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Cidade com Rostos

Rodrigo Gouveia – Secretário Geral da EUROCOOP“Gostava que a EUROCOOP fosse vista pelas cooperativas como a sua organização Europeia”

. Cooperativista de Setúbal assume uinções em Bruxelas

“Os cidadãos, cada vez mais, exigem da Comunidade Europeia que sejam promovidas iniciativas ligadas ao cidadão, não só em termos económicos, mas também em termos sociais e em termos culturais.
Portanto, neste campo, as cooperativas têm uma grande vantagem porque podem dar resposta, de forma muito mais eficazmente, que outras organizações, na resolução desse tipo de preocupações do cidadão” – sublinha o novo Secretário Geral da EUROCOOP.

13 min de leitura
Rodrigo Gouveia – Secretário Geral da EUROCOOP “Gostava que a EUROCOOP fosse vista pelas cooperativas como a sua organização Europeia”

Por Jornal Rostos

A EUROCOOP é a Comunidade Europeia das Cooperativas de Consumidores, ou seja, é uma organização não governamental, criada em Bruxelas, que representa as Cooperativas de Consumidores de vários países europeus, junto das instituições comunitárias.
Rodrigo Gouveia, Técnico da FENACOOPe da PLURICOOP, Setúbal, vai assumir a partir de 1 de Maio, as funções de Secretário Geral da EUROCOOP.
Esta é, sem dúvida, uma missão importante ao nível europeu que um cooperativista português pela primeira vez vai desempenhar

Nascido em Abril de 1974

Rodrigo Gouveia, nasceu em S. Domingos de Benfica, em Lisboa, a 9 de Julho de 1974, pode afirmar-se que é “uma criança de Abril”.
Foi no Funchal, na Ilha da Madeira, que viveu os seus três primeiros anos de vida, depois rumou para Setúbal, parte depois para Bruxelas, regressa de novo a Setúbal, uma roda viva para acompanhar a vida familiar e as deslocações profissionais de seu pai.
Estudou no Liceu em Setúbal, completou o Ensino Secundário, em Bruxelas.
Na Faculdade de Direito, em Lisboa, concluiu a sua licenciatura, de 1992 a 1997, seguindo-se duas pós graduações, em Coimbra.
Na escolha do seu Curso esteve dividido entre Direito, Economia ou Filosofia - “mas optei por Direito”, diz-nos.
Realizou um estágio de seis meses, no Luxemburgo, na Comissão Europeia, na “Unidade de Assuntos Jurídicos da Comissão Europeia”.
Concretizou o estágio de advocacia, em Lisboa, abrindo, posteriormente o seu escritório de Advogado, em Setúbal.

Descoberta das Cooperativas

Como foi a descoberta do mundo cooperativo?

“Foi um desafio que foi lançado pela PLURICOOP, na altura, a três jovens recém licenciados, eu e mais duas colegas minhas, no sentido de criarmos um Gabinete de Apoio ao Consumidor.
Nós considerámos que era um desafio interessante e apresentámos uma proposta à Direcção.
Começámos a trabalhar como voluntários, num Gabinete, onde, duas vezes por semana, atendíamos os consumidores que tivessem reclamações e tratávamos dessas situações”.

Como avalia essa experiência de voluntariado?

“Foi muito interessante, porque qualquer um de nós, na altura, tinha um pouco a vontade de poder contribuir para coisas que fossem socialmente úteis.
Nós, para além da actividade da advocacia, como actividade profissional liberal, dedicávamos algum tempo para fazermos outras coisas e, na verdade, foi interessante participarmos numa actividade onde a perspectiva não era ganhar dinheiro, mas ajudar as pessoas enquanto consumidores que, de outra maneira, poderiam ver negado o seu direito de aceder à justiça.
Foi uma experiência que a nível pessoal foi muito gratificante, por sentirmos que se pode ajudar outra pessoa, sem ser por motivos de interesse e, ao nível profissional, foi um desafio porque a defesa do consumidor não é uma matéria muito tratada nas universidades, e, de facto, ao assumirmos esta actividade, isso exigiu-nos bastante estudo.
Aliás, foi nessa altura que fiz a minha primeira pós graduação, precisamente em Direito do Consumo, para a qual contei com o apoio da PLURICOOP.
Por outro lado, esta experiência abriu-nos a porta para a realidade das cooperativas, que nós conhecíamos mal, dado que na Faculdade de Direito esta também não é uma matéria muito tratada.”

Como foram vivendo essa experiência cooperativa?

“A principio nós nem tínhamos uma ideia correcta do que é uma cooperativa, foi ao trabalharmos na cooperativa que fomos vendo, de facto, que esta é uma organização que tem uma forma diferente de lidar com as pessoas, nomeadamente, com os seus trabalhadores e com os seus membros.
Fomos apercebendo que havia um certo espaço de liberdade, de fraternidade ou de solidariedade, que muito dificilmente se encontraria noutro sítio.
Na altura, que nós começámos a trabalhar, o mercado de emprego, especialmente ao nível dos juristas, não estava famoso, não é que não se conseguisse arranjar emprego, mas, o que nós vimos é que a Cooperativa seria um bom sitio para trabalhar, porque não se orientava pelas regras da escravatura que, por vezes, se vê noutros lados, nomeadamente quando se é jovem e quando se precisa de emprego, que somos levados a aceitar condições que são quase desumanas.
Nós vimos colegas nossos a trabalhar em regime penalizadores que alguma vez seriam admissíveis numa cooperativa.”

Servir todas as cooperativas

Como se deu a mudança de voluntários para trabalhadores da cooperativa?
“Nós como voluntários tínhamos proposto estar dois dias na cooperativa a fazer atendimento aos consumidores mas, na medida que fomos trabalhando nisso, fomos também desenvolvendo outras actividades, nomeadamente de informação e de formação dos próprios consumidores.
Enfim, a determinada altura, apercebemo-nos nós e a própria cooperativa que seria importante apostar mais alguma coisa nesta área, portanto, por essa razão, passámos com base num Contrato de Prestação de Serviços, a dedicar mais tempo, já a um nível profissional, abrangendo outras actividades.
Depois, verificando-se que as actividades que foram sendo desenvolvidas tiveram um grande acréscimo e um grande desenvolvimento, concluiu-se que nós estávamos a trabalhar a tempo inteiro para a cooperativa, então, decidimos encerrar a actividade de advocacia e passar a exercer a actividade a tempo inteiro na cooperativa, proposta que foi aceite pela Direcção da PLURICOOP.
Nós inicialmente trabalhávamos para a PLURICOOP, depois passámos a integrar a FENACOOP, porque considerou-se que a PLURICOOP, neste tipo de actividades cedia os seus quadros à Federação tendo em vista a que, este tipo de actividades fosse dinamizada por todas as cooperativas e não apenas numa cooperativa.”

Como foi vivida essa mudança de voluntário para quadro a tempo inteiro dedicado ao movimento cooperativo?

“Não é possível definir um momento em que isso tenha acontecido, porque o nosso envolvimento aconteceu de forma natural, ou seja, de inicio, as poucas coisas que existiam, de atendimento aos consumidores, com outras actividades, foi-se avolumando, ao longo do tempo e, a determinada altura, era tanto o trabalho que estava a ser realizado, que a dedicação a tempo inteiro já era uma realidade.
Eu, por exemplo, cheguei a uma situação que estava as semanas inteiras na cooperativa e nem sequer me deslocava ao meu escritório de advocacia, pelo que conclui, de facto, não valia a pena estar a insistir com uma actividade, quando gostava do que estava a fazer na cooperativa e já a vivia a tempo inteiro.
Portanto, este envolvimento, acabou por ser a razão da opção.”

Que actividades foram desenvolvendo na ocupação profissional na cooperativa?

“Acompanhámos sempre os problemas dos consumidores, a resolver os problemas que nos eram colocados pelos consumidores.
Ao nível de informação promovemos centenas de iniciativas, desde pequenas sessões de esclarecimento aos consumidores, participarmos em acções em escolas, para conversarmos sobre estas matérias, participámos em grupos de trabalho com outras organizações de consumidores, colaborámos em projectos nacionais e internacionais na área da informação e formação, desenvolvemos acções de formação interna para os trabalhadores da cooperativa.
Por exemplo, quando foi da introdução da moeda única fizemos iniciativas de esclarecimento em quase todo o país, quer para o público em geral, quer para os trabalhadores de todas as cooperativas.”

Relacionamento com associações de consumidores

Como foi vivida essa relação entre as cooperativas e outras organizações que promovem a defesa dos consumidores?

“Quando nós começámos a integrar a Federação, que é considerada uma associação de defesa dos consumidores de âmbito nacional e de interesse genérico, de facto, a Federação já tinha um relacionamento com outras associações de consumidores.
O que nós fizemos, na verdade, foi dar uma grande atenção a isso e, nomeadamente, fazer perceber às outras organizações que nós não estávamos em concorrência com elas, mas sim, demonstrar, que podíamos fazer um trabalho que fosse complementar ao delas, penso que essa visão teve muito sucesso.
A FENACOOP é, cada vez mais, reconhecida pelas outras organizações de consumidores como um parceiro muito válido, em todo o tipo de iniciativas.
Hoje, trabalhamos em conjunto com todas as organizações de consumidores, com o Instituto do Consumidor e, ao longo deste tempo, nunca tivemos nenhum tipo de problema com essas organizações.”

Governos não valorizam CNC

É membro do Conselho Nacional de Consumo? Como caracteriza essa experiência no Conselho?

“Exactamente. Eu represento a Federação no Conselho Nacional de Consumo.
A experiência foi interessante, embora um pouco frustrante.
O Conselho Nacional de Consumo é um órgão que deveria ter uma grande importância, porque nele estão representados para além das organizações de consumidores, as organizações sindicais, as organizações de comércio, de indústria, dos bancos.
Enfim, é um Conselho alargado que serviria, em princípio, de órgão de consulta do governo nas matérias relacionadas com o consumo.
A experiência foi frustrante porque os sucessivos governos deram pouca importância e deram pouca dignidade a este órgão e muitas vezes tomaram medidas sem consultar os membros do Conselho, nesse aspecto, por iniciativa dos governos, penso que o órgão se degradou um pouco, mas, de qualquer forma foi interessante, sendo esta, a representação, outra das actividades que nós passámos a assumir, representar os consumidores em nome da FENACOOP, isso, de facto, também nos ocupou muito do nosso tempo, em diversos órgãos, desde a Rede de Educação do Consumidor, e, também, a nível internacional, nos Grupos de Trabalho da Eurocoop, entre outros.
Esta é uma experiência muito interessante porque nos dá a possibilidade de tentar fazer ver aos poderes públicos a perspectiva dos consumidores e muitas vezes conseguir integrar certas ideias na legislação que depois vai proteger os consumidores individualmente, neste aspecto, foi um trabalho que gostei muito de fazer.

EUROCOOP as cooperativas na Europa

Como foi essa situação de partir para a EUROCOOP?

“Em Outubro de 2005, o Secretário Geral da EUROCOOP decidiu sair, por motivos pessoais e profissionais, portanto, o cargo ficou vago, nesse sentido a EUROCOOP solicitou candidatos aos seus membros, entre os quais a FENACOOP.
Eu estava interessado e como obtive algum apoio, mesmo no próprio Secretariado da EUROCOOP, que me sugeriram como um possível candidato, decidi, apresentar a minha candidatura, através da FENACOOP.
A candidatura foi apresentada e, após a conclusão de um processo que demorou alguns meses, finalmente foi aceite, não tendo havido nenhuma oposição, por parte de nenhum dos países que integra a EUROCOOP”.

O que é a EUROCOOP?

“A EUROCOOP é a Comunidade Europeia das Cooperativas de Consumidores, ou seja, é uma organização não governamental, criada em Bruxelas, que representa as Cooperativas de Consumidores de vários países europeus, junto das instituições comunitárias.
Portanto, a EUROCOOP acompanha as políticas da Comunidade Europeia nos assuntos que interessam às cooperativas, à defesa dos consumidores, ou questões de politica ambiental que também é uma preocupação dos consumidores, e, naturalmente questões de mercado porque as cooperativas também têm essa vertente.
Assim, tudo o que seja de interesse dos membros a EUROCOOP acompanha ao nível de Bruxelas, porque a política europeia, como é óbvio, vai ter reflexos ao nível nacional.”

Cooperativas perante desafio da Europa

Como analisa a presença das cooperativas ao nível da economia europeia?

“As cooperativas na economia europeia têm grandes desafios, nomeadamente, porque a perspectiva, hoje em dia na economia europeia é uma economia liberal, uma economia de mercado e, portanto, muito aberta à concorrência.
A concorrência ao nível de actividades empresariais é muito forte e as cooperativas, neste contexto, enfrentam grandes desafios.
No entanto, as cooperativas têm uma vantagem, alguém já falou na “vantagem cooperativa”, ou seja, a vantagem, de não serem empresas baseadas exclusivamente na ideia do fazer dinheiro.
As Cooperativas como têm grandes ligações às comunidades locais, têm a hipótese de resistir ao mercado que é voraz.
Por outro lado, a Comunidade Europeia, hoje, enfrenta um grande problema que é a perspectiva que os cidadãos têm que a Comunidade só serve para as empresas e que não tem legitimidade democrática, isso viu-se, por exemplo, na votação dos referendos à Constituição Europeia, em França e na Holanda.
Os cidadãos, cada vez mais, exigem da Comunidade Europeia que sejam promovidas iniciativas ligadas ao cidadão, não só em termos económicos, mas também em termos sociais e em termos culturais.
Portanto, neste campo, as cooperativas têm uma grande vantagem porque podem dar resposta, de forma muito mais eficazmente, que outras organizações, na resolução desse tipo de preocupações do cidadão.
Naturalmente, se os políticos não forem cegos, conseguirão perceber que a economia deve servir as pessoas e não servir, apenas, só o interesse de alguns, é óbvio, que neste aspecto, as cooperativas têm vantagem.
Aliás, nota-se na Europa, se formos ver quais os países mais desenvolvidos da Europa comunitária, verificamos que são os países que têm as cooperativas mais fortes e com mais peso na economia e, isso, não é por acaso, porque não é só por serem desenvolvidos que as cooperativas são mais fortes, é mais ao contrário, ou seja, é porque têm um forte movimento cooperativo, que têm mais e melhor desenvolvimento.

Trabalho conjunto das cooperativas

Que papel vai desempenhar na função de Secretário Geral da EUROCOOP?

“O meu papel vai dividir-se, essencialmente, em duas vertentes, a primeira nas relações com o exterior, com a própria Comunidade Europeia e com outras organizações, de consumidores ambientais, que também estão sedeadas em Bruxelas, visando fazer passar as perspectivas das cooperativas.
Outra perspectiva é dirigida para dentro, ou seja, desempenhar um papel, que é difícil, de tentar que as próprias cooperativas nacionais que fazem parte da EUROCOOP trabalhem cada vez mais e melhor em conjunto porque, num mercado, que se quer mercado único ao nível europeu, não faz sentido que as cooperativas, sendo elas organizações de cooperação, não faz sentido que estejam afastadas, o que faz sentido é que colaborem, que colaborem umas com as outras, isso é função da EUROCOOP, ser um Fórum, onde as cooperativas podem trocar informações, colaborar, agir em conjunto em diversas iniciativas e projectos.”

Que sonhos leva para Bruxelas?

“Eu gostava que a EUROCCOP, durante o período que exercerei o meu cargo, que espero que seja por vários anos, gostava que a EUROCOOP se tornasse uma organização mais forte e ainda mais respeitada com o que, na verdade, já nos dias de hoje é, e que a EUROCOOP fosse vista pelas cooperativas como a sua organização Europeia.
Existem várias organizações de cooperativas na Europa e penso que a EUROCOOP deveria ter um papel de destaque, pelo que irei trabalhar para alcançar esse objectivo.

Que saudades ficam desta vivência cooperativa em Portugal?

“Do clima. Eu já vivi em Bruxelas e sei o que me espera.
De Portugal vou ficar com saudades das pessoas com quem trabalhei, isso sempre e da forma de trabalhar, porque trabalhar numa língua estrangeira é muito diferente do que trabalhar em português e a própria cultura de trabalho é ligeiramente diferente.
Vou ter saudades, sobretudo das pessoas, que têm muito valor e, naturalmente, espero encontrar outras com muito valor também.
O bom de ir para a EUROCOOP é sentir que vou ficar no movimento cooperativo e vou continuar a ter sempre uma ligação à FENACOOP, que é um dos membros da EUROCOOP.

Nota - Registo de entrevista editada na revista ECOOP.

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