Luís Tavares, Administrador da Quimiparque“Quem tem que lutar pelo Barreiro são todas as pessoas do Barreiro”
Ficámos, aliás, a conhecer o rosto daquele que foi o Coordenador dos estudos de construção de uma central Nuclear em Portugal, nos anos 70.

Por António Sousa Pereira
Luís Tavares, nasceu nas Caldas da Rainha, no dia 8 de Junho de 1943, viveu naquela cidade até à idade de 12 anos, onde frequentou os primeiros graus de ensino e descobriu as primeiras letras e números.
Seu pai era Gerente da Caixa Geral de Depósitos e foi nomeado para exercer um cargo no Rio de Janeiro.
Ainda jovem, de tenra idade, Luís Tavares, acompanhou seu pai nessa deslocação para o Brasil, onde viveu durante quatro anos, onde frequentou o Ensino Liceal.
Posteriormente, de novo acompanhando seu pai e família, foi viver para os Açores. Durante três anos viveu nas ilhas do Atlântico tendo, nos Açores, concluído o ensino liceal.
Lisboa uma nova etapa
Uma nova etapa da sua vida começa em Lisboa, primeiro sozinho como estudante do Instituto Superior Técnico, posteriormente, com seus pais.
Fixou-se em Lisboa, nos anos 60, e, nesta cidade constrói a sua adolescência e as bases da sua vida profissional.
Em 1968 concluiu a sua licenciatura de engenharia ( Engenheiro Mecânico) no Instituto Superior Técnico, tendo vivido de perto as crises estudantis.
Em 1970 casou tendo, então, ido viver para o S. João do Estoril, ali, construiu a sua vida familiar e, onde, continua a ser o local de sua residência.
Luís Tavares, é pai de três filhos : a Patricia, de 35 anos; o Pedro, de 34 anos e a Maria João com 30 anos ( todos eles formados e de vida constituída, como refere na nossa conversa).
A saudade e as amizades do Técnico
Luís Tavares recorda que na sua actividade de estudante procurava estudar e ao mesmo tempo participar e assistir às movimentações que marcavam a vida estudantil nos anos 60.
“Não fui um grande activista mas interessei-me por essas actividades. Foi uma época interessante e ainda hoje recordo esses tempos, com saudade” - sublinha.
Na conversa que vamos mantendo Luís Tavares salienta que aquele foi um tempo que contribuiu para a sua formação humana – “na altura as pessoas tinham um relacionamento diferente, a vida daquele tempo não tem nada a ver com a de hoje, as comunicações eram mais difíceis. Hoje é tudo instantâneo, é tudo imediato. Naquele tempo as relações eram mais humanas”.
Sublinha, que no seu curso estabeleceu laços de amizade que ainda hoje perduram – “as turmas eram pequenas, com 30 e tal alunos”.
A paixão pelos aviões
Luís Tavares foi militar, na Força Área, tendo cumprido o serviço no Continente, nas Oficinas, no Depósito de Material Aeronáutico – “nunca fui a África, porque fiquei na parte técnica e os lugares que existiam em África eram ocupados pelo pessoal do Quadro”.
“Foi uma experiência interessante porque um dos meus gostos são os aviões” – sublinha.
Coordenador dos estudos da Central Nuclear
A sua actividade no campo profissional teve início na Siderurgia Nacional, começando na montagem da laminagem de chapa a frio, nos anos de 1969/1970.
Durante alguns anos manteve a sua actividade profissional na Siderurgia Nacional.
Posteriormente exerceu funções de consultoria, para uma empresa Sueca, trabalhando nos estudos para a construção da possível Central Nuclear em Portugal ( que nunca se chegou a fazer).
“Na altura fizeram-se muitos estudos e eu fui o coordenador desses estudos em Portugal” – sublinha.
Energia Nuclear o problema são os resíduos
Entretanto, a propósito dos actuais debates sobre a energia nuclear em Portugal, procurámos saber a opinião de Luís Tavares.
“A energia Nuclear, como lhe disse estive vários anos ligado aos estudos, e, contínuo a achar que é uma energia viável, mas que tem um grande problema que, na verdade, ainda não foi resolvido, ou seja, saber-se o que se faz aos resíduos.
Esse para mim é o maior problema, porque a parte técnica, naquilo que diz respeito ao funcionamento das centrais, está relativamente dominada.
Há segurança.
Há muitas centrais no mundo. Houve aquele acidente de Chernobyl, mas essa foi uma situação anormal.
O problema continua a ser o que se faz com os resíduos, o que se faz com o combustível irradiado, para isso, de facto, é que ainda não se encontrou solução.
Por isso, esse, é, para mim, o maior óbice, sobre esse tipo de energia.”
Luís Tavares sublinhou que - “A energia nuclear é uma solução desde que seja devidamente controlada e muito bem acompanhada.
Só se deve enveredar por esse tipo de obtenção de energia, se o país tiver tecnologia e preparação adequada para manter instalações desse tipo, senão é melhor não se meter nisso”.
Testemunha de momentos históricos
A geração de Luís Tavares viveu e sentiu o 25 de Abril.
“Quando o 25 de Abril se deu, eu estava a trabalhar na Siderurgia, era empregado numa empresa que tinha obras na Siderurgia.
Ali, assisti às movimentações que lá foram feitas, assisti aos discursos do senhor Champalimaud, que depois de foi embora. Fui testemunha de vários momentos históricos” – recorda.
“Eu não desconhecia totalmente o que se iria passar, sabe, eu sai da Força Aérea, em Dezembro de 1973, portanto, tive, ali, colegas que participaram na revolução, entre eles o Tenente Coronel Costa Neves, que ocupou o Rádio Clube. Nós, já nos conhecíamos há alguns anos.
Eu sabia que qualquer coisa se iria passar, não sabia o quê, nem quando. Mas, já tinha a ideia que ia acontecer qualquer coisa.
Acompanhei com interesse, como todas as pessoas da minha idade, nessa altura, os acontecimentos, e digo-lhe, acompanhei com bastante esperança.
Acho que apesar de tudo as coisas correram razoavelmente bem, na verdade, a minha geração pode comparar o antes e o depois, e, penso que o balanço é extremamente positivo.
Hoje, sinto que esta é uma parte muito rica da minha vida, por ter podido acompanhar, ter observado o antes, o durante e o depois do 25 de Abril.”
Na construção do Terminal de Líquidos
“Em 1978 iniciei a minha actividade na Quimigal, no dia 6 de Março de 1978, foi a data em que eu entrei, aqui para o Barreiro, para o Departamento de Projectos.
Estive sempre ligado aos estudos de tubagens, foi sempre essa a minha especialidade.
Posteriormente, fui Adjunto do Gestor do Projecto do Terminal de Líquidos. Acompanhei todo o projecto desde o papel até à sua construção, aquilo que é hoje a LBC Tanquipor.
Após a conclusão do projecto fui convidado para assumir a função de Director do Terminal, cargo que exerci durante 7 anos.” – salienta Luís Tavares.
O desafio do Parque Empresarial
“Em 1989, o Engenheiro Sardinha Pereira e o Engenheiro Severino Pinto, que estavam na Direcção de Serviços do Barreiro, com a constituição da Quimiparque, convidaram-me para exercer as funções de Director Comercial.
Foi um desafio. Sabe, toda a gente achava que não havia hipótese de fazer aqui um Parque Industrial.
Eu achei que se calhar havia e, por isso, aceitei, e vim, desempenhara estas funções.” – sublinha.
Conseguimos preparar o futuro
“Hoje, olhando para trás estou muito satisfeito e, digo-lhe, que esta é da parte da minha vida profissional, uma das que me deu mais satisfação, ter participado no desenvolvimento deste projecto da Quimiparque.
Sinto, efectivamente, que conseguimos, fazer aquilo que se pretendia, não deixar isto morrer, dar-lhe uma volta e preparar tudo isto para o futuro.
Fomos muitos os que trabalhamos neste projecto.
Sabe, eu dentro de pouco tempo também sairei, mas hão-de vir sempre pessoas para continuar e sinto que valeu a pena, dá-me muita felicidade este projecto” – refere com alguma emoção Luís Tavares.
O território da Quimiparque tem futuro
No decorrer da nossa conversa procurámos saber como sente e vive Luís Tavares o Barreiro.
“O Barreiro é a minha terra praticamente, eu vivo mais tempo aqui, do que vivo onde moro.
Estou a trabalhar no Barreiro há 28 anos, e, como é natural, gosto do Barreiro, conheço aqui muita gente, e, acima de tudo tenho tido o prazer em ver tudo isto desenvolver-se.
Sabe, aquilo que me trouxe de início ao projecto Quimiparque, contínuo a dizer, ainda hoje, é porque acredito que este é um território com futuro e não acredito que este território não se possa desenvolver.
O território tem futuro, assim as pessoas queiram, mas é um querer que tem que ser de todas as pessoas do Barreiro, não é só um querer da Quimiparque.
Considero que, quem tem que lutar pelo Barreiro são todas as pessoas do Barreiro, e, as pessoas do Barreiro, não podem estar sentadas à espera que alguém faça, porque cada um, sem dúvida, tem que fazer a sua parte. Nós tentamos, na Quimiparque, fazer a nossa.
Todos têm que fazer a deles. Sabe, quem pinta a fachada de uma casa que não está bonita, ajuda ao desenvolvimento do Barreiro, porque faz desaparecer, pouco a pouco, a imagem negativa que o Barreiro tem, e, digo-lhe, essa é uma das nossas tarefas principais.”
Barreiro começa a ter importância
Luís Tavares, fala com entusiasmo do Barreiro e do território da Quimiparque.
“ Quando olho o Barreiro do lado de lá, sinceramente, cada vez fico mais satisfeito, porque sinto que vai mudando, vai evoluindo e vai melhorando.
Hoje, as pessoas já olham para o Barreiro de uma maneira diferente, o Barreiro começa a ter importância, na região e no país, por várias razões.
O Barreiro está numa situação única, por isso, é fundamental que as pessoas se convençam que este é um sítio com muitas capacidades e com grandes virtualidades, porque é assim na realidade, é um facto, esta é a verdade.”
Quimiparque uma grande experiência
“Acho que, na verdade, conseguimos fazer na Quimiparque qualquer coisa. Sei que não está tudo feito, mas considero que conseguimos dar a volta a um problema que era muito complicado.
Quem, como eu e muitos, estávamos aqui, quando a Quimiparque começou, sabemos que toda esta zona estava numa decadência, e, fazer contra vapor a isso, transformando esta zona, digo-lhe, foi uma experiência interessantíssima e, de facto, estou muito satisfeito” – sublinha a finalizar Luís Tavares.
Luís Tavares, Administrador da Quimiparque, afinal, um homem que dedicou grande parte da sua vida ao sonho de dar a volta a um território que, sendo essencial para o concelho do Barreiro, é, sem dúvida uma experiência enriquecedora, vivida num território marcado pela desindustrialização que agora caminha com novos rumos para o futuro.










