Glória Bastos – Escritora e InvestigadoraA literatura para os mais novos é uma parte, geralmente, marginalizada no campo da escrita
Fomos conversar com Glória Bastos sobre o seu percurso de escritora e sobre esta sua última obra, que visa dar um contributo para divulgar a escrita para crianças.

Por António Sousa Pereira
No Barreiro realizaram-se, em tempos de forma regular, os “Encontros sobre Literatura Infantil”, tendo sido, no primeiro Encontro, Glória Bastos a escritora homenageada.
Esta iniciativa ficou para trás no tempo e procurámos conhecer a opinião de Glória Bastos, sobre a importância desse projecto cultural que, de alguma forma, colocou a cidade do Barreiro na rota da literatura infantil.
“Essa era uma forma da literatura para crianças, literatura para os mais jovens, ser valorizada, porque isso passa pela realização de Conferências, Colóquios, Seminários, que permitam que sejam conhecidas perspectivas teóricas e escritores que publicam nessa área.
No Barreiro realizaram-se três edições desses encontros e depois morreu um bocadito”.
A Ilustrarte e a escrita para crianças
Valia a pena continuar a promover no Barreiro essa iniciativa?
“Penso que sim, porque esse tipo de iniciativas são importantes, porque sendo a literatura para os mais novos é uma parte, geralmente, marginalizada no campo da escrita, é fundamental que se dê a conhecer, através deste tipo de iniciativas.
Realizando-se, neste momento, no Barreiro as exposições sobre ilustração se calhar, até se podia, eventualmente relacionar a problemática da ilustração com a escrita para crianças.
A Ilustrarte é uma iniciativa com projecção nacional e, podia ser aproveitada, no caso do Barreiro, para se investir na vertente da ilustração e organizar-se uma iniciativa, com alguma substância, focalizada nessa zona de trabalho.
No país, hoje, já são realizadas diversas iniciativas direccionadas para a literatura para crianças.”
Primeiro livro em 1990
Quando começou a escrever para crianças?
“O primeiro livro que eu publiquei foi em 1990, depois, desde aí, tenho vindo a publicar. Nos primeiros anos foi sobretudo na área da escrita para crianças, ultimamente, tenho tido menos disponibilidade para pensar nessa zona de escrita, por essa razão tenho estado mais interessada em aprofundar o lado da investigação, do estudo sobre a literatura para crianças e jovens.
Portanto, nos últimos cinco anos não tenho escrito nada para crianças.
Tenho publicado várias coisas mas, de facto, mais no campo do ensaio.”
Ser um parente pobre
Há pouco dizia que a literatura para crianças é uma literatura marginalizada. Porque pensa assim?
“Penso assim, por várias razões, embora deva salvaguardar que as coisas têm-se alterado, substancialmente, nas últimas décadas.
Mas, efectivamente, em termos de projecção, de divulgação, através daquilo que passa pelos meios de comunicação social, continua, ainda a ser um parente pobre da literatura.
Em termos de critica continua a ser um parente pobre, basta ver a divulgação que é feita a outros escritores de outras áreas que, até, vendem menos livros, e havendo autores destacados na literatura para os mais novos, com índices de venda e com qualidade literária significativa, esses escritores não têm a divulgação que têm os escritores da chamada literatura para adultos.
Portanto, nesse sentido, continua ainda a ser marginalizada.
Divulgar a escrita para crianças
Qual o âmbito da investigação que está a desenvolver?
“Sobretudo na área da investigação sobre a escrita e sobre os autores de literatura para crianças.
A minha tese foi especificamente sobre essa área da literatura, porque é uma área que está pouco trabalhada, ainda menos trabalhada no campo do Teatro.
Se a literatura para crianças é pouco estudada e divulgada, quando nós olhamos para a literatura dramática aí o fosso é mais significativo, ainda há menos trabalho, ainda há menos análise, ainda há menos divulgação, do que a outras áreas da escrita, nomeadamente a narrativa, que é aquela mais conhecida.
Esta questão fez-me, efectivamente, avançar por esta área de investigação e divulgação, para dar a conhecer, quer em termos do grande público, quer em termos mais de trabalho académico, divulgar a escrita para crianças em Portugal.”
Falta da promoção da investigação
Há falta de investigação sobre a escrita para crianças?
“Também há falta da promoção da investigação que é desenvolvida.
Sei que em Portugal há algumas pessoas que vão trabalhando sobre esta área, publicando estudos, e, também esses estudos, essa zona de trabalho não dados a conhecer.
No entanto, há algumas iniciativas que estão a ser preparadas.
Actualmente estou ligada a uma iniciativa que está a dar os primeiros passos, trata-se da criação de uma Biblioteca Especializada em Literatura Infantil e Juvenil, apoiada pela Câmara Municipal de Lisboa.
Portanto, dentro da Rede das Bibliotecas de Lisboa, há uma Biblioteca – Biblioteca de S. Lázaro, a mais antiga da rede – onde sou a responsável cientifica pela criação de uma Biblioteca que está vocacionada, especificamente, para a Literatura para os mais novos, sobretudo de autores portugueses, publicados até 1969, onde, também, se pretende dar a conhecer os estudos que são publicados em Portugal nesta área de investigação.
Este será um contributo importante, quer para dar a conhecer uma área de escrita e uma área de edição, que é significativa.
Nós não podemos esquecer, quando se é adulto, que há toda uma fase anterior, que se manteve um contacto com um tipo de literatura que é fundamental na construção do indivíduo, enquanto cidadão, mas também enquanto leitor.
Essa zona permanece na obscuridade e todos nós esquecemos.
As pessoas falam de um ou outro autor que os marcou, mas a literatura para os mais novos é feita de muitos autores, de muitos livros que se publicam, uns melhores outros piores, tal como na literatura em geral, há bons e maus autores, há livros interessantes e há livros que nos tocam mais.
Nessa Biblioteca, o que se vai tentar fazer é um Núcleo de Apoio à investigação, à divulgação da literatura para os mais novos e preservar esta parte da memória da literatura portuguesa.
Por exemplo, a minha tese de mestrado, que fiz em 1992, sobre uma escritora portuguesa, a Virgínia de Castro e Almeida, de quem hoje já se fala um bocadinho, em determinados contextos.
Foi uma escritora que marcou uma época, sobretudo o princípio do século XX, em Portugal, e, para consultar os livros dela, na Biblioteca Nacional, tinha que todos os dias pedir uma autorização especial, porque não vinham à leitura. Isto não facilitava o estudo sobre estas obras.
Gosto de António Torrado
Tem algum escritor que a influenciou?
“Eu gosto, dos actuais, de António Torrado. Gosto muito da escrita dele, que também trabalha na literatura dramática, que é uma zona de escrita ainda mais difícil, quer de ser publicada, quer de ser reconhecida.
Nos textos que ele escreve para teatro infantil e juvenil, consegue conciliar duas coisas que são fundamentais, do meu ponto de vista, por um lado, a qualidade literária, por outro lado, uma capacidade de comunicação com o destinatário.
É da aliança destas duas coisas, da qualidade literária do texto e da capacidade comunicativa que esse texto integra, que se faz uma obra com qualidade, nesse domínio, considero que o António Torrado é um escritor que consegue esse casamento”.
Uma zona por desbravar
Qual a razão que a levou a dedicar-se ao estudo da literatura infantil na área do teatro?
“Não sei, não sei explicar. Nunca tive uma ligação particular ao teatro, a não ser quando dei aulas na Escola Alfredo da Silva, onde dinamizei, com alguns colegas, um Grupo de Teatro de Alunos.
Como chegou a essa obra agora editada, sobre “O Teatro Para Crianças em Portugal” ?
“Cheguei a por verificar se a literatura para crianças é marginalizada, o teatro para crianças, ou a literatura dramática ( o meu trabalho é sobre os textos para teatro, não sobre o espectáculo) é ainda menos divulgado e menos trabalhado, menos conhecido.
Este investimento surge dessa constatação que esta era uma zona que estava por desbravar.”
História da literatura dramática
Quais as ideias centrais que emergem, na tese de doutoramento, publicada nessa obra?
“Faço um percurso histórico. Há uma linha de continuidade que é fazer a história da literatura dramática para crianças em Portugal.
Portanto, percorro todos os textos que foram publicados, começando em 1883, com a primeira escritora que publica, texto dramático para crianças, Rita Chiape Cadete.
Começo no século XIX, e há que dizer que o século XIX, em Portugal, marca o grande início de literatura para crianças, sobretudo com a famosa geração de 70, e faço o percurso histórico até à actualidade.
Demarco três momentos essenciais. O primeiro vai desde o século XIX até ao final da 1ª República, com todos os ideais que estão intimamente relacionados com a Educação Republicana, porque os ideais republicanos, não começaram em 5 de Outubro de 1910, e, estão presentes na literatura para os mais novos.
Há homens importantes, no Movimento Republicano, que eram professores, que escreveram peças de teatro para crianças.
Um das ideias que nós podemos afirmar sobre o teatro para crianças, é que ele está intimamente relacionado com a Escola.
Foi assim desde as origens do teatro e hoje continua a ser nesse contexto que o teatro para crianças sobrevive.
O Teatro para crianças desde que nasce está relacionado com o contexto escolar.
Depois, no período do Estado Novo, há algumas iniciativas que são significativas, uma é relacionada com o regime, que é o Teatro da Mocidade Portuguesa, com o Manuel Couto Viana à frente.
Há outra referência fundamental, a Companhia de Teatro Amélia Rei Colaço, montar no Teatro Nacional peças para crianças, com textos de boa qualidade e boas encenações.
Os anos 30 e 40 foram anos que valorizaram o teatro para crianças.
Por fim é o período após o 25 de Abril, apresento textos até 2005.”
Por terras da outra banda
Nos seus trabalhos de ficção há uma obra que fala da história da margem sul ?
“Sim. Tenho a obra “O Gil, por terras da outra banda”. É um volume que faz parte de uma colecção – “Há descoberta com Gil e Inês – que foi publicada no âmbito das comemorações dos 500 anos dos descobrimentos Portugueses.”
Escolas não me esqueceram
O Barreiro que comemorou esses 500 anos com o Projecto “A viagem”, esqueceu-se da Glória Bastos?
“O Barreiro não sei se me esqueceu. As Escolas do 1º Ciclo não me esqueceram, porque já as percorri todas, ou quase todas, conhecem os livros e trabalham com os alunos.
Sendo aqui do Barreiro, sempre que me convidam acedo a ir ás escolas conversar com os miúdos. Ver os trabalhos que eles fazem.
São momentos importantes, sobretudo para eles, por estarem a conversar com um escritor.
Quando nós estávamos na Escola a ideia que tínhamos de um escritor era de alguém que já tinha morrido.
Hoje, felizmente, os miúdos têm outra ideia sobre o escritor, porque, apesar de tudo à uma exposição pública e uma divulgação, que não existia há trinta anos atrás.
É importante, para eles, verem que o escritor é uma pessoa que está ali ao lado deles, que conversa com eles e que tem uma vida como eles.
Isso é positivo para os incentivar a ler e a escrever.
Posso dizer que as Escolas do Barreiro têm acolhido bem os livros que eu escrevi durante vários anos”.
Mudanças no ambiente fisico
Glória Bastos, vive na freguesia de Santo André e trabalha na Universidade, em Lisboa, onde coordena Mestrados.
Acompanha, por essas razões, pouco do dia a dia da cidade, mas sublinha – “O Barreiro tem sabido evoluir e perspectivar coisas interessantes nos últimos anos. Nós estamos sempre à espera que as coisas sejam ainda melhores.
Gostaria que houvesse mais coisas melhores no Barreiro, sobretudo, em termos de ambiente físico.
Porque no âmbito até as coisas não estão más, há um Grupo de Teatro residente, do qual tenho visto alguns espectáculos, com valor.
Há outras infraestruturas que acolhem outro tipo de acontecimentos de forma positiva.
Mas, repito, no aspecto físico é que eu gostava de ver algumas alterações na paisagem urbana, uma das coisas que gostava de ver renovada era aquela zona da Copacabana.
É uma zona que merecia atenção, porque é um espaço agradável, que continua marcar passo, tal como toda aquela zona ribeirinha.”.










