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Cidade com Rostos

Raul Malacão – Presidente da Junta de Freguesia do BarreiroA Ponte Barreiro – Seixal é uma ligação muito importante

. Promessa eleitoral de construção das Piscinas em risco

“Queremos um maior âmbito de intervenção” sublinha Raul Malacão Presidente da Junta de Freguesia do Barreiro, e recorda que nesse sentido, decorrem “reuniões entre as várias freguesias e a Câmara Municipal para saber onde poderemos assumir mais responsabilidades.”
Raul Malacão salienta que as Escolas do Ensino Básico, na sua freguesia, “necessitam de intervenções”.

13 min de leitura
Raul Malacão – Presidente da Junta de Freguesia do Barreiro A Ponte Barreiro – Seixal é uma ligação muito importante

Por Jornal Rostos

Raul Malacão, Presidente da freguesia mais antiga da cidade do Barreiro, com o mesmo nome, nascido e criado na então vila de pescadores, fala com alguma nostalgia do passado, mas tem o olhar virado para o futuro.

Promessa eleitoral das Piscinas em risco

Que balanço pode fazer destes meses de mandato?
“Este executivo, composto quase na sua totalidade por pessoas novas, uma vez que apenas eu e a tesoureira transitámos do anterior mandato, está a procurar dar resposta ao programa com que nos apresentámos ao eleitorado.
Não fizemos promessas que não pudéssemos cumprir, até porque conhecemos os meios que a Junta tem ao seu dispor e que são limitados, sendo a nossa intervenção pequena.
No entanto, dentro das áreas que temos protocoladas com a Câmara Municipal continuamos a dar a melhor resposta, como o tratamento dos espaços verdes da freguesia, a varrição do Bairro das Palmeiras e pequenas reparações nas escolas do ensino básico.
A Junta está ainda a tentar algo que não conseguimos no mandato anterior, que é protocolar outras áreas, alargando o nosso âmbito de actuação em campos que agora pertencem à Câmara, e nesse sentido temos mantido reuniões mensais, sendo este um desejo também de outras freguesias.
Nesse sentido, vamos iniciar reuniões entre as várias freguesias e a Câmara Municipal para saber onde poderemos assumir mais responsabilidades.
Uma das poucas promessas que foi feita pelo executivo camarário, foi a questão das piscinas no Parque da Paz e Amizade, mas que devido às condições de tesouraria da Câmara Municipal, não sei se irá ser concretizado, até porque há pessoas que se manifestaram contra a localização dentro do Parque.”

Escolas do Ensino Básico necessitam de intervenções

E em relação a obras concretas?
“Há ainda um conjunto de soluções que dependem da intervenção da Câmara, como algumas instalações das escolas do ensino básico que necessitam de intervenções.
Esta é uma intervenção que considero muito importante para a freguesia, visto que as duas escolas que possuímos estão num estado muito deficiente e degradado e é uma necessidade premente actuarmos neste campo.
No período escolar que se vai iniciar em Setembro, as actuais instalações ainda vão ser utilizadas, embora com algumas intervenções, mas neste momento já existe um projecto para aproveitamento e recuperação das antigas instalações da Escola Mendonça Furtado, na Rua José Relvas, um edifício que está degradado e fechado há anos, mas que tem vários andares e pode dar resposta às necessidades da freguesia.
Contamos iniciar a sua recuperação no próximo ano, de forma a que esteja apto a receber alunos no ano lectivo de 2007/2008 e aí seja instalada a Escola nº 1 e nº 2 e o pré-escolar público, que não existe nesta área da freguesia.
Temos o pré-escolar público apenas no Bairro das Palmeiras, e com esta proposta vamos dar resposta às necessidades dos pais.
A rede do pré-escolar público é também uma grande necessidade, apesar da muita oferta particular, mas há quem não possa optar por essa via, até porque temos hoje aqui um conjunto de pessoas que vieram de vários pontos, não só do país como do estrangeiro, e que trazem grandes carências e penso por isso que cada vez mais se impõe a criação do pré-escolar público nesta zona.”

Recuperação do Moinho Pequeno e das caldeiras

Também alguns espaços públicos têm sido recuperados?
“Nos últimos meses tem havido algumas intervenções no sentido de recuperar alguns equipamentos do espaço público que estavam desactivados, como o espelho de água da estátua Alfredo da Silva, há três anos desactivado, bem como o lago no Parque Catarina Eufémia, desactivado também há três anos, que está agora a ser alvo de obras de reactivação.
Também vão ser substituídos os candeeiros do Parque Catarina Eufémia, uma vez que tinham sido partidos vários e como já não há iguais, vão ser substituídos na sua totalidade.
Estas são intervenções importantes para a freguesia.
Estamos também a procurar a aprovação do projecto de recuperação do Moinho Pequeno e das caldeiras, um espaço de lazer com muita importância para a freguesia e depois há várias situações como o caso da Quimiparque que estão a ser desenvolvidas entre a administração e a Câmara Municipal através de protocolo, e que acredito que seja uma mais-valia para a freguesia e não só.”

Quiniparque uma zona privilegiada no nosso concelho

O que é que esse acordo da Quimiparque pode trazer para a freguesia?
“São dez por cento do território que ali estão ocupados pela Quimiparque, e por aí podemos fazer uma ideia do que vai trazer aqui para a freguesia, procurando manter ali algumas zonas que possam criar mais postos de trabalho e para serviços públicos como a PSP e Bombeiros, bem como serviços da Câmara Municipal, o que será uma zona privilegiada no nosso concelho, virada para o Tejo e para a qual tem também de haver um certo cuidado naquilo que se pensa em relação ao futuro.
Mas penso que irá contribuir para dar uma imagem nova ao Barreiro, com tudo o que se está a desenvolver, embora apenas se encontre ainda na fase de discussão.”

Ponte Barreiro – Seixal é uma ligação muito importante

Muito falado é o projecto de ligação rodo-ferroviária entre o Barreiro e o Seixal, que pensa desta ligação?
“Isso era para ontem, porque é algo muito importante. Aliás, já existiu, como todos se devem lembrar, e foi desactivada na década de sessenta, depois de ali terem embatido dois barcos que abasteciam de carvão a Siderurgia.
Essa é uma ligação muito importante e que tem muita pressa, porque é um concelho vizinho que em linha recta não dista um quilómetro e não faz sentido estarmos de costas voltadas.
Podemos dizer neste caso que estamos pior do que estávamos há cinquenta anos atrás.
Aqui no Barreiro, se quisermos ir a Almada de transporte público é preciso ir de barco até Lisboa e depois para Cacilhas e dali para Almada, e o mesmo se quisermos ir para o Seixal.
Cheguei a utilizar o comboio para o Seixal, entrando aqui no Barreiro A, nessa altura para frequentar os bailes que se faziam nas colectividades, pagando 15 tostões. E quando não apanhávamos o barco, um senhor fazia a travessia com uma lancha e transportava passageiros.
Tudo isso acabou, uma ligação óptima, o que me leva a dizer que estamos pior do que há anos atrás.
Mas posso apontar-lhe outro retrocesso, um assunto sobre o qual tomei conhecimento há pouco tempo.
A oferta que existia da OLEFA, de ensino recorrente para adultos, foi extinta em todo o país. Este era um projecto em que a Junta de Freguesia e a Câmara Municipal colaboravam com apoios.
Neste momento não sabemos o que irá acontecer, apenas que esse serviço foi extinto e por isso as Juntas de Freguesia vão reunir para discutirmos de que forma poderemos continuar, a nível interno do concelho, com o projecto.
E estamos a assistir a este tipo de situações todos os dias.
Concordo que é preciso avançar mas não acabando com as coisas com as quais a população já contava.”

Com a ETAR a funcionar vai haver uma modificação completa

Outro ponto que está agora na ordem do dia, até pelo calor que se faz sentir, é o aproveitamento das praias fluviais. No Barreiro continua a interdição de banhos?
“Chamávamos-lhe a Praia da Bela Vista, devido a toda a zona que se alcançava. Agora continua interdita a banhos devido à poluição.
Durante muitos anos tivemos aqui as indústrias como a CUF que poluíram o Tejo, a que se juntava a Siderurgia e a Lisnave, entre outras, e creio que nem tinham qualquer tipo de tratamento.
Essas indústrias acabaram e o rio recuperou um pouco, mas hoje temos a poluição provocada pelos afluentes de esgotos domésticos, porque ainda não temos Estações de Tratamento e vai tudo para o rio.
Só Almada é que já resolveu o problema, chamando a situação a si e porque tinha meios económicos para o fazer.
Aqui no Barreiro as coisas estão a desenvolver-se aos poucos, e o projecto já foi adjudicado à Simarsul, a empresa intermunicipal e com capitais do Estado, constituída para dar resposta aos problemas dos concelhos limítrofes.
Logo que essas ETAR entrem em funcionamento, as coisas vão melhorar, porque não há justificação nenhuma para haver essa interdição e acredito que as pessoas vão poder voltar a apanhar bivalves com toda a confiança.
Já está mesmo definido que logo que tenhamos aqui as ETAR a funcionar vai haver uma modificação completa e iremos apostar mais ao nível turístico.
Conto com isso dentro de três anos ou talvez ainda menos, em alguns casos.
As pessoas não frequentam estas praias devido à interdição, porque têm a noção de que não devem entrar na água e porque é muito desagradável ir para ali e saber que a poucos metros está a desaguar uma conduta de esgoto.
Esse é um aspecto bastante importante para benefício das populações desta zona ribeirinha, apesar de sabermos que há pessoas que continuam a tomar ali banho, porque não têm ou não querem ir para outro lado, apesar de a Câmara colocar carreiras de autocarros para transporte para as praias mais próximas, precisamente por causa das nossas limitações nesta zona.
Esperemos que num futuro próximo as coisas melhorem.”

Não temos capacidade de dar resposta em termos de postos de trabalho

O encerramento das fábricas veio também trazer alguns problemas ao Barreiro?
“O problema é que hoje, em relação ao que tivemos, não temos capacidade de dar resposta em termos de postos de trabalho.
As indústrias que ainda aqui laboram já têm uma limitação muito elevada nessa área, e apesar de termos ainda algumas a laborarem aqui, não tem nada a ver com o que tivemos, bastando ir ao exemplo da CP, que chegou a ter mais de três mil trabalhadores e hoje está reduzida a uma centena ou duas.
A CUF, considerada o maior complexo industrial da península ibérica, contribuía para isso, e depois tínhamos uma série de pequenas empresas, à semelhança do que acontece hoje no parque da Autoeuropa, que trabalhavam para a CUF e para a CP, e que ofereciam muitos postos de trabalho.
Lembro-me que era difícil passarmos por alguma rua onde não existisse uma oficina de carpintaria, serralharia, metalomecânica, etc.
Tudo isso se perdeu e isso é um dos grandes problemas que enfrentamos e não é por acaso que vimos a perder população.”

Electrificação da linha para as Praias do Sado

E o Barreiro tem vindo a perder muita população?
“Se não temos postos de trabalho, como é que as pessoas vêm para o Barreiro? Só pela localização privilegiada que temos? Até o preço das casas mais recentes é bastante elevado ou se tiverem vista para o rio.
Por outro lado, também as acessibilidades são más, apesar da melhoria de acesso a Lisboa com a introdução dos catamarãs, apesar das suas limitações em tempo de nevoeiro e de mau tempo, mas até isso tem sido mais raro nos últimos tempos.
Mas se colocarmos face ao exemplo dos concelhos vizinhos, estamos pior, e até a oferta do comboio piorou, basta ver a reivindicação sobre a electrificação da linha para as Praias do Sado e as mudanças de linha em viagens que dantes eram directas.”

Parque habitacional mais antigo está em degradação

Existe também o problema de alguma degradação em certas áreas?
“Temos uma parte do parque habitacional mais antigo que está em degradação, e não me refiro apenas ao Bairro das Palmeiras, embora este tenha sido um núcleo criado com a implementação da CUF, de habitações precárias por pessoas com poucos meios que vinham à procura de trabalho.
Com o correr dos anos, essas pessoas conseguiam melhores condições de vida e mudavam-se ou compraram o terreno e erguiam as suas habitações.
Mas hoje em dia, uma grande parte da população que lá está nem tem nada a ver com os habitantes originais e alguns nem conheceram a CUF.
Por outro lado, temos a questão do parque habitacional mais antigo aqui no centro do Barreiro, habitações que eram ideais na altura em que foram erigidas, mas que actualmente já não oferecem condições, porque a maior parte nem tem casa de banho, tem apenas uma pia.
Outro problema coloca-se pelo facto de os proprietários originais já não serem vivos e existirem herdeiros sobre herdeiros, e alguns que nem conhecem o Barreiro e como se tratam de propriedades privadas, coloca-se uma situação muito complicada.
A Câmara Municipal tem comprado alguns edifícios com interesse para manter a memória, e que têm sido restaurados, mas a grande maioria é privado.
E embora muitos deles estejam à venda, os preços são tão elevados por estar numa zona privilegiada frente ao rio, mas depois não há espaço para ser feita uma intervenção por parte dos novos proprietários de forma a dar o mínimo de comodidades.
A isto tudo ainda se colocam as limitações do PDM, para que não se chegue ali e se construam torres de betão só para ter acesso à vista.”

Defendemos uma estrutura de caminho-de-ferro

Voltando à questão da linha férrea, os comboios são emblemáticos do Barreiro?
“O caminho-de-ferro foi o primeiro pólo de desenvolvimento do Barreiro, em meados do sec. XIX. Foi a partir daí que vieram as fábricas de cortiça e depois a CUF.
Toda a linha até Vila Real de Santo António era coordenada aqui no Barreiro, e aqui estavam as oficinas, os coordenadores, era aqui o bairro da CP, enfim, toda uma estrutura que hoje tem grande parte do seu património ao abandono.
O Barreiro era por excelência o centro da actividade ferroviária a sul do Tejo, daqui se partia para quase todo o país.
Hoje temos as ligações a encerrarem e até para comprar uma passagem para o Alentejo, temos de ir ao Pinhal Novo ou comprar pelo Multibanco, colocando problemas às pessoas mais idosas que não sabem lidar com isso ou aos antigos empregados da CP que têm direito a viajar sem pagar, mas que têm de adquirir um título de transporte válido.
Hoje estamos a desenvolver esforços para que muito do património histórico ferroviário se mantenha, e há um grupo constituído de pessoas que pretende defender o que ainda existe do caminho-de-ferro.
E não temos qualquer resposta por parte dos Governos sobre o que irá acontecer nesta situação. É como o caso do TGV, que é ponto assente que passará por aqui, mas não sabemos se pára ou não.
Hoje diz-se uma coisa, mas amanhã já é dita outra pelos sucessivos executivos governamentais e de cada vez que há mudanças de Governo, os planos são alterados.
Defendemos uma estrutura de caminho-de-ferro que se mantenha e que dê resposta ao que temos aqui, que não é apenas a memória, mas também o desenvolvimento do concelho, que é muito necessário, e uma clarificação de todas estas situações.”

Maria do Carmo Torres

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