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VULTOS DA NOSSA TERRA - BARREIROIn Memoriam JORGE TEIXEIRA
Conferência «FERREIRA DE CASTRO: QUE REALISMO?»

“FERREIRA DE CASTRO: QUE REALISMO?, foi o tema da conferência que o Dr. Ricardo António Alves, Director do Museu Ferreira de Castro, de Sintra, seguramente a maior autoridade em Portugal sobre a vida e obra do grande mestre da literatura social, levou ao Auditório Augusto Cabrita, a convite da VULTOS DA NOSSA TERRA, no passado Sábado, 23 de Outubro de 2021, pelas 15h00, integrada no ciclo de conferências In Memoriam JORGE TEIXEIRA, em homenagem ao escritor, poeta, dramaturgo, jornalista, músico amador e sindicalista revolucionário ferroviário barreirense JORGE FERNANDES TEIXEIRA (1898-1975).

30 min de leitura
VULTOS DA NOSSA TERRA - BARREIRO In Memoriam JORGE TEIXEIRA Conferência «FERREIRA DE CASTRO: QUE REALISMO?»

Por Jornal Rostos

Esta conferência foi a segunda de três conferências que têm como objectivo enquadrar na época a actividade intensa de JORGE TEIXEIRA no Barreiro, nos anos 10, 20 e 30 do século passado, e, em particular nesta conferência, o breve relacionamento do autor barreirense de Vida Tenebrosa com o grande mestre da literatura social Ferreira de Castro.
A Mesa da Conferência, tendo os seus membros sentados no palco, estava constituída por Luís Victório, membro do secretariado da VULTOS DA NOSSA TERRA, Rui Braga, Vice-Presidente da Câmara Municipal do Barreiro e Carlos Bicas e António Moreira, ambos membros do secretariado da VULTOS.

A abrir a Conferência usou da palavra o senhor Vice-Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, Rui Braga, que saudou a iniciativa da VULTOS DA NOSSA TERRA, manifestando o compromisso de a CMB apoiar as actividades culturais como aquela que se iria ali desenrolar no espaço do AMAC.

Na assistência estivam presentes: a senhora Vereadora da CMB Maria Arlete; a senhora Sara Heitor também da CMB; o Prof. Doutor Paulo Guimarães, docente de História, na Universidade de Évora, que foi o orador da 1ª Conferência In Memoriam Jorge Teixeira; o responsável pelo Espaço Memoria do Barreiro, Dr. Fernando da Motta; e uma moldura de público assistente, interessado pela cultura, que já se tornou indefectível das iniciativas da VULTOS.

A conferência teve como apresentador Luís Victório, membro do secretariado da VULTOS.
A Conferência teve o apoio principal da Câmara Municipal do Barreiro e de outras entidades particulares.

FERREIRA DE CASTRO: “MILAGRE DA LITERATURA”

«só é verdadeiramente livre aquele que não é discípulo,
aquele que não é fiel, aquele que não tem mestre nem sacerdote»
(Ferreira de Castro, Renovação, Maio de 1926)

Ricardo António Alves iniciou a sua intervenção evocando a infância do grande escritor. Passamos a citar:
“Quando morreu, em 29 de Junho de 1974, Ferreira de Castro era um escritor mítico. O mais traduzido dos portugueses até então, numa dimensão nunca sonhada por qualquer outro, vivia exclusivamente dos livros, o que era outra particularidade rara. A vida aventurosa e também inaudita que levou, acrescentava uma aura de interesse. E, obviamente, a sua obra: era o autor do romance A Selva...”

“José Maria Ferreira de Castro nasce a 24 de Maio de 1898, nos Salgueiros, freguesia de Ossela, concelho de Oliveira de Azeméis, no distrito de Aveiro”.

“Filho mais velho de José Eustáquio Ferreira de Castro e Maria Rosa Soares de Castro, só recentemente começou a pesquisar-se dados biográficos do progenitor, falecido em 1906, e sobre o qual Ferreira de Castro nunca escreveu ou falou em público. Investigações recentes revelam que José Eustáquio era natural de Oliveira de Azeméis, proveniente de uma família de lentes e militares – na Guerra Civil, o seu bisavô, formado em Leis, por Coimbra, fora capitão da guarda de lanceiros daquela então vila, força afecta a D. Miguel. Para além do local do nascimento, sabe-se que também o pai de Ferreira de Castro emigrara para o Brasil, de lá regressando viúvo. Virá a casar-se mais tarde com a mãe do futuro romancista, uma serviçal doméstica oriunda do concelho vizinho de Vale de Cambra. Por que razão José Eustáquio terá deixado a habitação familiar, situada no centro de Oliveira, deslocando-se para um dos extremos do concelho, já vizinho do de Vale de Cambra, é algo que ainda não se apurou. Ferreira de Castro nascerá, pois, numa casa que uma figura proeminente de Ossela e do concelho dispensará aos pais. O pai de Ferreira de Castro permanece até agora como pouco mais do que um fantasma”.

“Até 1911, o jovem Zeca viverá uma infância relativamente despreocupada, perturbada apenas pela morte do pai, as peripécias próprias de uma criança aldeã frequentando a escola e, de forma algo traumática, pelos castigos corporais que a mãe lhe infligia, então vistos por todos – pais, professores, catequistas – como normais, mas que à criança emotiva e tímida que Ferreira de Castro então era, se traduziam num forte sentimento de humilhação e vexame”.
Antes de se debruçar sobre a ida como emigrante para o Brasil, em idade precoce, do jovem Zé Maria, o orador teceu algumas considerações sobre a influência que o Brasil terá tido na formação literária de Ferreira de Castro:

“Os castrianos realçam, com razão, a importância do Brasil, onde estará oito anos (1911-1919), não só para o desabrochar da actividade literária, mas também para a formação autodidacta que foi a sua, a mundividência, o posicionamento ideológico, precocemente adoptado e ao qual se manterá sempre fiel. A verdade, porém, é que com ou sem Brasil, Ferreira de Castro seria sempre escritor, por certo completamente diferente se não houvesse emigrado. Mas o despertar para o sortilégio da escrita, a adoração da letra de forma, o fascínio por quem, por detrás do papel impresso, se entregava a elaborar todo o tipo de matéria escrita, irá radicar, não no Brasil, mas ainda antes – precisamente nesse tempo escolar de descoberta e estranhamento, na selecta escolar, nos jornais por que passava os olhos – em especial O Comércio do Porto, do seu conterrâneo Bento Carqueja (1860-1935), e na literatura de cordel”.

E, mais adiante:
“Mas não foi apenas a literatura de cordel que estimulou a imaginação do jovem leitor. Quando acompanhava a mãe ao mercado de Oliveira de Azeméis, passava pelas instalações do jornal local, Opinião, e via o jornal a fazer-se e a sair impresso. Muitos anos depois, num colóquio que lhe foi dedicado, dizia que aquilo parecia “uma obra de Deus””.
“Os media populares constituíram-se assim como uma espécie de trauma invertido e benfazejo,6 vindo a apontar o percurso duma criança que viria a conhecer algumas provações terríveis, como o expatriamento precoce e a solidão que se lhe associa”.

A RECLUSÃO NO SERINGAL DA AMAZÓNIA

Depois de sublinhar ser a emigração solitária infantil uma prática comum em finais do século XIX e início do seguinte, o Dr. Ricardo António Alves, acrescentou:
“Entre a pressão sócio-económica e a idiossincrasia orgulhosa e romântica, a verdade é que no dia 11 de Janeiro de 1911, Ferreira de Castro [apenas com 12 anos] embarcava em Leixões no vapor “Jerôme”, largando para uma aventura pessoal e literária sem par”.
“Recomendado a um vago parente, estabelecido em Belém do Pará, Ferreira de Castro aportará à cidade da foz do Amazonas no mês seguinte. Toda a região conhecera uma prosperidade assinalável, na segunda metade do século XIX, com a indústria da borracha, de que o Brasil era o maior produtor mundial. A concorrência operada pelos ingleses no sudeste asiático, obrigando à queda das cotações, mergulha o sector numa crise económica que havia já deflagrado quando da chegada do futuro escritor”.
“Num espaço de cerca de um mês a ainda criança é enviada pelo presumível protector para a brenha amazónica, aonde começaria a trabalhar num seringal do Alto Amazonas, nas margens de um seu braço, o rio Madeira – o ‘Paraíso’, no qual passará perto de quatro anos. De paraíso pouco haveria no seringal, para além duma envolvente luxuriante, que o jovem de bom grado dispensaria”.
“É difícil calcular o choque provocado por uma mudança de tal modo abrupta. Destinado, inclusive, a laborar na própria extracção do látex, a circunstância de ser alfabetizado – aliando-se ao provável rendimento escasso do trabalho desempenhado por um menino –, fará com que seja, num breve lapso de tempo, mudado para o centro do seringal, trabalhando como caixeiro no armazém”.
“É um mundo novo e complexo aquele em que Ferreira de Castro agora vive. Foi fundamental o contacto com os seringueiros – migrantes fugidos à seca e miséria endémicas do sertão nordestino, evocados no pórtico de A Selva –, homens rudes e violentos, presos ao seringal pela prática de extorsão que sofriam no início da actividade, forçados a comprar todos os artefactos e utensílios para o trabalho e a alimentação, daqui resultando um endividamento inicial que nunca seria recuperado em condições normais. Basta pensar em quantos, sem família nem apoio, se entregavam à bebida ou gastavam o pouco que não tinham na prostituição. Trata-se de uma viva chaga, que inevitavelmente despertará o jovem para a iniquidade da organização social que triunfava ali, e por esse mundo além”.

“Não despiciendo foi, igualmente, o conhecimento dos caboclos, mestiços que viviam do que a selva dava, e dela faziam a sua casa; ou o terror infligido pelos índios da tribo Parintintim, ainda não pacificados, e cuja prática de cortar a cabeça aos inimigos mortos, desossando-as para as ostentarem como troféus, causaria calafrios a qualquer um. Acresce a natureza inóspita, fauna e flora, esta tornada, anos mais tarde, a principal personagem dessa obra-prima intitulada A Selva (1930). Num texto evocativo, Ferreira de Castro referir-se-á a este período da sua vida como um dos dois mais dramáticos e angustiantes que lhe fora dado viver”.

OS PRIMEIROS ESCRITOS

“Ainda do seringal, o jovem Zeca enviaria os primeiros escritos a jornais modestos, jornais locais, de Portugal e do Brasil. A primeira vez que viu o seu nome impresso constituir-se-á – lembrou-o numa entrevista por ocasião dos seus 75 anos – o momento mais feliz da sua vida literária”.
“O primeiro romance – um romancinho ingénuo e fantasioso, mas, ao mesmo tempo, pleno de verdade – que publicará já em Belém, Criminoso por Ambição, em 1916, será escrito nesse ambiente, com poucos livros, mas com uma espécie de mentor, o guarda-livros, único adulto letrado com quem Ferreira de Castro pôde conviver, e que o estimulou a dedicar-se à escrita, sempre que as ocupações quotidianas não o impedissem. E com ele um jovem mais velho, João Antonio Fernandes, com quem fará um pacto de sucesso: ambos sairiam dali e seriam alguém. Este rapaz virá a ser um professor modesto – um salto qualitativo notável para quem crescera na Amazónia profunda; Ferreira de Castro, o que nós sabemos. Foi pois um pacto destinado ao êxito”.
“Escritor feito a pulso e que à literatura se entregou, mesmo partindo com a desvantagem da condição humilde e da instrução básica, compensadas pela junção de uma inteligência aguda e uma sensibilidade extrema com a provação que adviria desse expatriamento, transplantando-o das margens do pacífico Caima para as do rio Madeira, virá a encontrar em si próprio a matéria-prima existencial dos dois primeiros verdadeiros romances Emigrantes e A Selva”.

O REGRESSO A BELÉM DO PARÁ E ESTADIA NO RIO DE JANEIRO

“Em 28 de Outubro de 1914, Ferreira de Castro, já com dezasseis anos, abandona o seringal e regressa a Belém, onde só estivera cerca de um mês. Cidade próspera, não obstante a crise económica, e cosmopolita, será, nos cinco anos seguintes, o cenário e o palco em que o jovem escritor conhecerá uma extraordinária evolução, de quase pária e sem-abrigo a jornalista e autor a quem não falta uma ponta de janotismo, como denota o garbo com que posa e uma alegria esperançosa que se detecta na própria fisionomia, e que raramente, no futuro, voltará a mostrar-se”.
“Os dois primeiros anos na capital do Pará serão, no entanto, uma provação de que se irá paulatinamente libertando, mercê duma tremenda força de vontade sustentada num desígnio que brotara como que espontaneamente em plena selva – assim parece suceder a tudo o que por lá viceja – ser escritor”.
“Escorraçado pelo protector a cuja porta voltara a bater, o primeiro ano em Belém será uma constante luta pela sobrevivência, em que Ferreira de Castro, lançará mão de todos os biscates para subsistir, da afixação de cartazes pelos muros da cidade ao emprego a bordo dum navio que fazia a navegação de cabotagem entre Belém e Caena, na Guiana Francesa. Trabalho de que, aliás, dará conta num pequeno bloco, e no qual o temperamento de escritor já é plenamente visível”.
“Dormia na rua ou num barracão, em dias mais ásperos, e apanhava beatas do chão, mas – inverosímil e quase milagroso – aproveita o ócio, voluntário ou forçado para instruir-se de moto próprio na Biblioteca Pública de Belém do Pará, a verdadeira universidade que frequentou. E aí toma contacto, em muitos casos pela primeira vez, com os clássicos da literatura, com os mestres do romance europeu, com os filósofos e os teóricos sociais. Muito são os nomes que vêm à tona, entre os quais Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, mas também Machado de Assis e muitos outros brasileiros, ou ainda Schopenhauer, Tolstói, Flaubert, Nitezsche, Zola...”

“E esse devorar de livros – Ferreira de Castro será sempre um grande leitor – inicia em 1915 a colaboração em alguns jornais da cidade, até resolver, em 1917, com o concurso de um outro imigrante fundar um semanário, intitulado Portugal, destinado à comunidade portuguesa residente na região, em especial Belém e Manaus”.
“A vida torna-se mais agradável, Castro viaja pelo Brasil, em reportagem, tem uma vida social que as poucas fotografias do período mostram. Além de jornalista, é agora um escritor, modesto e incipiente, mas pode, dois anos após a saída do seringal, apresentar-se como autor de dois livros: Criminoso por Ambição, publicado em fascículos e a expensas próprias, e a peça breve em dois actos Alma Lusitana. Faz representar um entreacto, intitulado O Rapto, no Teatro-Bar Paraense, e tem uma novela a desenrolar-se em folhetim nas páginas do seu jornal, Rugas Sociais”.

“Em 1919, assenta arraiais no Rio de Janeiro, onde fará a edição do sul do Portugal. Estes últimos seis meses no Brasil, ainda mal conhecidos, revelar-se-ão extremamente agitados, mas também frutíferos. Mas a vontade de vir a Portugal, chão que não pisa e família que não vê há oito anos e muitos meses, a pretexto de regularizar a situação militar, estenderá o regresso por quarenta anos, e de visita, embora triunfante”.

REGRESSO A PORTUGAL E INGRESSO NO JORNALISMO

Após uma pausa, o orador passou a descrever a vida literária de Ferreira de Castro em Portugal. Continuamos a citar:
“Em 1919, assenta arraiais no Rio de Janeiro, onde fará a edição do sul do Portugal. Estes últimos seis meses no Brasil, ainda mal conhecidos, revelar-se-ão extremamente agitados, mas também frutíferos. Mas a vontade de vir a Portugal, chão que não pisa e família que não vê há oito anos e muitos meses, a pretexto de regularizar a situação militar, estenderá o regresso por quarenta anos, e de visita, embora triunfante”.

“Em Setembro desse ano, o início de vida em Lisboa – cidade que lhe era desconhecida – é como que um remake da ida do seringal para Belém do Pará. Ausência de trabalho e de perspectivas, penúria extrema, chegando a dormir sob uma chata nas margens do Tejo, o primeiro livro publicado, não em fascículos, como sucedera com Criminoso por Ambição, mas feito aos bocados, à medida que podia pagar a impressão dos cadernos. Daqui resulta que esse extraordinário Mas…, tendo aposta no frontispício a data de 1921, na realidade só viesse a estar pronto no ano seguinte”.

“O jornalismo era, neste contexto, uma profissão-socorro a que Ferreira de Castro lançava mão para se sustentar. De espírito fortemente independente, foi um freelancer até 1927, ano em que ingressa nos quadros de O Século, até abandonar o jornal e a profissão, sete anos mais tarde”.

“Nesta primeira fase dos jornais e revistas, Castro escrevia, para inúmeros periódicos, contos, crónicas, reportagens, chegando a dirigir um jornal e uma revista literária, ambos de curta duração: O Luso (1920) e A Hora (1922). Merecem destaque a revista ABC, de Rocha Martins – monárquico liberal e futuro nome histórico da oposição ao Estado Novo – não apenas enorme quantidade de trabalhos aí publicados, mas também pela amizade firme que se estabeleceu entre os dois homens; e também o jornal A Batalha da Confederação Geral do Trabalho, central anarco-sindicalista, em que Ferreira de Castro, também ele um libertário, escreve com fervor, em especial no Suplemento Semanal (Ilustrado), dedicado às letras e às artes, e no qual assegurará algumas colunas, nomeadamente os «Ecos da Semana – A Arte, a Vida e a Sociedade» (1925-26). Será ainda com a CGT que o escritor assegurará a maior parte da publicação da revista semanal Renovação (1925). Nesse ano, Ferreira de Castro será admitido como sócio do Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa (SPIL), tornando-se presidente da direcção no ano seguinte”.
DEBAIXO DA DITADURA DO ESTADO NOVO

“Com o golpe militar do 28 de Maio de 1926, a instauração da Censura à imprensa terá a sua forte oposição, enquanto profissional e sindicalista. O encerramento compulsivo do SPIL, bem como de A Batalha, são algumas das acções levadas a cabo pelo novo poder, que terá como arauto António Ferro, até então amigo com quem partilhava a página portuguesa da Gaceta Literaria, de Madrid, e com quem terminará a amizade”.

“Não será alheia ao novo status quo a decisão de tornar-se redactor de O Século, no ano seguinte. Nas evocações de Os Fragmentos (1974), confessará que o melhor que poderia suceder-lhe no jornal de João Pereira da Rosa seria ficar no arquivo do diário, dando-lhe o tempo precioso que não tinha, para a escrita. O director não concordou com o desperdício que seria o subaproveitamento de Ferreira de Castro num dos dois maiores jornais portugueses, e o escritor teve de resignar-se a trabalhar na redacção, como editor da secção internacional”.

“Estamos em 1927, um ano fulcral para Ferreira de Castro. A alteração do seu estatuto de trabalhador independente para o de assalariado, coincidirá no tempo com o início de uma breve e intensa relação amorosa com Diana de Lis, nom de plume de Maria Eugénia Haas da Costa Ramos (1894-1930). E é com este enquadramento pessoal e profissional que o escritor escreverá Emigrantes, publicado no ano seguinte, um livro charneira para o próprio, enquanto autor, e para o romance português, pela alteração de ponto de vista que opera”.

“1928 será também o ano do magazine Civilização – o nome diz tudo –, revista mensal cuidada e destinada a um público cosmopolita, com variada e importante colaboração literária e uma plêiade de artistas gráficos e cartoonistas que dará a publicação um lugar de referência na história da imprensa em Portugal”.
“Com a morte precoce de Diana de Liz, Castro e os problemas de saúde graves que virá a ter, não apenas decorrentes de uma septicemia, mas da sua própria condição emocional, e com uma tentativa de suicídio, o escritor abandona a revista”.

“O jornalismo está, para si, na ponta final: a institucionalização do Estado Novo (1933), com reforço da repressão e censura tornam difícil a escrita, jornalística ou romanesca. Animado pelos proventos dos direitos de autor dos seus romances, em especial A Selva, que acumulava traduções na década de 1930, Ferreira de Castro decide pôr um ponto final na profissão. Depois, por duas ocasiões apenas, interromper esse afastamento voluntário: em 1935, durante dois breves meses, na direcção de O Diabo (“semanário de crítica literária e artística”), jornal de que fora co-fundador e que numa situação crítica de vacatura da direcção, Castro aceita assumir, convidando para lhe suceder Manuel Rodrigues Lapa, o grande filólogo que fora expulso da universidade, por razões políticas; e em 1939, durante a viagem à volta do mundo, com um contrato estabelecido com o diário carioca A Noite, que recebia as crónicas desse périplo”.

O ESCRITOR NA FASE DA MATURIDADE

“Escritor que se fez a si próprio, a tábua bibliográfica que compreende cerca de uma dezena de títulos, de Criminoso por Ambição (1916) e O Voo nas Trevas (1927) – as obras da primeira fase – tem pontos de contacto com a obra canónica e diferenças assinaláveis. A maior oposição é a que compara o artificialismo de muitas dessas narrativas, de tom magazinesco e superficialmente modernista em que pululam mulheres emancipadas e/ou frívolas, títeres masculinos sem grande consistência com o realismo e a verdade que caracterizam as narrativas castrianas a partir de Emigrantes. Mas, a verdade é que mesmo nessa fase se verifica a ocorrência de muitos dos temas que o autor de a Selva irá tratar: desde logo a sua vivência inaudita, quer a emigração quer o expatriamento, serão objecto de tratamento literário, como muito bem viu Alexandre Cabral. A supressão da bibliografia destes livros iniciais prende-se, por isso, e claramente, com problemas de estilo, da incipiência ou ingenuidade de muitas delas, nas quais o romancista acabado em que se tornou Ferreira de Castro não se reconhecia”.

“Previamente à ficção, terá de fazer-se, porém, uma rápida alusão aos seus livros de viagens, género com grande tradições na literatura portuguesa, no quais procurará saciar o seu desejo de mundo, mesmo que na sua origem tenha estado o constrangimento da Censura”.

“Abandonado o jornalismo em 1934 – ano em que pulbica Terra Fria -- vivendo apenas dos seus livros, que entretanto haviam começado a ser traduzidos por várias países da Europa e América, as restrições impostas à sua obra (O Intervalo, apenas se publicará em 1974, integrado em os Fragmentos; Sim, uma Dúvida Basta, peça escrita para o Teatro Nacional, a convite de Robles Monteiro, verá a representação impedida, conhecendo edição apenas em 1994), além de outros projectos literários gorados no ovo. Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-1938) e A Volta ao Mundo (1940-1944), realizada em 1939, na companhia de Elena Muriel, jovem pintora espanhola que se tornara sua mulher, serão projectos que fará contrafeito, pela simples necessidade de se sustentar, o que não lhes retira o interesse e a importância, pela forma em como, através deles, se espelha a sua mundividência internacionalista. Da mesma forma, As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-1963, Prémio Catenacci da Academia de Belas-Artes de Paris), será uma longa peregrinação pela História – uma das suas paixões –, contando como, pela estética, o Homem procurou sublimar a sua frágil e complexa condição”.

INFLUÊNCIA DO ANARQUISMO EM FERREIRA DE CASTRO

“Abre-se um parênteses para notar a circunstância, deveras significativa” – continuou o orador -, “de o escritor nunca ter cedido o seu nome para dirigir qualquer organização política e social, a não ser as que resultavam de manifestações próprias à sua classe: SPIL, Pen Club Português (tentativa sem sucesso, na década de 1930, com Fidelino de Figueiredo e Aquilino Ribeiro, entre outros) e, finalmente a direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores (1962-64), da qual fora fundador, também com o grande Aquilino, escritor da geração anterior à sua, e a quem devotava uma sincera admiração”.
Esta atenção pelos órgãos representativos de classe, e a correspondente relutância pela querela política têm que ver com as ideias anarquistas que toda a vida professou: a acção teria de ser sempre unitária e não de facção; por isso a «Mensagem» que foi lida no comício do Movimento de Unidade Democrática (MUD), em Novembro de 1946, e a outra «Mensagem» enviada à candidatura de Norton de Matos, em 1949 – dois fortes e belos textos de Oposição – foram-no nessa condição de luta unida contra o Estado Novo de Salazar”.

FERREIRA DE CASTRO E O NEO-REALISMO

“Diz-se de Ferreira de Castro ser um precursor do neo-realismo. Quando se fala em neo-realismo, ou restringimos o conceito, contemplando obras estritamente marxistas, que é a posição digamos oficial, sustentada por Mário Dionísio, o mais importante dos escritores teorizadores dessa geração, ou o alargamos para toda a obra possuidora de uma “tensão de devir” (Mário Sacramento, entre outros). Lembremos que, desde Emigrantes os seus livros contêm um fortíssimo escopo de mudança de padrão social, de intuito revolucionário, de luta de classes, se se quiser. É, aliás, significativo que Álvaro Cunhal, no célebre artigo «Cinco notas sobre forme e conteúdo» , como exemplo de romances que abordam o homem de acordo com uma perspectiva ascendente – o que no jargão da época significa numa um ponto de vista revolucionário de emancipação humana – destaque A Lã e a Neve, em primeiro lugar e ao lado de Fanga, de Alves Redol, e Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes”.

“O que distingue Ferreira de Castro (e outros) do neo-realismo ortodoxo, marxista, é precisamente o lastro anarquista do escritor – que Cunhal e os restantes conheciam muito bem – que, como foi referido, não punha a pena ao serviço de um desígnio político-partidário. Castro era um comunista libertário, bastante inspirado em teóricos como Kropótkin e Malatesta. Se muito o aproximava dos marxistas, um oceano também os separava”.

“Como escreve, em 1942, João Pedro de Andrade – um dos mais importantes críticos deste período, pela inteligência, mas sobretudo pela rara independência – a que não serão alheias também as mesmas raízes anarquistas – «a mobilidade do seu talento e a predilecção por certos temas mostram-no como um destes espíritos rebeldes destinados a estar sempre na oposição»”.

“Por outro lado, quando se fala em psicologismo, imagem de marca da literatura da presença, não devemos esquecer que todos os seus romances estão eivados dessa espessura que impede que as personagens se tornem monocromáticas e planas, mesmo tratando-se de figuras mais rudes, de que o Manuel da Bouça, de Emigrantes, é o melhor exemplo. Mas não apenas: também a sua arte de narrar é extremamente moderna, tendo sido já feitas aproximações a Virgina Woolf e Henry James”.
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“Ferreira de Castro faz o pleno, com uma literatura cheia de densidade psicológica, servida por um ímpeto de intervenção social. Vejamos o que dizem alguns ensaístas notáveis, a propósito da significação do corpus castriano e, maxime, do seu pioneirismo na nossa literatura, quer do ponto de vista do realismo social, quer do apport psicológico que ela trouxe”:

“Óscar Lopes escreveu que «Ferreira de Castro foi o primeiro grande romancista português d[o] século [passado] que se determinou por problemas objectivos e não apenas por impulsos íntimos»; e João Palma-Ferreira sustentou ser o nosso autor «[…] o primeiro escritor ficcionista moderno que, em Portugal, se preocupa em colocar o leitor no centro de um problema de que foi obrigado a fazer prévia participação e de onde extraiu, pelo menos, um complexo de situações profundamente dramáticas e pessoais»”.
E creio que vale a pena respigar para aqui, dois ou três colegas de ofício, como Jorge Amado: «Com a arma da literatura ajudou a transformar o mundo. Foi verdadeiro escritor de nossa época, sendo, como queria Gorki, ao mesmo tempo coveiro e parteiro, coveiro de um mundo caduco, de um tempo podre, parteiro de um mundo novo, de um tempo alegre e livre».”

“José Rodrigues Miguéis: «Assentes na experiência pessoal do autor, sobressaem a funda humanidade e a capacidade evocativa, que uma linguagem plástica essencialmente sublinha»”.
ou Fernando Namora: «Se houve escritor que exemplificasse quanto a literatura é comunhão entre os homens, desígnio transformador, apelo à justiça e nunca à intolerância, apelo ao convívio confiante e nunca ao sectarismo que escorre sangue, se houve escritor que mostrou quanto a libertação intelectual é indissolúvel da libertação social e por esta se bate, se houve, em suma, escritor “humanista”, esse foi Ferreira de Castro»”.

Muito aplaudido, o orador terminou a sua intervenção com um breve bosquejo sobre as obras da fase madura do autor de “A Selva”. Bosquejo que foi já publicado nas páginas do ROSTOS, sob o título “Um Breve Relance sobre a Obra de Ferreira de Castro”, em 26 de Outubro de 2021.

BREVES `NOTAS BIOGRÁFICAS DE JORGE TEIXEIRA

A seguir à intervenção do Dr. Ricardo António Alves, o Dr. António Moreira tomou o púlpito para falar sobre o escritor, poeta, jornalista, dramaturgo, músico amador e sindicalista revolucionário ferroviário barreirense Jorge Teixeira.

A reprodução desta comunicação do Dr. António Moreira foi publicada integralmente no ROSTOS, em 27 de Outubro de 2021, sob o título “Jorge Teixeira, um homem singular”, pelo que não valera a pena aqui referi-la desenvolvidamente.

ACTIVIDADES COMPLEMENTARES DE ANIMAÇÃO

Seguindo o modelo com afinidades ao que era comum ser praticado nos anos 20 do século passado, a VULTOS DA NOSSA TERRA complementou a conferência com actividades de animação. Todas essas actividades estiveram relacionadas com a vida e obra de Ferreira de Castro ou do escritor barreirense Jorge Teixeira.

Participaram na segunda parte do evento: um quarteto da Escola de Jazz do Barreiro; o actor e encenador Luciano Barata; e Francisco Naia, acompanhado por um quarteto de músicos acompanhante.

JAZZ DOS ANOS 30 DO SÉC. XX EM NOVA IORQUE E HARLEM

A Escola de Jazz do Barreiro, convidada a participar no cartaz pela VULTOS, acedeu prontamente, através do seu director executivo Paulo Parra, a interpretar temas de Jazz dos anos 30 do século passado, interpretados em Nova Iorque e, em particular, no Harlem, sobremaneira os da autoria de George Gershwin. Esta opção musical e estética teve origem na escala que Ferreira de Castro fez em Nova Iorque e no contacto que o escritor teve nesta cidade norte americana com o Jazz, então em fase de consolidação como importante expressão musical autónoma. Esta passagem de Ferreira de Castro por Nova Iorque e pelo Harlem vem descrita na sua obra intitulada “À Volta do Mundo”.

A actuação do quarteto da Escola de Jazz do Barreiro foi muito do agrado do público, quer pelo reportório escolhido quer pela mestria e qualidade dos músicos que compunham o agrupamento, a saber: Luís Lapa, na guitarra eléctrica, professor e director pedagógico da EJB; João Sousa, baterista e professor da EJB; Moisés Fernandes, trompetista e professor na EJB; e Jorge Vasconcelos, baixista, em guitarra eléctrica, aluno do curso superior de Jazz da EJB.

AMORES DE FERREIRA DE CASTRO

Coube ao actor e encenador Luciano Barata dramatizar em palco, num monólogo muito expressivo, a evocação daquelas que foram as mulheres mais importantes na vida de Ferreira de Castro, motivo pelo qual, ao entrar em palco, Luciano Barata introduziu de imediato o público no propósito da sua alocução: “venho falar-vos de amores…”, disse.

Para de seguida evocar Elena Muriel, pintora de nacionalidade espanhola, companheira dedicada e amiga de mais de 40 anos de vida em comum com o escritor.

Seguidamente, Maria Lamas, um amor oculto e proibido.

E, finalmente, o amor escaldante de Dina de Liz, cujo nome próprio, abreviado, era Mimi Hass, falecida precocemente, e cuja morte trágica quase levou o escritor ao suicídio, tento mesmo para o efeito escrito um bilhete de despedida...
Revelou o escritor, mais tarde, que o que o fez, na altura, agarrar-se à vida, foi o compromisso de publicar a escrita que a sua companheira redigira por puro prazer. Apareceu, por consequência, em 1931 “Pedras Falsas”, uma colectânea de pequenas novelas, crónicas e cartas, prefaciada por Ferreira de Castro que, logo no início do prefacio, confessa: «Devo, talvez, a este livro o estar ainda vivo. Se não fora o desejo de o publicar, eu teria seguido, possivelmente, a sua autora, quando a morte ma roubou. (…) Disse-lhe eu, que os seus livros, quaisquer que fossem os esforços a fazer seriam publicados». E assim aconteceu.

Luciano Barata, comunicando e expressando-se dramaticamente ante o público presente, terminou a sua performance lendo um emotivo excerto do prefácio de Ferreira de Castro ao livro, reunindo textos de Diana de Liz, intitulado “Memórias duma Mulher da Época” (Lisboa, Guimarães & C.ª - Editores [1932], p. 5):

“Está aqui, amor, a tua novela. Durante quase dois anos fugi, covarde, perante uma dor maior, de seleccionar os teus papéis, os papéis que as tuas mãos e os teus olhos acariciaram e que foram do muito pouco que pedi para se salvar do naufrágio da nossa vida. Mas, há meses, numa lívida antemanhã de hospital, arrependi-me de não ter enfrentado a nova dor, lacerando mais uma vez o pobre coração. A morte, que, desde há dias, estava estendida ao meu lado, parecia-me, finalmente, resolvida a levar-me também. Eu, de certa maneira, não a temia; desde que ela te arrebatou ao meu carinho, que importava que me cerrasse também a mim, e para sempre, os olhos?”.

A intervenção dramática de Luciano Barata foi sendo acompanhada por música de fundo, a saber: concerto para orquestra e clarinete de Mozart; um nocturno de Chopin; e uma balada, ainda de Chopin. Esta escolha musical não foi inocente, dado que embora Ferreira de Castro não fosse um melómano, apreciava bastante Chopin, compositor que Diana de Liz interpretava ao piano, e, em particular, as baladas.

Estava previsto pela VULTOS, no alinhamento do espectáculo associado à Conferência, que o barítono barreirense Manuel Pedro interpretasse, acompanhado por um pianista, Chopin e Strauss (este compositor austríaco por ser referido por Jorge Teixeira na sua obra “O Barreiro que vi”). Infelizmente, Manuel Pedro faleceu, entretanto, com COVID’19. Devido a essa trágica ocorrência, foi pedido ao público presente uma demorada salva de palma em homenagem ao malogrado e muito estimado barítono barreirense.

MÚSICA POPULAR ALENTEJANA E SERTANEJA DO BRASIL

Coube ao músico e cantor barreirense Francisco Naia, ao terminar o espectáculo, acompanhado pelos músicos José Carita, em viola acústica, Rui Curto, em acordeão, e Vítor Sarmento, em viola acústica, interpretar temas de música popular portuguesa e brasileira.
Também a escolha do reportório de Francisco Naia não foi inocente:
os temas que foram interpretados, ligados ao meio ferroviário, foram directamente associados à circunstância de, por um lado,
Jorge Teixeira ter sido ferroviário e percorrido, em serviço, a linha a sul do Tejo e, por outro lado, por o próprio pai de Francisco Naia, ter sido ferroviário e contemporâneo do escritor barreirense Jorge Teixeira;
por seu turno, as modinhas brasileiras que foram interpretadas no espectáculo eram do extremo apreço de Ferreira de Castro, herança segura da sua passagem pelo Brasil, designadamente os temas “Asa Branca”, da autoria de Luiz Gonzaga, e o famoso “Luar do Sertão”, da autoria de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco.

A intervenção de Francisco Naia e dos músicos que o acompanharam terminou, depois de uma actuação de elevado nível, em apoteose com todo público presente na sala a acompanhar os músicos no canto do refrão do “Luar do Sertão”, que foi, para esse efeito, projectado na tela do palco do AMAC.

O ciclo de conferências IN Memoriam JORGE TEIXEIRA será encerrado com uma última conferência que se realizará em 5 de Março de 2022, cujo tema será "Literatura Social e Neo-Realismo em Portugal", tendo como orador convidado o Prof. Doutor Vítor Pena Viçoso.

CB, Barreiro, 23 de Outubro de 2021

Foto: Dr. Ricardo António Alves no uso da palavra, desenvolvendo o tema “Ferreira de Castro: Que realismo?”, durante a conferência que teve lugar no Auditório Augusto Cabrita no Barreiro, Sábado, 23 de Outubro de 2021, integrada no ciclo In Memoriam JORGE TEIXEIRA. Na Mesa da Conferência, sentados, distinguem-se, da esquerda para a direita, Luís Victório, membro do secretariado da VULTOS DA NOSSA TERRA, Rui Braga, Vice-Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, Carlos Bicas e António Moreira, ambos membros do secretariado da VULTOS [© foto Filipe Cardeira].

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