Até sempre, caro Provedor Júlio Freire«Barreiro nunca esquecerá este seu filho corajoso e inconformado»

Por Jornal Rostos
Divulgamos o texto integral do elogio fúnebre proferido pela Vice-Provedora da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, Sara Bernardina Xavier de Oliveira, na parte final das cerimónias que levaram milhares de barreirenses à Capela da Misericórdia e à Igreja de Santa Cruz:
Boa tarde caros amigos,
Neste momento agridoce para quem teve o privilégio de conhecer o Provedor da Misericórdia do Barreiro Júlio Guilherme Lopes Freire, as minhas primeiras palavras são dirigidas à família mais próxima aqui representada pela sua esposa, a Professora Manuela Martins, e pelos seus filhos, Cláudia Freire e Luís Freire.
Curvamo-nos respeitosamente perante a profundidade da vossa dor e assumimos o compromisso público de procurarmos estar à altura da memória do vosso ente querido.
Como o Largo de Santa Cruz, nenhum local merecia tanto receber os milhares de pessoas que, desde ontem, aqui estão a prestar um merecido tributo à vida de um homem que amou tanto a cidade que o viu nascer.
Como todos sabem, foi a poucos metros deste lugar que a Misericórdia do Barreiro foi criada e foi também nestas ruas estreitas que o Dr. Júlio Freire viveu grande parte da sua juventude, em tempos tristes e injustos que só podiam ser iluminados pela alegria das crianças e pela esperança dos jovens que viveram essa época.
Era com certeza por isso que, tantas vezes, aqui regressava o Provedor da Misericórdia, para retemperar forças junto a este casario humilde, e contemplar o lento bailado do rio Tejo que nunca deixou de lhe aquecer a alma mesmo nos períodos mais difíceis e conturbados.
Nesta despedida dolorosa, é impossível não recordarmos o homem de causas e convicções inabaláveis que o Dr. Júlio Freire sempre demonstrou ser. Foi o sacrifício dos seus melhores anos de vida que permitiu que pudéssemos agora conhecer a cor da liberdade de que nos falou Jorge de Sena e matar a fome de justiça por que tantos homens e mulheres clamaram durante mais de 48 anos em Portugal.
Nos calabouços da Pide e nas prisões do fascismo, este homem de vontade inquebrantável soube construir um esplendoroso poema vivo ao sonho da democracia. Mesmo com o corpo fustigado pela tortura, o seu espírito resistiu sempre e iluminou com o seu exemplo um país que se vestia de cinzento e vivia amordaçado.
É por isso que o Barreiro nunca esquecerá este seu filho corajoso e inconformado.
Mas também nunca deixaremos que se apague da nossa memória o cidadão interventivo que o Dr. Júlio Freire foi em democracia, nem a sua intensa devoção à causa do bem público. Como Vereador na Câmara Municipal do Barreiro, a sua única preocupação foi servir o interesse comum, abraçando as causas dos mais pobres e lutando pelo desenvolvimento da cidade por que tanto trabalhou e lutou. Os inúmeros trabalhadores da autarquia que, neste dia de comovida despedida, nos acompanham são a prova inequívoca da marca que este homem singular deixou nos seus percursos profissionais.
Foi precisamente este espírito que o Dr. Júlio Freire transportou para a Misericórdia do Barreiro, durante as quase duas décadas em que foi provedor desta instituição. Graças ao seu esforço incansável, a Santa Casa cresceu incomensuravelmente, tornando-se no maior empregador privado do concelho e um porto de abrigo para todos aqueles que nos procuram em momentos de sofrimento e de angústia.
Com o Provedor Júlio Freire, nenhum barreirense deixou a nossa casa com fome, nenhum idoso deixou de ser acarinhado na doença ou alguma criança deixou de sentir o nosso abraço protector e terno perante a crueldade do mundo lá fora.
É por todas estas razões que sentimos com maior emoção o lento e comovido adeus que estamos agora a terminar. A vida ceifou o sonho do Dr. Júlio Freire em participar na inauguração da Unidade de Cuidados Continuados que tanto empenho revelou em ver concluída.
Saibamos agora unir-nos em torno da Misericórdia do Barreiro e prestar a derradeira homenagem de honrar a sua determinação e bondade inabaláveis.
Nas palavras inquietas do escritor Miguel Torga, podemos encontrar um retrato aproximado do nosso querido amigo Júlio Freire que, em tantos momentos da sua vida, soube ser o Orfeu Rebelde de que nos falou o poeta quando disse:
"Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do Tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.
Outros, felizes, sejam rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Saibam que há gritos como há nortadas
E violências famintas de ternura."
Ao contrário de outros, o Barreiro que nós somos ficará eternamente reconhecido a este homem bom e corajoso. Até sempre, caro Provedor Júlio Freire.
Barreiro 30 de Junho de 2012
Sara Bernardina Xavier de Oliveira
Vice-Provedora da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro










