Centenário do nascimento de Fernando Lopes GraçaAs prisões e os exílios fizeram tomar mais consciência dos problemas
Tenho saudades da luta apaixonada, quando era preciso fazer tudo do nada, enfrentar todas as dificuldades, todas as perseguições.
Começo a ter saudades dessa luta, porque foi muito positivo e ajudou ao nascimento do movimento do 25 de Abril.
Hoje, muitos projectos de transformação da sociedade são travados.» - palavras de Fernando Lopes Graça, numa entrevista realizada no ano de 1978.

Por Jornal Rostos
No ano de 1978, no âmbito das Festas do Barreiro, foi prestada uma homenagem a Fernando Lopes Graça.
O “Jornal Daterra”, em colaboração com a Comissão de Festas, editou uma brochura, na qual foi inserida uma entrevista feita a Fernando Lopes Graça, para além de um depoimento que solicitei ao poeta José Gomes Ferreira.
Neste ano que se evoca o centenário do nascimento de Fernando Lopes Graça, aqui fica o texto integral da entrevista, acompanhado das fotos feitas por José Encarnação, as quais podem ser consultadas em “www.barreiroweb.com”.
O individuo e o colectivo
Pode falar-nos da sua infância?
« Não gosto de falar de mim, nem da minha infância que é igual à de toda a gente, pior ou melhor, não sou pessoa para confissões nem para recordações de infância ou de juventude, tenho as minhas recordações, tive a minha vivência, mas isso não importa nada para um processo, o que cada um passou, acho que não tem importância nenhuma, queria antes falar de coisas da actualidade e que interessam colectivamente e que não interessam a mim individualmente. A pessoa - indivíduo – não tem interesse nenhum em si.»
Mas, nós gostaríamos de dar a conhecer profundamente à população do Barreiro a figura de Lopes Graça...
«A população do Barreiro conhece-me razoavelmente, é das terras que melhor me conhece, fui lá com o coro e sem o coro tantas vezes, àquelas múltiplas sociedades que lá existem, ou fazer conferências, ou com o coro, pelo que tenho a impressão que a população do Barreiro está mais ou menos elucidada com a minha pessoa.»
Como iniciou a sua dedicação à música?
«Como uns se viram para sapateiros, outros para generais, eu virei-me para a música porque calhou, foi um acidente – Tinha um piano em casa e comecei a tocar depois, daí, fui aprendendo e fiz os meus cursos, não há mistério nenhum, nem metodologia nenhuma, na minha educação musical, foi um caminho da minha vida como qualquer pessoa pode ter.»
A música popular portuguesa
Desde o momento que começou a dedicar-se à música sentiu logo o valor da música popular portuguesa?
«Não. Não foi logo. O meu interesse pela música portuguesa veio muito mais tarde, mas, quero dizer que uma das minhas primeiras obras, era justamente uma obra sobre material tradicional português, chamava-se «Variações sobre uma Canção Popular Portuguesa», mas isto já eu tinha os meus 21 anos, depois, daí por diante nunca mais deixei de me interessar pela riqueza da nossa música tradicional, com períodos de mais intensidade, de menos intensidade.
Mas, o período de maior intensidade foi a partir dos anos 37, 38, aí, é que fui estimulado por pessoas amigas, por uma cantora que se dedicava muito à canção popular, instigou-me a escrever canções populares»
Ao começar a dedicar-se à música tradicional portuguesa, começou a sentir-se directamente ligado ao povo português?
« Nessa altura, infelizmente, não podia estar ligado ao povo português, porque os meus anos de 30 a 40 foram muito atribulados, cadeias, exílios, etc., etc., de maneira que só depois do meu regresso ao País em fins de 39, é que pude contactar mais com o povo português e fazer estudos junto do povo português.
Nem sempre foi fácil, porque não tinha cabedais, não podia viajar muito, não tinha meios, ninguém ajudava, as entidades não se interessavam, ou se se interessavam não era com a minha pessoa, naturalmente, mas, nos anos 40, fiz logo à minha responsabilidade, com os meus meios, fiz estudos da nossa música popular na Beira, no Alentejo, em Trás-os-Montes, depois esses estudos, intensificaram-se com o aparecimento providencial do Michel Giacometti e, então, é que a coisa se fez com mais possibilidades, pois, tínhamos muitos problemas de ordem financeira, mas enfim, lá íamos avançando e fez-se um trabalho, que hoje é conhecido como um trabalho fundamental da nossa música popular portuguesa.»
A prisão e o exílio
Que significado tem para si o exílio e a Prisão?
« A minha prisão significa um empenhamento na vida política portuguesa.
Essas prisões e esses exílios só me fizeram tomar mais consciência e empenhar mais profundamente nesses problemas.
Claro, que eu não sou sociólogo, não sou economista, tão pouco político, sou apenas um cidadão, mas como cidadão naturalmente me empenhei mais, foi na consequência do meu empenhamento já, e, desses acidentes da minha vida, em vez de me desviar como tantas vezes sucedeu, desse amor, desse interesse pelo nosso povo, mais me deu para empenhar por ele, são experiências que assimilei à minha própria pessoa, à minha psicologia, ao meu temperamento, ao meu pensamento e à minha própria obra, naturalmente.»
A obra e o ideal
A música pode ser um meio veiculador de ideias?
« Naturalmente que todos os compositores, todos os artistas, reflectem na sua obra o seu ideal, quando eles dizem que não, estão a mentir muitas vezes, há, no entanto, sentimentos, ideias diferentes, variáveis aceitáveis, não sei se as minhas são aceitáveis, mas faço o possível que elas correspondam a uma realidade portuguesa.»
O MUD e Coro da Academia
Esteve ligado ao MUD e a esse período de resistência, foi um período muito duro?
«Pois, naturalmente que foi, foi uma primeira tentativa depois da guerra de implantar, restabelecer, restaurar a democracia neste país.
Uma tentativa gorada, porque, apesar de tudo, o fascismo nessa altura ainda tinha muita força e continuou a ter, no entanto, se a tentativa, a luta foi gorada, alguma coisa ficou e eu posso dizer, que desse período, algumas pessoas se mantiveram, mantiveram os seus ideais, a sua postura ética, política, e, ficou mais uma coisa, ficou o coro, o tal coro da Academia de Amadores de Música, que há-de ir, visto isso, à Festa do Barreiro, ele, é uma produto do MUD.
Nasceu em 45, justamente quando se começou o trabalho da oposição, semi-legal, naturalmente, de maneira que o coro manteve-se nessa atitude de combate e de esclarecimento até ao presente.
Não era logo Coro da Academia, só começou a ser Coro da Academia em 1950 – 51, no ano que entrámos para a Academia.
Foi Coro de várias coisas, mas aceitavam-nos, e depois punham-nos a andar, tivemos dificuldades tremendas para ter uma casa para ensaiar.
As sociedades que nos albergavam ( não era o facto de não gostarem muito da nossa actuação, actuação que era política, era ideológica), mas, naturalmente, as pessoas tinham medo, o medo dominava o país e as pessoas não digo que nos punham a andar, mas faziam-nos a vida um pouco difícil, até que, a Academia nos abriu os braços. Algumas dessas sociedades que nos albergavam não eram fascistas, eram pessoas medrosas, não queriam que lhes invadissem a casa (o que podia suceder), não queriam que a Polícia interviesse nas suas actividades e a Policia intervinha várias vezes, de maneira que, eles, tomavam as suas precauções, o que era de certa maneira aceitável e desculpável. »
Acção politica e vida associativa
Quer dizer, portanto, que a sua obra é a sua actividade política?
«Não. Não tenho actividade política, nunca tive, excepcionalmente, não sou um político.
Como disse, sou um cidadão, tem as suas ideias políticas, tem a sua ideologia, que entende defendê-la com os meios disponíveis, naturalmente, mas, não quer dizer, que não tenha nos momentos colossais da vida política nacional, não tenha intervido directamente.
Não o fiz como político, mas como cidadão com as suas ideias e sua ideologia que é, naturalmente, uma ideologia chamada de esquerda, toda a gente sabe, e, portanto, não há que encobri-lo, fiz intervenção no MUD, fiz intervenção no Norton de Matos, e, fiz intervenção, depois, como sabe na Revolução de Abril.
Quando a polícia perseguiu o Coro durante a campanha de Norton de Matos, em Lisboa, quando muita gente levou pancada, inclusivamente eu, não me doeu muito, só doeu no dia seguinte.
O Coro foi muitas vezes ao Barreiro, nos primeiros anos do Coro, íamos com muita frequência ao Barreiro, mas, como sabe, o Barreiro foi muito batido em brecha, pela polícia, pela GNR, foi uma localidade ocupada, militarmente ocupada, depois, começaram também as colectividades a ter as suas dificuldades, as suas apreensões e, de facto, houve ali uma dezena, ou mais de uma dezena de anos, que nós não fomos ao Barreiro.
Acho que o encanto foi quebrado precisamente nesse ano, que referiu, antes da Revolução, nos Leças, no encerramento dos Jogos Juvenis do Barreiro.
Antes desta data de 73, não fomos mais vezes ao Barreiro, porque havia o receio e o medo que invadiram este país, e, frustrara todas as tentativas de convívio.
As sociedades eram pressionadas, tendo muitas delas o seus corpos gerentes presos, principalmente no Barreiro.»
Cultura e Cultura Popular
O que significa para si a música popular portuguesa?
« É uma manifestação de cultura do povo com as suas tradições, com as suas raízes, com as suas determinantes, com a sua vivência, é uma das manifestações da ( não gosto muito da palavra) alma, da vida, das alegrias, das tristezas, das ambições da vivência cultural, na sua medida, do povo português.
A música popular portuguesa é um património muito rico, em que se espelham a fisionomia do povo, a fisionomia amorosa, a fisionomia mística, religiosa, irónica.
A música traduz justamente essa vivência colectiva do nosso povo, cada região com a sua vivência, culturas diferentes, diversificadas, a cultura popular, chamada cultura do povo, eu, não gosto desse termo – “cultura popular” - a cultura é uma, tanto é do povo como é da Aristocracia.
As vivências culturais do povo Alentejano, são diferentes das vivências culturais ou da criação cultural do povo do Minho, assim como o Minho é diferente de Trás-os-Montes, e, é isso, que faz um pouco a riqueza da nossa música tradicional essa variedade de culturas.»
O amor pelo Alentejo
O que o leva a afirmar que gostaria de ser Alentejano?
« Muitas razões. Primeiro porque acho o Alentejano um povo muito esclarecido, muito inteligente, muito resistente, muito dado, sabe, não é fácil dar-se às primeiras, mas uma vez que se dá, dá-se mesmo.
É um povo muito esperto, muito gracioso. Gosto muito da paisagem alentejana, sobretudo do Baixo Alentejo e da sua música.
Tenho tido contactos como o Povo Alentejano desde há muitos anos, isso, tem sido para mim uma delícia, sem menosprezo para as outras etnias.»
Sentir a música alentejana
Há influência da música alentejana na sua própria obra?
« Certamente que há, como sabe, há as harmonizações, a multiplicidade de harmonizações, para o Coro, mas, não só para o Coro, também arranjos para orquestra, com base na música alentejana.
Mas não é só isso, é, porque o espírito da música alentejana, sem referir já ao documento mesmo etnográfico, inspira sempre muito as obras, digamos : a nostalgia alentejana, o sentir da extensão, o sentir da altura, digamos assim, da ombridade, creio que, isso, transparece em muitas das minhas páginas, embora, não tendo que ser, todas, necessariamente, páginas inspiradas, baseadas na música folclórica.»
As influências musicais
A propósito de influência poderemos dizer que na sua obra há influências de Wagner, Debussy, Shoenderg?
« Essa coisa de influências é um problema muito delicado.
Eu preferia que não se falasse, já de resto tive ocasião de me expandir de me alargar, nessa entrevista famosa, digo famosa no sentido, que foi o Mário que teve a teimosia de arrancar-me palavras e depoimentos que eu nunca pensaria em produzir.
O problema das influências, é muito melindroso, porque, influências toda a gente tem : é-se filho de alguém sempre, às vezes até de mais que um pai, na criação artística ou literária, etc.
Este, é, na verdade, um problema muito delicado, para abordar, assim, superficialmente, numa conversa destinada a um público que não sabe o que é isso de influências.
De maneira que é melhor não insistirmos neste problema, que não é um problema, é uma questão muito ampla, mas, não vale a pena falar nele porque é delicado e presta-se a muita confusão. Influência, de facto, directa é patente a da música tradicional portuguesa.
Dos compositores clássicos há influências, naturalmente, mas, misturam-se, combinam-se; assimiladas ou não assimiladas, de maneira que isso é um problema de alta estética musical que não vale a pena abordar aqui.»
Há fases na sua obra?
« Isso dizem sempre os críticos, não sei. Mas sabe, eu preferia que nós falássemos mais do nosso problema colectivo, sem abandonar a música, do que estar a repetir coisas que tenho dito tantas vezes e que custa a dizer, porque, repito, não gosto de falar da minha obra, da minha música, nem da minha pessoa.»
Música e Formação humana
Qual a influência da música na formação de um homem novo?
« A música, como qualquer outro aspecto da vida cultural e artística em tudo tem influência.
A música é uma das actividades mais aliciantes e aliciadoras, naturalmente, é preciso que o homem oiça música, perceba um bocadinho, tenha paixão, este homem, é mais vivo do que aquele que é indiferente à música.
Hoje, ainda há muita gente ilustre indiferente à música, mas, evidentemente, que é uma deficiência.
Quanto a mim ( não estou a puxar a brasa à minha sardinha), evidentemente, mas a música desde os tempos mais antigos foi sempre considerada um dos elementos e um dos factores principais da educação do homem, até mesmo, foi utilizada como factor de educação humana e, disciplina dada, pelo gozo da própria música e pela própria disciplina com arte.
A música é uma arte que implica grandes conhecimentos, principalmente próprios, auto-estudos, de matemática, física, sociologia, etc..»
A educação musical
Pensa que em Portugal há condições para o desenvolvimento da música?
«Condições? Bom, isso é um problema que andamos a debater há muitos anos neste país, e, que, infelizmente não me parece que tenha sido encarado, no bom sentido, depois da revolução, para se equacionarem as nossas questões musicais.
A educação musical, infelizmente, estou a ver, que a coisa, quase que estou em dizer, está pior que estava antigamente, por muitas e várias razões, que, talvez, não seja oportuno indicar. Eu posso estar errado.
Não quer dizer que seja uma coisa, uma actividade, que esteja a ser encarada muita a sério pelos nossos governantes, ou pelas pessoas que têm a missão de zelar, vigiar, orientar a causa pública.
Já tive ocasião de o dizer, e, tenho a impressão que, neste momento, estamos em maré baixa em questão da educação e da cultura musical.»
Música e Cultura
Pensa que o 25 de Abril não trouxe nada de novo para a música portuguesa?
«Não me parece. Resta saber o que é que se entende por música portuguesa.
A música portuguesa é tomada em muitos sentidos.
Se entendermos a música como actividade cultural, como o teatro, como a pintura... mas, se falarmos na música comercial, ela, é, uma chaga no nosso país, e, nos outros países, é uma chaga que está bem encaminhada, tanto para os negociantes, como para as pessoas que são protegidas por esses negociantes.
Seria melhor não falar nisso, sem menosprezo para ninguém, este é um problema de cultura, e, a cultura não pode encarar evidentemente a música de consumo.
A música, como actividade cultural não é de consumo, a não ser num ponto de vista superior. Não vejo influência nenhuma do 25 de Abril, na música portuguesa.»
Mas, acha que não criou condições novas?
« Não. Esboçaram-se condições novas, preceptivas novas, que não foram cumpridas, precisamente na educação, na reformulação do ensino da educação musical, foi tudo para o cesto dos papéis e continuamos na mesma desorientação, no mesmo aventureirismo.»
Saudades dos tempos de luta
Quer dizer que havia melhores condições para trabalhar antes do 25 de Abril?
«Na verdade nós fomos muito perseguidos. O trabalho foi-nos travado muitas vezes pelas instâncias oficiais, mas, enfim, ia-se para a frente porque esta era uma forma de luta, e de recuperação da nossa vida, da nossa cultura da cultura do povo.
Era uma luta também, quando há luta empenhamo-nos mais a fundo, mais apaixonadamente e havia resultados mais positivos.
Eu começo a ter saudades da luta, não quer dizer que não se vá lutando, em muitos outros sectores da vida nacional.
Tenho saudades da luta apaixonada, quando era preciso fazer tudo do nada, enfrentar todas as dificuldades, todas as perseguições.
Começo a ter saudades dessa luta, porque foi muito positivo e ajudou ao nascimento do movimento do 25 de Abril.
Hoje, muitos projectos de transformação da sociedade são travados.»
A última obra
Pode falar-nos da sua última obra?
« Está quase pronta. Não tenho nada que falar, é um “Requiem pelas vítimas do fascismo em Portugal”, que deverá ser executado pelo 5º aniversário do 25 de Abril.
Veremos se nada se oporá. Está quase pronta.»
Homenagem do Barreiro
Que significa para si a homenagem que o Barreiro lhe vai prestar?
«Não sei porquê. Mas, é muito simpático do Barreiro, uma vila, como já disse, com a qual tenho, eu e o Coro da Academia, relações de há muitos anos.
É um gesto muito simpático que eu aceito muito penhoradamente.
Não fiz nada pelo Barreiro, o que fiz pelo Barreiro foi o que fiz pelo nosso povo.
Tive alunos do Barreiro entre eles a Dulce Cabrita, e, talvez mais.
O Barreiro foi uma terra de resistência e nós ajudámos a resistência.
Aproveito para agradecer à Câmara Municipal do Barreiro e a toda a população este seu gesto.»
António Sousa Pereira
Fotos: José Encarnação ( Mini)










