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Moldura

Os escravos do BarreiroPor João Naia da Silva
Barreiro

Não obstante ter sido um dos maiores fenómenos socioculturais da Europa entre o século XV e o século XVIII, a escravatura continua a ser vista actualmente como um marco negro da história mundial e, apesar de Portugal ter sido um dos países pioneiros na sua abolição, não pode ser esquecido que também foi dos primeiros e principais países a capturar, aprisionar, subjugar e comercializar mão de obra escrava desde os primórdios dos Descobrimentos.

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Os escravos do Barreiro Por João Naia da Silva Barreiro

Por Jornal Rostos

Utilizados para todo o tipo de trabalhos, desde os mais pesados aos mais depravados, não importava a idade com que eram capturados. Vinham em barcos sobrelotados e eram obrigados a fazer a viagem deitados de forma a fazer render espaço, viagem essa que durava dias, semanas e por vezes meses. Por essa razão muitos morriam ainda antes de chegarem ao seu destino. Ataques de pânico eram os principais responsáveis pela morte por histeria em massa que por vezes ocorriam dentro dos navios, mas a propagação de doenças era também muito facilitada com o constante contacto entre os escravos e a débil saúde que muitos já apresentavam. Ao chegarem a Portugal, eram vendidos em mercados próprios a qualquer pessoa que apresentasse dinheiro suficiente para os comprar. Os homens eram geralmente usados para trabalhos de carga, que exigissem uma grande força, já as mulheres eram utilizadas para o governo doméstico, onde ocupavam cargos de amas, criadas de servir, entre outros. Eram os últimos a deitar-se e os primeiros a levantar-se e geralmente não recebiam nada pelo trabalho a que eram obrigados a obrar durante, em muitos casos, uma vida inteira. A certa altura, ter-se um escravo tornou-se tão vulgar que até as classes mais baixas começavam a conseguir arranjar os seus próprios escravos. O mercado começou a ficar sobrelotado e começaram a valer menos dinheiro, o que facilitou a sua banalização e posterior aquisição para os mais devassos fins. Senhores de posses compravam famílias inteiras e depois usavam-nas para satisfação pessoal, muitas vezes de cariz massacrante e/ou sexual. Apenas em meados do século XVIII começaram a aparecer as primeiras leis que facilitavam a libertação de escravos, visando a sua total abolição nos anos conseguintes, algo que se mostrou fracassado, pois a total abolição como lei só ocorreu em definitivo no final da década de 1860, quase 100 anos depois das primeiras tentativas de extinção da escravatura como acto legal.

No Barreiro eram conhecidos vários escravos entre os quais se destacam a família de escravos de D. Faustina Maria dos Santos, viúva de Crispim da Silva e Faria que morava em Lisboa, mas os seus escravos viviam no Barreiro. Tomás de Faria e Joana Maria casaram a 2 de Março de 1753. Ele era um escravo natural da Costa da Mina, região da Guiné, mas teria sido baptizado na Baía, Brasil. Já ela só se sabe que era natural do “Reyno de Angola” e lá teria também sido baptizada. Contra o costume da igreja nesta época, o casamento ocorreu sem que fossem justificados os seus baptismos, a mando do próprio Cardeal Patriarca. Este casal de escravos, residentes na “Villa do Barreiro” tiveram nesse mesmo ano dois filhos gémeos de nomes Alberto e Caetana, cujo primeiro foi baptizado “sub conditione” porque já teria sido baptizado em casa “In articulo mortis”, ou seja, em eminente risco de vida. Outro caso notável foi o da escrava Luísa da Veiga que teve um primeiro filho natural de pai incógnito, mas negro, em 1760 que morreu nesse mesmo ano e voltou a ter um outro filho, em 1764, também de pai incógnito mas desta vez já registado como sendo um pai branco. Era escrava, imagine-se, do Padre José António Alves da Veiga, irmão do padre beneficiado da Paróquia. O último registo de óbito de um escravo na freguesia do Barreiro pertence ao escravo de Maria Baptista de Amaral, António Alves, que morreu a 20 de Abril de 1797 por resultado de uma possível paragem respiratória (“…por morer repentenam.te por huma sofocação”) e por não ter dado tempo de chamarem o pároco, morreu sem sacramentos nenhuns, ao contrário do que era habitual.

João Naia da Silva

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