José Ambrósio – Administrador da AMBROCAR“O 25 de Abril foi uma das maiores alegrias que eu tive na minha vida”
A Baixa da Banheira, é uma Vila que, penso, deve ser olhada com outro carinho.
Há coisas que, para as quais, devia de haver mais um bocadinho de atenção.
Acho que se estão a preocupar mais com a Moita e a esquecer a Baixa da Banheira” – refere José Ambrósio, empresário com quem conversamos, sobre a sua vida, sobre a terra e o concelho que ele abraçou, e, onde, afinal, construiu a sua vida e a sua empresa.

Por António Sousa Pereira
Seu nome completo, José Ambrósio do Carmo Silva, nasceu em Baleizão, no distrito de Beja, no dia 13 de Maio de 1953.
Filho de Operários Agrícolas, seu pai era tractorista e sua mãe trabalhava no campo.
Foi em Baleizão, sua terra natal, que concluiu a 4ª classe, “aquilo que era possível fazer naquela altura” – sublinha.
“Na nossa aldeia todos nos conhecíamos. Era brincar. Era a escola. Era o jogo da bola.” – recorda José Ambrósio ao falar dos seus tempos de criança.
Sobrinho de Catarina Eufémia
Na conversa perguntámos se, no seu tempo de criança, ouviu falar de Catarina Eufémia, figura mítica de Baleizão.
“Era minha tia. Sou sobrinho de Catarina Eufémia” – refere, com alguma emoção.
“Felizmente conheci um pouco da vida política, sabe, envolvi-me sem querer, porque a minha família quase, naturalmente, nos conduzia a envolver na política.
Eu era criança e presencie alguns problemas. Posso dizer-lhe que me apercebi das acções da própria PIDE, quando entravam pela casa do meu avô, que era um grande revolucionário e muito conhecido.
O meu avô era o Mestre Adolfo, o cauteleiro na aldeia, um homem muito conhecido” – salienta José Ambrósio.
Tempos que ficam gravados
“Essas situações ficaram gravadas na minha memória. Eu era criança. Vi a PIDE entrar em casa, pegar nele, no meu avô, sem conversas e levá-lo preso para Caxias, onde esteve preso alguns anos.
Eram estas situações que levavam que a nossa família se envolvesse nisto, na política.
Sabe, tudo isto, como criança, acabou por me revoltar um bocado” – salienta, sentindo-se que fala destes tempos com um misto de angústia e de orgulho.
“Naquele tempo os ordenados que haviam mal davam para viver.
A nossa alimentação era muito escassa, era o pãozinho caseiro, com o chouriço alentejano e pouco mais. Era assim que nós tínhamos que nos defender” – refere José Ambrósio ao recordar a sua infância na vila de Baleizão.
Começar a trabalhar com 12 anos
“Com doze anos vim trabalhar, como Merceiro, para Lisboa, numa Mercearia que era propriedade de uns familiares. Comecei a ganhar o meu ordenado
E quando tinha 15 anos iniciei a minha profissão de “Bate Chapas”, foi neste tempo que comecei a minha ligação ao ramo automóvel, vivia e trabalhava na zona de Sintra, em Pêro Pinheiro.
Com a prática tornei-me num operário especializado na chapa.” – salienta José Ambrósio, contando-nos o seu percurso de vida.
Depois, sublinha, “seguiu-se a vida militar no RALIS, onde vivi o 25 de Abril de 1974, o 11 de Março e 25 de Novembro de 1975”.
Foi no ano de 1976 que “iniciei a minha vida empresarial, em sociedade, com dois sócios, montámos uma pequena Oficina de Reparação de Automóveis, em Alhos Vedros.” – recorda.
Montar a própria empresa
José Ambrósio sublinha que – “cinco anos depois estabeleci-me por conta própria, no mesmo ramo, numa Oficina em Alhos Vedros
Foi a primeira Oficina que eu tive de reparação de automóveis, a trabalhar sozinho
Em 1987, criei a AMBROCAR, na Rua da Corça” – sublinha.
“Sabe, venci obstáculos e criei condições financeiras, para construir as novas, amplas e modernas instalações da AMBROCAR, onde tenho por base uma carteira de bons clientes.
Arrisquei e construí estas novas instalações AMBROCAR – Sociedade de Reparações e Comércio de Automóveis, Ldª, aqui, na Estrada Nacional nº 304, na Baixa da Banheira” – refere o nosso entrevistado, assumindo com uma grande satisfação este seu percurso de vida.
Recorda – “A inauguração das novas instalações foram no dia 13 de Dezembro de 1997”.
Uma empresa de qualidade
É de referir que a Ambrocar é uma empresa de uma dimensão já razoável, com mais de 30 postos de trabalho, um significativo volume de facturação,
Uma empresa bem equipada, com máquinas de diagnóstico, de avarias, bancos de ensaio, desempeno de carroçarias, Secção de Pintura, Laboratório de Tintas, Secção de Electricidade Auto e Oficinas Mecânicas.
Ao nível comercial dispõe de um Stand de compra e venda de automóveis – novos e usados e um Posto de Venda de Combustíveis equipado com Loja de conveniência, com um Bar de Apoio ao Cliente
“É uma empresa de cunho familiar, dá emprego a muitos familiares e conta com o apoio da minha mulher e do meu filho, que são os meus braços direitos : Maria Balbina Silva, minha esposa e Sandro Silva, meu filho, responsável por toda área Comercial, licenciou-se em Economia e, ele, agarrou a parte comercial da empresa” – salienta José Ambrósio.
Da aldeia para a cidade
Mas, voltando um pouco atrás, recordando o percurso de vida de José Ambrósio, nosso entrevistado, refere que, os seus tempos na cidade grande : “Na altura estive a trabalhar na Mercearia, antes do 25 de Abril. Sabe, em Portugal vivia-se mal. Eu vim ganhar 150 escudos por mês, com direito a refeição.
Era um tempo que não havia farturas. Um tempo de dificuldades.
Olhe, uma das dificuldades que eu vivi foi o ter de abandonar a minha aldeia, onde todos nos conhecíamos.
Sai de uma aldeia para vir trabalhar numa cidade, ali na Ajuda, em Lisboa.
Foi um pouco complicado, porque comecei a viver uma vida completamente diferente, muito diferente, daquela que eu vivia na minha aldeia.”
A alegria do 25 de Abril
“Eu era uma criança mas apercebia-me das dificuldades que todos nós vivíamos, da repressão que havia, eu tinha consciência do estado em que nós vivíamos.
Eu sentia que isto não podia continuar por muito mais tempo, tinha que haver alguma forma de dar a volta à situação” – sublinha.
“O 25 de Abril foi uma das maiores alegrias que eu tive na minha vida. Digo-o muito honestamente.
Verifiquei que ia acontecer a mudança que se esperava há algum tempo.
Foi uma grande alegria para mim e para os meus companheiros na altura” – recorda com emoção.
Recordações do 11 de Março
“Sabe, eu estava no RALIS. Vivi ali o 11 de Março, aquele ataque da extrema-direita, sem dúvida, porque queriam acabar com o 25 de Abril.
Eu penso que o 25 de Abril não foi feito com o objectivo que depois acabou por se formar.
Os militares fizeram o 25 de Abril, mas o povo depois, obrigou a seguir pelos trâmites que foram criados.
Houve um colega meu que foi morto no 11 de Março, ele estava na caserna ao lado da minha.
Foi uma época muito complicada e muito traumatizante, ainda hoje me vem à memória, nos próprios sonhos tudo isso me surge muito, porque acabei por viver toda esta situação de forma muito intensa.” – sublinha José Ambrósio.
Revolucionário do PREC
José Ambrósio refere que “quando fui para a tropa já estava a desempenhar as funções de bate chapa”.
“Acabei por não cumprir o serviço militar todo porque fui expulso da tropa juntamente com todo aquele pessoal que estava no RALIS.
Éramos os revolucionários, por isso fomos excluídos.
Fiz a entrega da minha roupa militar com uma G3 apontada, cheguei a pensar que íamos voltar ao antes do 25 de Abril, felizmente isso não aconteceu” – sublinha, acrescentando – “O que eu queria, era que o país fosse em frente, que houvessem condições de trabalho para toda a gente e que a nossa liberdade de expressão não se viesse a perder novamente.”
A festa que marcou uma vida
Concluída a vida militar, refere – “Continuei a minha profissão de bate chapas.”
E, neste mergulho pelas suas memórias, recorda que - “Numa festa da minha aldeia, conheci aquela que veio a ser a minha esposa.
Ela é da mesma terra que eu, só que ela veio para a Baixa da Banheira, com três anos. Nós não nos conhecíamos.
Conhecemo-nos numa festa. O meu pai e o meu sogro fizeram tropa juntos, um dia numa brincadeira foi-me apresentada e, foi engraçado, porque acabou por haver uma empatia entre nós, acabei por começar a namorar e três anos depois a casamos.
Casei, ainda estava na tropa, no ano de 1976.”
Começo de vida na luta
José Ambrósio salienta que, naquele tempo - “Comecei a trabalhar por conta própria, ao biscate. Eu tinha um MINI 1000, onde tinha uma caixa de ferramentas de bate chapas, porque, naquele tempo, era tudo feito á mão.
Comecei a ser conhecido, porque corria as Oficinas aqui na zona, chegava lá fazia orçamentos aos trabalhos e executava os trabalhos, não como empregado mas como uma espécie de “subempreiteiro”.
Fazia o trabalho numa Oficina, depois ia para outra, e, foi assim o início da minha vida”.
Conhecido como bom profissional
“Entretanto abri uma pequena Oficina na Rua do Cais, com mais dois amigos meus, dois pintores de automóveis. Eu era bate chapas. Foi a primeira Oficina que nós abrimos. Começámos a ser conhecidos como bons profissionais. Felizmente sempre assim fomos conhecidos.” – sublinha.
José Ambrósio refere que - “ Sempre fui uma pessoa com objectivos na vida, tanto na política, como na minha vida profissional.
Não era a questão financeira que me dizia alguma coisa, não era o dinheiro, era a vontade de avançar, de criar uma empresa, que pudesse dar postos de trabalho, que pudesse ajudar, dentro do possível.
Não foi o ter uma grande conta bancária, isso para mim é relativo, não é importante.”
Orgulho de criar postos de trabalho
“O importante é orgulhar-me de 30 e pouco postos de trabalho, isso é que me dá gozo e orgulho, de hoje ter alguma responsabilidade de ter aqui 30 Chefes de família, que vivem todos desta empresa.
Acaba por ser uma empresa familiar, porque tenho uma relação espectacular, criei a minha filosofia de vida, de contar com todos como meus colaboradores, como amigos.” – salienta José Ambrósio, acrescentando – “A empresa é nossa, é esta a forma que eu penso.”
Sempre de tendência de esquerda
“Nunca fui filiado de partido nenhum, mas a minha cabeça foi sempre de tendência de esquerda, obviamente não podia ser outra e apoiei, de alguma forma, o Partido Comunista.
Trabalhava naquilo que podia, apoiava nas manifestações.
Participei em manifestações ao lado do Salgueiro Maia, porque nunca tive receio de dar a cara, com a farda, como militar. Assumo isso não tenho vergonha, antes pelo contrário orgulho-me de tudo isso.” – salienta José Ambrósio.
O meu partido é trabalhar
“Sabe, eu não me filiei em nenhum partido. Apoiei o Partido Comunista, mas, quando discordo não evito de apontar os erros que eles têm, porque também os têm, sou muito claro nesse aspecto.
O Partido Comunista tem que assumir que também tem cometido erros.
Neste momento não estou ligado a partido nenhum.
Posso dizer-lhe que o meu partido é trabalhar, é criar postos de trabalho, é realmente querer que o nosso concelho continue a crescer” – salienta com força nas suas palavras.
Os empresários apostam no concelho
Na sua opinião no concelho da Moita – “Nós temos, de um modo geral, um grupo de empresários bastante bons, que colaboram com o concelho, que procuram criar postos de trabalho.
Os empresários do nosso concelho colaboram e lutam pelo bem do nosso concelho, tenho essa ideia. Dou-me com a maior parte deles” - salienta.
Baixa da Banheira desenvolveu-se
“Estou na Baixa da Banheira há 33 anos. Considero que a Baixa da Banheira desde o 25 de Abril para cá, registou muita evolução e para melhor.
É óbvio que as Câmaras também estão um pouco limitadas.
Nós empresários, também, tentamos ajudar com aquilo que pudemos.” – salienta José Ambrósio.
Criamos estruturas de qualidade
“Mas, a crise está aí. Temos que tomar medidas. Aqui na Ambrocar, reduzimos as horas extraordinárias para que todos possam ter o seu posto de trabalho.
Sabe, há 3 anos atrás a facturação era muito maior, mas, hoje as dificuldades são maiores.
Felizmente, nós temos uma estrutura que nos permite dar resposta ao trabalho que nos é solicitado.
Trabalhamos muito directamente com Companhias de Seguros.
Nós criámos condições técnicas para isso, investimos e conseguimos evoluir, criando estruturas de qualidade” – salienta o empresário José Ambrósio.
Honestidade no trabalho
“Sou uma pessoa dinâmica de trabalho. Luto para que as coisas vão para a frente.
Para mim, tem que haver honestidade no trabalho, temos que se pagar aos funcionários o seu justo valor, para termos funcionários em condições.
Sou empresário, sou patrão, tenho as minhas responsabilidades, no entanto, não esqueço que tenho funcionários e, que, a boca deles é igual à minha. Eles têm que viver, têm que dar de comer aos seus filhos.” – salienta.
Uma boa relação com a comunidade
José Ambrósio refere que – “Mantive sempre uma boa relação com as colectividades da Baixa da Banheira, na altura o “Racing”, agora o Banheirense, já estive ligado à Direcção, agora sou Sócio Empresário. Fui um dos fundadores na fusão.”
Uma Câmara espectacular
“No concelho da Moita está a ser feita alguma coisa. Neste momento temos uma Câmara espectacular, não tenho nada para lhes apontar, têm feito o que podem.
Considero que, este espaço aqui na frente das Oficinas já deveria ter sido avançado.
Está um pouco travado. Sei, que podem haver outras prioridades, mas, se este projecto começou, então, deveria se concluído e não ficar a meio.
Eu, como empresário, quando começo um projecto organizo para começar e acabar, levando-o até ao fim.
Penso que concluir o arranjo deste espaço, era uma coisa que eu dava prioridade, porque aqui podiam ser promovidos alguns eventos.
Digo-lhe, gostava que esta zona fosse concluída que ficava espectacular.” – salienta José Ambrósio, comentando a vida do concelho e a prioridade que ele coloca, “sem querer puxar a brasa á minha sardinha”, no sentido da conclusão das obras do espaço envolvente à zona onde está localizada a sua empresa.
Sou um banheirense
“Adoro viver na Baixa da Banheira é com esta população que eu vivo, da Baixa da Banheira, Alhos Vedros ao Barreiro.
Aqui estão os meus clientes e os meus amigos.
Tenho orgulho na Baixa da Banheira, porque, no fundo, quase que foi aqui que fui criado, a maior da minha vida foi na Baixa da Banheira.
Eu julgo-me mais banheirense que outra coisa” – salienta.
Maior ligação entre empresários e políticos
“Gostava que as pessoas na nossa terra se conseguissem entender, esquecendo um pouco as partes partidárias, que, penso, por vezes leva-nos a confusões e a complicações, a atrasos de certos projectos que muitas vezes podiam ser feitos.
Eu gostava que a parte politica se procurasse entender melhor, para que nós pudéssemos levar o nosso concelho em frente.
O Partido Socialista, o Partido Comunista, era importante que houvesse mais entendimento, que se encontrassem consensos.
Nós empresários, estamos a estabelecer um bom relacionamento entre todos, para bem da comunidade.
Os partidos políticos também deviam encontrar esses objectivos.
Era bom que houvesse um pouco mais de atenção dos políticos para o trabalho dos empresários da nossa região.
Nós precisamos dos políticos, mas os políticos também precisam dos empresários do concelho.
Posso dizer-lhe que nós estamos abertos a colaborar e acho que tem que haver mais ligação entre estas duas partes, porque isso é fundamental para o nosso concelho.” – sublinha José Ambrósio ao comentar a vida politica e empresarial do concelho da Moita.
“Eu não tenho formação, tenho a experiência de vida e de trabalho. E, digo-lhe, não tenho problemas em arregaçar as mangas e trabalhar” - salienta.
Acabar com a Passagem de Nível
“A Baixa da Banheira é uma vila espectacular.
Mas, nós temos uma passagem de nível que é um cancro.
Esta é uma coisa que os nossos políticos já se deviam ter preocupado em resolver. Aquilo é uma confusão na hora de ponta.
A Baixa da Banheira, é uma Vila que, penso, deve ser olhada com outro carinho.
Há coisas que, para as quais, devia de haver mais um bocadinho de atenção.
Acho que se estão a preocupar mais com a Moita e a esquecer a Baixa da Banheira” – refere o nosso entrevistado.
Agradecimento à Câmara
A finalizar salientou que – “Agradeço à Câmara Municipal da Moita o apoio que nos tem dado, porque foi com o apoio deles que expandi a minha empresa, agradeço pela preocupação que tiveram em apoiar o desenvolvimento deste projecto”.










