhei o 1º e 2º prémios em 1989 e novamente o 1º prémio em 1990. Também escrevi a marcha de Setúbal de 1988…mas aí não houve prémio nem concurso.

Revistas na Capricho, musicadas por mim e com a minha colaboração nos textos: “Ó Zé aguenta”, “Isto agora ou vai ou racha”, “Ó Zé não vás em cantigas”, “Conversa fiada”, “Sim senhor, isto é Revista”, “E tudo o imposto levou”, “Que grande buraco” e “Ó Zé não faças ondas”. Fora dessa colectividade, com textos e músicas minhas: “P’rá frente se calhar (na Quinta do Anjo) ”, “Mulheres à vista” e “O que é que cabanas tem (em Cabanas) ”. Para a freguesia da Anunciada: Revista de Rui Mesquita com música minha “Crónica de uma freguesia Anunciada”.

Como profissional musiquei o musical do TAS “Luiza Todi” e a revista “ À Coca”.

Na Capricho musiquei ainda a opereta “Maria do Mar” de Rui Mesquita e o Café concerto “Crime e Capricho”, também de Rui Mesquita.

Musiquei as marchas de 88,89 e 90 dos Ídolos da Praça, conseguindo em 88 o 3º prémio e em 89 e 90 o 1º prémio.

Escrevi uma revista para os emigrantes portugueses em Filadélfia (USA) que fez enorme sucesso no seu tempo. Neste momento deve estar a ser ensaiada uma revista na América da minha autoria.

E tanta tanta coisa que decerto me passou registar…

PS – Em 1946, para a Sociedade União, no antigo Luiza Todi, escrevi de parceria com Laureano Rocha a revista “União à vista”.

Peço que registem que as revistas da Capricho de que não indico autores foram todas da parceria AZOIA – LAUREANO ROCHA e ANTÓNIO HENRIQUE SOARES. Pequenas ajudas de Fernando Gouveia numa revista e belíssima colaboração nas 2 ultimas de Joana Caetano.

Fui fundador, treinador e jogador da equipa de Hóquei em Patins do Club Naval Setubalense.

E, neste momento, nada mais me chega à memoria…

Assinatura legível: Azóia”

Mestre Azoia faleceu aos 26 de Fevereiro de 2006 em Setúbal com 89 anos de idade. Melhor, fez questão de musicar, lá em cima, nas nuvens mais bonitas, uma revista, em sociedade com velhos companheiros cá da terra, entre os quais o poeta João Imaginário! Pelo que dizem os mais sensitivos essa criação vai chamar-se “SETUBALIDADES? QUEM AS VÊ?!!!”

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