Barreiro - Rui do Vale“Um sonhador que fazia por concretizar os sonhos”
“O sonhador que fazia por concretizar os sonhos” e que lhes deixou uma lição de vida: a sua capacidade de ver “as dificuldades como males necessários”. Hoje a família empenha-se em concretizar o desejo de Rui do Vale, continuar com o negócio que há 30 anos deu forma.

Por Jornal Rostos
Rui do Vale nasceu em São Romão, no concelho de Seia, e aos 24 anos veio para o Barreiro, para junto de um dos cinco irmãos. Começou a trabalhar com o irmão numa pequena oficina e Fernanda do Vale, a sua esposa, acha que foi assim que o marido “tomou o gosto pelos automóveis”, o que o levou a iniciar-se num negócio e a criar a empresa Alves & Rui a 1 de Maio de 1978, dedicada ao ramo de acessórios e peças, porque era “um sonhador que fazia por concretizar os sonhos” e porque “gostava de ir mais além, no seu negócio”, conta Fernanda.
“O meu pai referia-se à empresa assim: ‘cá em casa’”
Passaram 30 anos e de três trabalhadores, Alves & Rui tem hoje cerca de 20 e é líder distrital na distribuição de lubrificantes. Quanto ao que explica o êxito da empresa, as razões são várias. Fernanda diz: “o meu marido quando realizava algo, concretizava-o e era um negociante por excelência”. As duas filhas, Rita, de 27 anos e Vânia de 30 entendem que o bom ambiente dentro da firma é outra razão que explica essa afirmação. “Funcionava como uma família”, diz Vânia, ao que acrescenta: “o meu pai referia-se à empresa assim: “cá em casa”. Uma segunda casa em que Rita refere “os empregados não eram empregados, eram colaboradores, pessoas que o ajudavam a construir a empresa”.
”Foi muito bom para ele sentir em vida o reconhecimento do seu trabalho”
A 28 de Junho de 2007, Alves & Rui foi reconhecida pela Câmara Municipal do Barreiro com o Galardão na Área da Empresa, uma ocasião que a família não esquece. “Foi dos momentos mais importante que tivemos e para o meu marido em particular, porque nessa altura já estava doente, tinha sido operado há mês e meio”, recorda. Uma distinção que a família diz ter dado uma grande felicidade e muita força numa altura tão difícil para Rui do Vale. ”Foi muito bom para ele sentir em vida o reconhecimento do seu trabalho. Nós sabíamos que as pessoas gostavam dele mas ele assim também o soube”, refere Vânia.
“A única coisa que tinha certa era que não queria sair daqui do Barreiro, adoptou esta cidade como a dele”
No Barreiro era reconhecido também pela sua meritória responsabilidade social, o que a família diz fazer parte da “sua maneira de ser”. Um apaixonado pelo desporto, com o Sporting no coração, não hesitava em ajudar as colectividades do concelho e é a filha mais nova, que se recorda de acompanhar o pai nas idas ao futebol, que frisa: “não sendo nascido no Barreiro, concentrou as forças no desenvolvimento da cidade” e Fernanda acrescenta: “foi isso que criou o Rui do Vale”. Chegou a criar o Grupo Desportivo Alves & Rui, contribuído para o desenvolvimento da modalidade de futebol de salão no concelho, e era fundamentalmente o futebol de salão e as corridas de karts que mais o fascinavam. Também no tempo da BARRIND e nas Festas da Freguesia de Santo de André mostrava-se disponível para fazer “tudo o que fosse para o bem da terra”, realça Rita, ao que acrescenta: “a única coisa que tinha certa era que não queria sair daqui do Barreiro, adoptou esta cidade como a dele”.
“O meu pai sempre disse isto: ‘todos os compromissos que assumisse tinha de os levar até ao fim’”
Outra característica que apontam a Rui do Vale era a sua capacidade de ver “as dificuldades como males necessários”, como contributos à aprendizagem e ao crescimento, o que dizem ter estado patente até na forma como encarou a doença. “Sempre teve esperança de viver e isso ajudou-o, mesmo doente acreditou que se ia curar e mesmo quando a doença o obrigava a ficar em casa, ele ligava diariamente para aqui, sempre preocupado.” Cedo perceberam que era a empresa que também lhe dava forças para acreditar: “ Nas consultas ele dizia que o que o fazia viver era isto. Era saber que tinha pessoas à sua responsabilidade e que tinha um compromisso para assumir. O meu pai sempre disse isto: ‘todos os compromissos que assumisse tinha de os levar até ao fim’, fosse que sacrifício tivesse de fazer”, lembra Rita, ao que Vânia sublinha: “Era o feitio dele. Levava a palavra até ao fim.”
“Seguir o sonho dele que também é um pouco o nosso e continuar a caminhar, de cabeça erguida”
Para as duas filhas, Rui do Vale deixou-lhes uma lição de vida que teimam em guardar. Enquanto encontram em cada recanto da empresa a recordação de um gesto, de uma frase, de várias expressões do mesmo rosto, não esquecem o que Rita soltou em palavras: “lembro-me de o meu pai dizer que as coisas só se conseguiam com honestidade, empreendedorismo, sacrifício e principalmente cumprindo sempre com os compromissos e que tinha muito orgulho no que era e no que tinha conseguido e que não queria parar.” E é isso que prometem: “Vamos pegar naquilo que ele nos deixou e tentar dinamizar, porque ele era uma pessoa muito dinâmica”. Com o objectivo de: “seguir o sonho dele que também é um pouco o nosso e continuar a caminhar, de cabeça erguida.”
“Vou continuar no Barreiro, nesta firma com as minhas filhas e cumprir o que o meu marido me pediu”
Hoje a família empenha-se em concretizar o desejo de Rui do Vale. Fernanda diz que é também nesse compromisso que encontra força para lidar com a dor: “Vou continuar no Barreiro, nesta firma com as minhas filhas e cumprir o que o meu marido me pediu, que avançasse com a empresa e que a dinamizasse com honestidade, vontade, gosto, honradez e sobretudo tendo em conta que o trabalho não existe se não existirem os trabalhadores”.
“Lembramo-nos das palavras dele, dos sonhos, das vontades”
Rui do Vale faleceu com 58 anos, de doença prolongada. A família agradece as acções de carinho manifestadas: “Foram muitas as pessoas que se lembraram de nós neste momento difícil”.“É incrível a quantidade de pessoas que tem memória do meu pai aqui no Barreiro”. Um homem que deixou em torno do seu nome credibilidade, consideração, reconhecimento, afeição e as memórias. “Lembramo-nos das palavras dele, dos sonhos, das vontades”.
Andreia Catarina Lopes










