Capgemini European Energy Market Observatory: instabilidade nos mercados do gás e da energia elétricacoloca em risco a segurança do fornecimento de Energia na Europa
Por Jornal Rostos
As principais conclusões do estudo revelam que a liberalização dos mercados do gás e da energia elétrica, aliada a uma crise económica persistente, e à implementação do pacote de medidas Energia - Clima da União Europeia, que promove o rápido desenvolvimento das energias renováveis, estão a perturbar profundamente os mercados do gás e da energia elétrica na Europa. Esta situação de instabilidade representa uma potencial ameaça ao abastecimento seguro de energia nesta região a curto e a longo prazo.
Há vários fatores na origem desta situação de instabilidade, que atinge clientes, empresas e operadores da área das Utilities, na Europa. Nomeadamente:
1. A crise económica
A crise económica foi o primeiro e o principal fator responsável por toda esta turbulência, tendo-se repercutido negativamente nos consumos de gás e energia elétrica, com particular ênfase nos clientes industriais.
Em 2012 o consumo total de energia elétrica na Europa diminuiu 0,2%. Este decréscimo acentuou-se no primeiro trimestre de 2013 (-1,2% por comparação com os valores registados no período homólogo do ano transato). O consumo de gás sofreu uma queda ainda mais significativa, registando uma quebra de 2,2% em 2012. No entanto, nos primeiros três meses deste ano os níveis de consumo estabilizaram.
2. O pacote de medidas Energia - Clima da União Europeia
Em segundo lugar, o objetivo definido pelo pacote Energia - Clima da UE de até 2020 as energias renováveis representarem cerca de 20% do total do mix de consumo de energia na Europa, impulsionou o desenvolvimento dos projetos das energias renováveis no espaço europeu, pressionando ainda mais as centrais a gás. Dado que os investimentos nas energias renováveis são subsidiados, os seus custos operacionais são bastante reduzidos e, por isso mesmo, gozam de uma posição muito atrativa na produção de energia elétrica, por comparação com as centrais a gás, onde os custos de produção são extremamente elevados.
Nos países da União Europeia que mais desenvolveram as energias renováveis, a taxa média de utilização das centrais a gás diminuiu consideravelmente: em Espanha, na primeira metade de 2013, a taxa de utilização baixou para os 11%; já na Alemanha esta taxa foi inferior a 21% em 2012, valores muito abaixo dos 57% considerados pela Agência Internacional de Energia como o valor mínimo para assegurar a rentabilidade das centrais a gás.
3. O crescimento no mercado de gás norte-americano
O desenvolvimento exponencial dos vários tipos de gás não convencional do outro lado do Atlântico levou a uma redução significativa do preço do gás nos EUA, e contribuiu para a recuperação da economia americana . O gás, graças ao seu baixo preço, substituiu o carvão nas centrais alimentadas com combustíveis fósseis, e passou a haver um excedente de carvão no mercado dos EUA que começou a ser exportado para a Europa provocando por seu turno uma redução do preço do carvão neste mercado na ordem dos 30%, entre Janeiro de 2012 e Junho de 2013. Esta redução de preços aumentou a competitividade das centrais a carvão na Europa, que passaram a ter uma taxa de utilização superior à das centrais a gás .
De acordo com o Observatório Europeu do Mercado da Energia da Capgemini as consequências que decorrem desta instabilidade nos mercados do gás e da energia elétrica na Europa são preocupantes:
1. Encerramento das centrais a gás
Os maiores impactos desta situação estão a fazer-se sentir na Europa com o encerramento de várias centrais a gás. Um estudo recente de IHS estima que várias centrais a gás, que correspondem a 130.000 MW (milhões de watts) de capacidade produtiva de energia elétrica (quase 60% da capacidade instalada da Europa), não estão a conseguir cobrir os seus custos fixos, correndo o risco de virem a encerrar em 2016 . Estas centrais, essenciais para garantirem a segurança do abastecimento de energia elétrica nas horas de maior consumo, estão a ser substituídas por centrais de energias renováveis, fortemente subsidiadas, mas possuidoras de uma capacidade de produção volátil e imprevisível.
2. O peso das subvenções nas energias renováveis
Ainda que muitos governos tenham revisto em baixa as suas políticas de apoio às energias renováveis o seu crescimento no mix energético na Europa potenciou um aumento contínuo do valor dos subsídios atribuídos, facto que está a pesar excessivamente nas finanças dos Estados que estão endividados. Sobretudo nestes países, estes subsídios, que se refletem no preço final da energia elétrica, constituem um grave problema uma vez que se repercutem no nível de vida dos consumidores já de si afetado pela crise económica. Por exemplo, na Alemanha o EEG Levy aumentou de €1.31/kWh em 2009 para €5.28/kWh em 2013, o que representa um acréscimo de mais de 18% nos preços do consumo doméstico de energia elétrica .
3. Descida nos preços dos certificados de emissão de CO2
O Observatório Europeu do Mercado da Energia da Capgemini salienta que outro grande problema no setor é o dos preços dos Direitos de Emissão de CO2 atualmente muito baixos, e que desvalorizam o investimento em tecnologias menos poluentes que não emitam gases com efeito de estufa. Em cinco anos, os preços de emissão de CO2 desceram de €20/t em 2007, para menos de €5/t em Agosto de 2013. Comparando com os preços estimados para a implementação de sistemas de CCS competitivos (€40-55/t para centrais a carvão e €80-110/t para centrais a gás ), o preço atual de emissões de CO2 é preocupantemente baixo.
4. Pressão financeira sobre o sector das Utilities
O preço da energia elétrica no mercado a retalho baixou (- 8% em 2012 por comparação a 2011) e tem vindo a registar comportamentos erráticos, a que acresce quer a redução dos picos dos preços positivos, quer o aumento dos picos dos preços negativos. Como resultado, a indústria das Utilities começa a enfrentar dificuldades financeiras. As receitas estão a descer estruturalmente, como recentemente referiu Peter Terium, CEO da RWE: “80% das receitas da empresa irão desaparecer nos próximos 2 a 3 anos”.
As margens EBITDA das Utilities também estão a ser esmagadas para tal concorrendo a deterioração das margens de produção de energia, o aumento do excesso de capacidade devido à estagnação do consumo, e o aumento crescente da carga fiscal.
5. Investimentos Críticos sob ameaça
O Observatório da Capgemini revela também que para garantir o fornecimento seguro de energia na Europa a longo prazo, e sem deixar de ser competitiva, a indústria das Utilities terá que apostar num forte investimento em infraestruturas. Estes investimentos incluem a substituição das centrais a gás ou carvão que estão a encerrar , e principalmente a construção de novas redes de transmissão de energia elétrica, de modo a permitir a implementação das novas políticas de transição energética.
Estes projetos de investimento em infraestruturas correspondem a períodos médios de implementação de 5 a 10 anos, mas o sector das Utilities pode ser obrigado a confrontar-se com um novo problema, além dos anteriormente referidos, caso a economia e o consumo comecem a crescer novamente.
Até 2020, o valor dos investimentos deverá rondar os €1.000 mil milhões . No entanto, face às incertezas com que se confronta o mercado, e dado o volátil ambiente regulatório, com as empresas de Utilities a enfrentarem algumas dificuldades financeiras, o Observatório da Capgemini refere a possibilidade dos investimentos não se virem a realizar dentro do prazo necessário.
Recomendações do Observatório para os mercados da energia na Europa
Segundo o Observatório é urgente proceder a uma reforma radical dos mercados energéticos. As mudanças necessárias passam por reformar o sistema de ETS de modo a incluir algumas normas relacionadas com o mercado, ou replicar o modelo do Reino Unido no que diz respeito a estabelecer um preço mínimo para o CO2.
Além disso, é recomendável a criação de mercados com capacidade de coordenação a nível europeu. É necessário implementar um novo modelo de mercado que pelo menos permita o financiamento das redes inteligentes.
Por último, o Observatório sugere que se estabeleça um ritmo mais razoável para o crescimento da capacidade instalada das energias renováveis, e que se limitem os níveis dos subsídios atribuídos.
Colette Lewiner, especialista global da Capgemini em Energia e Utilities, afirma: “A presente situação configura-se como um alerta à segurança do abastecimento de energia elétrica na Europa. As centrais a gás, que são capazes de lidar com picos de consumo, estão a ser encerradas. As nossas reservas, como o gás armazenado em reservatórios no subsolo, estão a níveis significativamente mais baixos do que nos anos anteriores. No curto prazo, estes factores significam que um Inverno rigoroso poderá vir a criar sérios problemas de equilibro no fornecimento e na utilização da rede elétrica. Ao mesmo tempo, o crescimento das energias renováveis e o preço baixo dos Direitos de Emissão de CO2 provocaram uma redução no preço base da energia elétrica, exercendo uma enorme pressão sobre as margens de rentabilidade na indústria das Utilidades”.












