Carlos Humberto, presidente da Câmara Municipal do BarreiroContinuo a considerar que a utopia é um bem da nossa civilização
“Continuo a ter utopias. Continuo a lutar por utopias e continuo a considerar que a utopia é um bem da nossa civilização, da nossa reflexão e do nosso pensamento e do sonho. E não considero que ser utópico é contraditório com o olhar a realidade e interpretá-la”, afirmou Carlos Humberto, prsidente da Câmara Municipal do Barreiro, no decorrer da sessão que assinalou a abertura do programa «O Regresso das Bandeiras». .

Por Jornal Rostos
Divulgamos o texto integra da intervenção do Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, Carlos Humberto de Carvalho, em 14 de dezembro, no Espaço Memória, por ocasião da Abertura das comemorações:
«Boa tarde e bem-vindos ao Barreiro (os que não são do Barreiro) e bem-vindos ao Espaço Memória, 80 anos depois, da madrugada do dia 28 de fevereiro de 1935, em que vários homens colam por toda a Vila do Barreiro e Lavradio manifestos e tarjetas “Contra a guerra imperialista e o fascismo”, “Contra a ditadura de Salazar”, pelo apoio ao “Socorro Vermelho Internacional”, pela “Jornada de 7 horas sem redução de Salários”, entre outras reivindicações.
Colam em portas, paredes, janelas, candeeiros. Às centenas.
As mesmas frases, pintam-nas a preto em várias paredes.
Na mesma noite, foram hasteadas bandeiras vermelhas em algumas das principais ruas do Barreiro. Na Rua Heliodoro Salgado, na Rua Joaquim António Aguiar, na Avenida da Bélgica (atual Av. Alfredo da Silva), na Rua do Campo do Luso e na Rua Miguel Bombarda (Lavradio).
Mas a maior surpresa guarda-a a Chaminé das Oficinas Gerais da CP. Bem no topo dos seus 36 metros, ondulava ao vento uma bandeira vermelha na qual alguém pintara uma foice e um martelo e as iniciais P.C.P.
Nessa noite, durante as últimas horas da madrugada, a GNR percorrerá todo o concelho, arrancando tarjetas e manifestos, cobrindo com cal as inscrições nas paredes, retirando as bandeiras hasteadas nas ruas.
Restará a Chaminé das Oficinas Gerais da CP. Aí, a bandeira vermelha hasteada durante a noite lançará o seu desafio até meio da manhã. Toda a Vila a vê. Não há como apaga-la.
Serão precisas equipas técnicas da C.P. para subir os 36 metros da Chaminé das Oficinas Gerais e retirar a bandeira vermelha.
Já era tarde.
Este episódio, das Bandeiras Vermelhas, será recordado durante gerações, tornando-se parte inalienável da memória coletiva do Barreiro e do seu papel na resistência ao regime fascista do Estado Novo.
Nele, encontra-se a coragem de um punhado de barreirenses que afrontou a ditadura salazarista, numa época em que qualquer manifestação de resistência ao regime representava o sacrifício da liberdade, ou risco da própria vida, com a determinação do Partido Comunista Português para, num quadro de duríssima repressão, indissociável do crescimento do nazi-fascismo na Europa e da publicação da Constituição de 1933 em Portugal, levar a efeito na vila operária do Barreiro uma surpreendente ação de agitação e protesto.
Cabe a cada um de nós, a todos, travar a batalha da memória. Cabe, naturalmente, às autarquias dar voz ao tempo e aos homens, também dando memórias aos que não a têm ou aos que vão vendo a sua memória apagada e esquecida. É uma das funções deste espaço (Espaço Memória) onde nos encontramos. Com ele assumimos papel ativo, defendemos a Administração Pública na assunção de políticas de valorização da memória. Entendemos que passos como este assumem importância na formação da nossa identidade e na compreensão dos alicerces dos projetos societários nascidos da Revolução de Abril. Confiamos, que defendendo e valorizando a memória, tornamos possível e efetiva a transmissão às gerações presentes e vindouras de experiências e percursos culturais concretos.
Foi há relativamente pouco tempo que “descobrimos” as bandeiras.
Trabalhando outros temas, encontrámos na Torre do Tombo, nos arquivos da PIDE, o “Processo das Bandeiras” como ficou conhecido.
Lá estava tudo. Os processos da polícia, os folhetos, as tarjetas, os relatos e, por último, algumas das bandeiras.
A nossa memória estava ali. À nossa frente.
Era imprescindível resgata-la.
Era urgente fazer-lhe perguntas. Deixá-la respirar. Ouvir-lhe as respostas.
Aquilo que propomos hoje - o Regresso das Bandeiras – é, para nós, a múltiplos títulos, um ato pleno de significado.
Mais que o regresso daquelas bandeiras, em concreto, ao local do seu nascimento enquanto atores duma história identificável e contável (um local que marcou e foi marcado pelo seu potencial simbólico), assinalamos o regresso de um tempo de bandeiras.
Tomámos o nosso lugar na construção de um tempo de ideais. Assumimos a urgência de um tempo de ideias.
Partimos para o debate. Qual o papel da memória? Como nascem e vivem os mitos, e o que são? Que força, que sentido há neste ato praticado há 80 anos? Que contextos, então e agora? Que agentes? Que caminho? Que resistências?
E este encontro ganhou um sentido reforçado à medida que fomos percebendo que ao nosso entusiasmo se somou o do Arquivo Nacional da Torre do Tombo a quem, na pessoa do seu diretor, é imprescindível dirigir um enorme agradecimento.
O conjunto de comemorações que hoje se inicia, e que se estenderá ao longo do primeiro semestre de 2016, só é possível graças a ele. A própria ideia que está na origem deste ato inaugural – a entrega simbólica do Processo das Bandeiras em suporte informático, para que o Município do Barreiro possa, igualmente, disponibilizá-lo a investigadores, estudantes e a interessados na história, sugerida pelo Dr. Silvestre Lacerda, é um exemplo claro desta vontade de trabalhar em conjunto, de construir e de partilhar. Muito Obrigado.
Durante este processo e ao longo dos próximos meses procuraremos associar estas comemorações a todos os que de alguma forma sintam que os seus interesses, objetivos, histórias e campos de trabalho e de intervenção se cruzam com os nossos e com o significado destas comemorações.
E aqui deve ficar também um primeiro agradecimento ao grupo de teatro Vigilâmbulo Caolho que se juntou a nós de imediato, que hoje está aqui connosco, que no passado sábado, distribuiu clandestinamente e com grande sucesso, penso, pois nenhum dos agitadores foi detido, propaganda revolucionária a convidar para o ato que hoje aqui estamos a fazer.
O Movimento Associativo local, a Comunidade Educativa, os meios universitários, organizações de trabalhadores, os familiares de intervenientes diretos nestas ações de há 80 anos, entes públicos e privados. A nós, aos que se nos juntaram, depara-se-nos um enorme desafio. Construir e concretizar soluções arrojadas que contribuam para uma maior visibilidade, divulgação e interesse, em torno das linhas de trabalho desenvolvidas. Que contextualizem estes acontecimentos num tempo e numa história determinados. Que se aproximem de um produto mais alargado, que as tornem conhecidas e acessíveis, que fomentem a interrogação, o debate e o interesse. Que transforme a história e a nossa memória em matéria do presente e do futuro. Nós, mais do que estarmos agarrados ao nosso passado, precisamos de olhar e intervir no nosso presente.
O nosso maior desafio não é o nosso passado. O nosso maior desafio é o nosso presente e o nosso futuro. Não esquecendo o nosso passado, as nossas memórias, temos que intervir e refletir sobre o nosso presente. E este é um imenso desafio que se coloca a todas estas gerações.
E permitam-me fazer um desabafo. Continuo a ter utopias. Continuo a lutar por utopias e continuo a considerar que a utopia é um bem da nossa civilização, da nossa reflexão e do nosso pensamento e do sonho. E não considero que ser utópico é contraditório com o olhar a realidade e interpretá-la.
Ao longo dos próximos 6 meses é nossa intenção interrogar esta história, esta memória e a sua experiência em múltiplas perspetivas. Do teatro, do cinema, da música, da história, da antropologia, do debate, da visita aos locais que assinalam o desencadear destes acontecimentos, dos envolvidos, aprofundando o Fundo de História Oral do Barreiro e aproveitando todas as linhas de trabalho ao nosso alcance.
A muito breve trecho apresentaremos todo o programa das comemorações. Como próximo momento, retenhamos, para já, o dia 28 de fevereiro de 2016, data da inauguração, aqui, neste Espaço onde nos encontramos – o Espaço Memória – da exposição temporária, O Regresso das Bandeiras. Ponto de partida, para as restantes ações. Para este conjunto de iniciativas estão todos vós, desde já, convidados.
Muito Obrigado!»













