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Cidade com Rostos

No BarreiroFaleceu hoje o “Bétinho Morgadinho”

Recebi, agora, aqui no jornal um comentário de uma leitora que informa : “Hoje o Bétinho morreu. O Bétinho era uma figura muito conhecida do Barreiro. Uma arrumador de carros muito valioso (útil), nas traseiras da Junta de Freguesia do barreiro, à Rua José Magro. Eu gostava muito do Bétinho.”
Ocorreu-me ao ler este apontamento, a última vez que viu o Betinho, ali, na Rua José Magro, sempre no seu posto, sempre a sorrir ou a mandar um qualquer “bitaite” sobre a vida e os acontecimentos.

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No Barreiro Faleceu hoje o “Bétinho Morgadinho”

Por Jornal Rostos

Foi há poucos dias que o meu olhar se cruzou com o seu olhar, ali, na Rua José Magro, onde era habitual estar presente na sua função de “arrumador de carros”.
Foi sempre prestável, educado, com um sorriso, quer lhe dessem uma gratificação, que não, ele procurava cumprir com zelo e dedicação a função “profissional” que lhe garantia a sobrevivência.
Sem descontos. Sem Segurança Social. Ali estava todos os dias, a cumprir o seu horário e missão.
O “Betinho Morgadinho” é uma figura que marca a nossa realidade local, como muitas outras, a nossa recordação de lugares e sítios. Ele, ali, na José Magro ou na Elias Garcia, outros noutros lugares.
Certamente que quem reside na Rua José Magro, na Elias Garcia, ou trabalha no Centro de Emprego do Barreiro, na Câmara Municipal do Barreiro ou na Junta de Freguesia do Barreiro, na Império Seguros, ou outras empresas naquela zona, vai sentir, nos próximos tempos a ausência, o lugar vazio que fica na memória dos gestos, dos acontecimentos, que forjam o nosso quotidiano.
Muitas vezes, e assim que acontece, só quando sentimos o vazio e a ausência, é que notamos algo que, muitas vezes, nos era desapercebido, de repente brota, na memória como um vazio.
A escrever este texto. Recordei de súbito aquele ceguinho que, em tempos idos, todos nós escutávamos, ali na Rua Miguel Bombarda, ou na Alfredo da Silva, com aquela voz sonante e única : “È Nataaal.É nataaalll.” Todos os anos, pelo Natal, quando ando por ali, na procura de uma prenda, aquele som cresce em eco dentro de mim, sinto-o emergir da paisagem e nas memórias do tempo.
Recebi, agora, aqui no jornal um comentário de uma leitora que informa : “Hoje o Bétinho morreu. O Bétinho era uma figura muito conhecida do Barreiro. Uma arrumador de carros muito valioso (útil), nas traseiras da Junta de Freguesia do barreiro, à Rua José Magro. Eu gostava muito do Bétinho.”
Ocorreu-me ao ler este apontamento, a última vez que viu o Betinho, ali, na Rua José Magro, sempre no seu posto, sempre a sorrir ou a mandar um qualquer “bitaite” sobre a vida e os acontecimentos.
Não vou dizer que gostava ou não gostava do Betinho. Ele foi, durante alguns anos, uma presença do meu quotidiano. Não posso dizer que era seu amigo. Cumprimentava-o muitas vezes, e, talvez, nem sempre tivesse lhe prestado a solidariedade que ele merecia.
Sinto, agora, com esta notícia, que, afinal, a sua morte, toca-me, como um pouco da minha memória, dos meus dias, é rasgado com a sua partida.
Aquela rua vai ficar com um vazio. Aquele espaço vai deixar de ver aqueles braços a gesticular, ou a dizer – “Está aqui um lugar!”
Betinho vivia para sobreviver. Mas vivia de cabeça erguida. Era rei do seu destino, senhor da sua vontade, com, talvez, um único sonho, acordar todos os dias e ganhar o suficiente para manter o seu “sonho”.
Quantos Betinhos há nesta vida. Alguns até, nas empresas e instituições.
Talvez, seja hora, de dar uma atenção a outros Betinhos que existem no Barreiro e ver, porque formas e meios, podiam ser ajudados a viver a vida com mais amor e entrega, até, nessa actividade de arrumador “voluntário” que exercem e prestam um serviço à comunidade.
Mas, enfim, é como tudo na vida. Somos maus. Temos defeitos. Existimos e a vida passa ao lado. Morremos. Somos bons. Eramos daquele feitio, mas até éramos boas pessoas.
O Betinho faleceu. Agora muitos vão sentir a sua ausência e guardar na memória os seus gestos e a sua veia comunicativa.
Amanhã, ao chegar à Rua José Magro, certamente, à memória vai ocorrer aquele presença, omnipresente, do Betinho – “o arrumador da Elias Garcia”.
Até amanhã, que, todos nós vamos um dia partir para junto de ti…
Um abraço.

António Sousa Pereira

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