UM BREVE RELANCE SOBRE AS OBRAS DE FERREIRA DE CASTRO *Por Ricardo António Alves (1)

Por Jornal Rostos
Ferreira de Castro foi essencialmente um romancista, simultaneamente um criador de mundos e um artista da palavra. Era na ficção narrativa, em especial no romance, que o seu estro melhor e mais completamente se manifestava.
Emigrantes (1928), é o romance inaugural, que traz para a literatura portuguesa a personagem arquetípica, ideia reforçada no título, colectivo e indistinto, e no qual o autor assume essa qualidade particular de romancista: a de «biógrafo […] das personagens que não têm lugar no mundo». E denuncia não apenas uma organização social iníqua, que obriga as pessoas à expatriação, como, em termos individuais, expõe à crítica a escravização do indivíduo à miragem do ter, da posse, da propriedade.
A Selva (1930) centra-se na figura de um jovem e preconceituoso exilado político monárquico português que se vê atirado para a brenha amazónica, contactando com seringueiros rudes ou violentos. A grande personagem é, no entanto, a própria floresta, que tudo subjuga. Psicologicamente há aqui muito de autobiográfico; é um livro escrito com as vísceras, em que o escritor dá tudo de si. A rápida internacionalização da obra é bem um sintoma da sua excepcionalidade de um dos grandes romances da literatura portuguesa.
Eternidade (1933) é um livro centrado na morte (experiência que sofrera havia pouco, com o falecimento de Diana de Liz), reflectindo com clareza o seu idealismo e as marcas do cientismo oitocentista que nunca abandonou, ao mesmo tempo que trata das duras condições de vida dos trabalhadores madeirenses. Foi um livro importante para a geração seguinte, em que pontificará Alves Redol.
Terra Fria (1934), passado no agreste e, então, primitivo ambiente do Barroso, mostra-nos, além duma mão bem afeita à reportagem, o seu interesse pelo homem primordial e isolado – tópico presente também quer nas viagens de Pequenos Mundos e Velhas Civilizações, como na forma como elabora sobre a tribo Parintintim em O Instinto Supremo. Como nos romances anteriores, o poder descritivo da paisagem é superlativo.
O Intervalo (1936/1974) é um romance passado na Andaluzia durante as revoltas operárias e camponesas de 1931 e 1933, reprimida violentamente pela efémera II República espanhola, acontecimentos a que Ferreira de Castro assistira e reportara como enviado especial de O Século. Neste romance é patente o desígnio de testemunhar para a História, sob uma forma ficcional; e é também uma homenagem a gerações de revolucionários, em especial anarquistas, agora que, após os últimos sobressaltos da Revolta da Marinha Grande e do atentado a Salazar de 1937, caíram num limbo em que se mantiveram não apenas durante o Estado Novo, mas também no pós-25 de Abril.
A Tempestade (1940) é uma muito conseguida excursão pelo tema da condição feminina em Portugal, em que a menorização das mulheres, em consequência do estado de dependência que era o seu desde que nasciam, se alia a um trabalho sobre o preconceito de que elas também eram vítimas, em especial no que respeitava à sua sexualidade. A forma como Castro trabalha o tempo da acção é de grande mestria.
A Lã e a Neve (1947) é talvez o seu mais perfeito romance, no que respeita à concepção e à forma. É um dos maiores romances do século passado. Deve, desde logo, salientar-se as quatro páginas do “Pórtico” – um exímio e seguro bosquejo histórico sobre a vida, a economia e a sociedade das populações à volta da Serra da Estrela. Aqui, o campo é visto sem nenhum bucolismo, ao contrário da cidade, fautora de mudança. É na cidade que os homens abrem os olhos e se organizam para se defenderem e reagirem ao Estado e a todas as prepotências que exerce ou permite, incompatíveis com a dignidade do indivíduo. É o romance preferido de Jorge Amado e António José Saraiva, por exemplo.
A Curva da Estrada (1950) é outro dos romances mais apreciados de Ferreira de Castro – entre os quais, Mário Dionísio e Urbano Tavares Rodrigues – pelo tratamento que dá a questões como a responsabilidade pessoal ou o envelhecimento. Passado também em Espanha, durante a II República, o protagonista é um membro histórico do PSOE, ainda no activo, mas em queda dentro do partido. Bandeira de uma geração de luta, o dilema que se lhe põe é o da continuação da sua vida política, agora como independente numa força da direita, e com isso trair a sua legenda, ou manter-se coerente, respeitando-se a si e aos que nele acreditaram. Centrado no manobrismo partidário, era sem dúvida um tema estranho num país que vivia em ditadura havia mais de vinte anos.
A Missão (1954) é uma curta novela e uma das jóias literárias do autor. Para Álvaro Salema, Castro atinge com ela o máximo da sua arte literária. Passado em França, em 1940, numa missão religiosa, também aqui se põe um dilema ético à comunidade, colocada inopinadamente no centro do conflito mundial que deflagrara. O que está em causa é a escolha moral que os frades devem fazer: porem-se ao abrigo das garantias de salvaguarda que lhes dava o acordo estabelecido entre o Vaticano e as potências beligerantes – e que naquela situação concreta poderia implicar um risco acrescido para as populações que, bem perto, viviam e trabalhavam numa fábrica implicada no esforço de guerra francês; ou se, pelo contrário, deveriam estar na comunidade, partilhando o seu destino. E aqui, o libertário, põe em confronto o indivíduo em face do grupo.
A Experiência (1954) Um romance de grande beleza e intensidade psicológica, quase confidencial, pois a circunstância de até recentemente ter figurado no mesmo volume de A Missão, sem sequer uma referência na capa, fez com que muito poucos tenham dado por esta narrativa modelar, moderna na sua estrutura, com vários planos espácio-temporais, mostrando que, como qualquer grande escritor, Ferreira de Castro não queria dormir à sombra dos louros conquistados, procurando superar-se de livro para livro. A acção passa-se numa cadeia e num bordel, e conta a história de um homem e uma mulher que, (não-)educados no mesmo asilo para crianças necessitadas, caem na marginalidade que a sociedade reserva a quantos estão nas suas circunstâncias.
O Instinto Supremo (1968). O último romance de Ferreira de Castro, catorze anos depois de A Missão e de A Experiência, é um regresso ficcional à Amazónia, aonde o escritor jamais teve coragem de voltar. Baseado na acção de Rondon, o general mestiço que pacificou a tribo Parintintim, apresenta o escritor no apogeu da maturidade, ensaiando aqui um pouco do que hoje poderíamos chamar de romance histórico, recriando a acção das expedições do antropólogo alemão Curt [Unker] Nimuendajú para estabelecer contacto amistoso com essa tribo caçadora de cabeças, que tanto aterrorizara o jovem Ferreira de Castro, durante a estada no seringal. Creio que será o primeiro romance da literatura portuguesa a ostentar uma tábua bibliográfica no final.
Sobre o nosso autor, escreveu Robert Bréchon estas palavras definitivas: «Ele é também o romancista da Subjectividade, da consciência de si, da solidão das consciências e do seu confronto – sem dúvida o aspecto mais subtil e mais profundo da sua obra.» Referindo-se ao milagre da literatura, Bréchon pôs Ferreira de Castro nas melhores companhias: «[…] basta um Stendhal, um Flaubert, um Tólstoi, um Thomas Hardy, um Martin du Gard, um Ferreira de Castro, para que nos sintamos um pouco menos miseráveis e menos sós sobre a terra.»
Do ponto de vista filosófico, se quisermos uma boa síntese da obra de Ferreira de Castro, ela pode resumir-se a duas palavras, que foram ditas em público, num comício do MUD, em 1946, e ditas na campanha eleitoral de Norton de Matos, um resumo do ideário libertário castriano, e que são amor e liberdade: Amor, «a suprema razão de ser do mundo»; liberdade, «a mais nobre aspiração» do Homem.
Obra problemática e de problematização, o legado de Ferreira de Castro, é susceptível de múltiplas abordagens nos vários domínios do conhecimento humano, permanecendo intacto o prazer da sua leitura, como Agustina Bessa Luís teve o ensejo de escrever: «Assim são os livros de Ferreira de Castro: como uma árvore que amamos, de muito a ter absorvido na paisagem e no lugar da nossa vida.»
Foto - Ricardo António Ales no uso da palavra na Conferência “Ferreira de Castro: Que realismo?”, no AMAC, Barreiro, no passado sábado 23 Outubro 2021
*Excerto do texto da Conferência “Ferreira de Castro: Que realismo?”, proferida no AMAC, no Barreiro, em 23 de Outubro de 2021, no ciclo de conferências IN MEMORIAM JORGE TEIXEIRA, organizado pela VULTOS DA NOSSA TERRA.
(1) Ricardo António Alves é director do Museu Ferreira de Castro, em Sintra e, seguramente, a maior autoridade nacional sobre a vida e obra do grande mestre da literatura social e autor de “A Selva”.













