BARREIRO - «SALVÉ AVIADORES!»COMEMORAÇÃO DO CENTÉSIMO ANIVERSÁRIO DA TRAVESSIA AÉREA DO ATLÂNTICO SUL
por GAGO COUTINHO E SACADURA CABRAL (1922-2022)
As Comemorações no Barreiro serão presididas pelo Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), Almirante Gouveia e Melo, acompanhado pelo Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, Dr. Frederico Rosa.

Por Jornal Rostos
Está previsto que o desfile cívico, o qual terá partida pelas 10h00 dos Paços do Concelho, na Av. Miguel Bombarda, no Barreiro, incorpore o movimento associativo local, munido das suas bandeiras, estandarte e pendões identificativos, assim como a população que se queira associar ao evento. A marcha do cortejo será animada musicalmente por Bandas Filarmónicas civis.
Prevê-se que a chegada ao Largo Casal – praceta que, desde 1922, se passou, por decisão da Vereação de então, a chamar Largo Gago Coutinho e Sacadura Cabral, em homenagem aos dois heróicos aviadores, à época ao serviço da Armada Portuguesa – ocorra cerca das 11h00.
Aí serão prestadas as devidas homenagens previstas no programa das Comemorações, designadamente: discurso de representante da organização do evento; e entidades oficiais, Chefe do Estado-Maior da Armada(CEMA) e Presidente da Câmara Municipal do Barreiro.
A finalizar a cerimónia, será descerrada uma lápide evocativa do Centenário pelo Chefe do Estado-Maior da Armada(CEMA), a convite do Presidente da Edilidade.
A interpretação da música oficial do evento, na parte da cerimónia que decorrerá no Largo Gago Coutinho e Sacadura Cabral, será exclusivamente cometida a um agrupamento da Banda da Armada.
No evento, estarão representadas 62 associações, clubes e colectividades locais e algumas regionais.
A coordenação geral da participação do movimento associativo local no evento tem estado assegurada pelo membro da VULTOS DA NOSSA TERRA Luís Victório.
O desenho identificativo das Comemorações é da autoria do barreirense Vasco Pinto Ferreira.
BREVE MEMÓRIA HISTÓRICA
Em 17 de Junho de 1922, o País entrou em euforia apoteótica. Sacadura Cabral e Gago Coutinho, duas figuras hoje lendárias, tinham cometido, com bravura e sacrifico, o pioneiro e heróico feito da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, em frágeis hidroaviões. Efectivamente, naquele dia, por todo o Pais, a imprensa deixou documentada as incontidas manifestações de júbilo dos portugueses. E não só naquele dia: a epopeia dos dois aviadores, oficiais de Marinha, que demoraria 78 dias, de 30 de Março a 17 de Junho de 1922, utilizando durante o périplo três máquinas voadoras, fora seguida com atenção, expectativa e muito entusiasmo pelos portugueses, através dos telegramas das agências noticiosas e dos jornais (naquela época a rádio e a televisão, ainda não tinham feito, sucessivamente, os seus aparecimentos triunfantes, e muito menos a internet…).
“SALVÉ AVIADORES PORTUGUESES”, título da primeira página do jornal Barreirense “Acção”, edição n.º 30, de 15 de Abril de 1922. O jornal tinha então como Director e Editor o futuro jornalista profissional Alberto Tomé Vieira e como Administrador José Martins Gomes.
Como relata Alberto Tomé Vieira, um jornalista que mais tarde iria fazer carreira profissional na grande imprensa de Lisboa, no jornal barreirense “Acção”, edição de 30 de Julho de 1922 [consultar Anexo I], em “A Nossa Reportagem / Os Dias de Entusiasmo Delirante / Notas Soltas sobre as Homenagens do Povo do Barreiro aos Aviadores Portugueses”, os festejos decorreram no Barreiro à mesma hora e com o mesmo entusiasmo contagiante que se apoderou dos lisboetas:
“São 16 horas [de sábado, 17 de Junho de 1922] e todos ansiosamente esperam a notícia da Glória, a notícia do fim da travessia e o princípio do delírio. Mas quando o celebérrimo relógio do Briconaits [?] vai para bater as 17 e que por sinal só bateu 5, ouvem-se em Lisboa – sim em Lisboa, caríssimos quatro leitores fora, do Barreiro, porque esta terra fica a dois passos da capital! – grandes estrondos anunciando enfim, o fim da viagem imorredoura, do glorioso vôo através dois mares de ondas e nuvens”.
“Do nosso peito sai o bafo que as eventualidades fizeram criar e então as demonstrações de regosijo, vendo-se algumas casas particulares embandeirarem e inaugurarem quadros alegóricos com as figuras já agora familiares de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, regosijo que se prolonga pela noite em que as bandas de música percorrem as ruas entoando a Portugueza hino a que nem todos tiram o chapéu, mas que afinal é o hino nacional, o hino português”.
“Tudo decorre entre o entusiasmo delirante […]”.
Os festejos prolongaram-se pelo dia seguinte, domingo, 18 de Junho de 1922 [consultar o Anexo I], com alvorada às nove horas, “seguida duma imponente sessão solene organizada pela Câmara Municipal do Barreiro [CMB] e no seu edifício” sede, tendo usado da palavra vários oradores e a Banda Recreativa da CUF abrilhantado a sessão com a interpretação do Hino Nacional.
Seguidamente, foi formado um “cortejo cívico com a representação de todo o elemento oficial e colectivo para o largo da Alegria a que foi dado o nome de Gago Coutinho e Sacadura Cabral”.
No Largo da Alegria [hoje Praça Gago Coutinho e Sacadura Cabral] usou da palavra o Presidente da CMB, Manuel da Silva Simplício, que “convidou Alfredo Crispim Alves, então delegado marítimo nesta vila [do Barreiro], “como representante da arma a que os homenageados pertencem, a descerrar a lápide” toponímica.
Manuel da Silva Simplício, discursando no então Largo da Alegria, em 18 de Junho de 1922, momentos antes de convidar Alfredo Crispim Alves, representante, à época, da Marinha Portuguesa na Vila do Barreiro, ali presente, a descerrar a lápide que iria consagrar definitivamente o local como Praça Gago Coutinho e Sacadura Cabral, nome que ainda hoje mantém [Fotografia publicada no jornal “Acção”, N.º 35, edição de 30 de Junho de 1921].
Encerrou a cerimónia a Banda Filarmónica da Recreativa e Instrução, vulgarmente conhecida por Penicheiros, executando a Portuguesa, por entre entusiásticos “vivas à Pátria e a Portugal”.
Ao terminar a narrativa do evento, na atrás referida reportagem, Alberto Tomé Vieira, conclui:
“[…] vivendo assim algumas horas o povo do Barreiro, como de resto o povo Português, apenas com uma finalidade, com uma preocupação: consagrar os nomes dos dois portugueses que vieram abrir na marcha gloriosa de Portugal uma era de certeza nos destinos que ao nosso país a sua história e a sua situação geográfica há muito tinham marcado”.
Alberto Tome Vieira é ainda autor de um artigo de primeira página, intitulado “Jornada Imorredoura”, no citado jornal “Acção”, N. º 35, de 30 de Junho de 1921.
Todavia, já no N.º 30, de 15 de Abril de 1922, era publicado no jornal “Acção”, em letras capitulares, na primeira pagina, em cabeçalho, o título “SALVÉ AVIADORES PORTUGUESES!”, um texto apócrifo, mas quase seguramente da pena de Alberto Tomé Vieira [consultar anexo III]. Sob o título de cabeçalho o autor da prosa, com ardor patriótico, escreveu, nuns termos muito marcados pela época em que foi escrito, o seguinte [manteve-se a ortografia original]:
“Neste momento em que o nome glorioso de Portugal é levado aos confins do Atlântico, nas azas simples dum hidro-avião, o nosso coração de portugueses, através de todas as questiúnculas internas, lateja cheio de orgulho e alegria. São os portugueses que, na humildade do seu poderio territorial, tentam a maior prova de arrojo e valentia por um dos descobrimentos scientíficos do século XX!”.
“A arrojada iniciativa de Sacadura Cabral e Gago Coutinho, é além de heróica e de épica, alguma coisa mais”.
“O seu feito demonstra exuberantemente a tradição de uma Raça de Heróis, que outrora em simples caravelas descobriu o mundo civilizado”.
“E por isso nós, que portugueses nos orgulhamos de ser, saudamos com todo o ardôr da nossa alma, os intrépidos aviadores, esperançados que, da sua prova de heroísmo, tomem o exemplo patriótico aqueles que neste canto da Europa apenas tratam de afundar uma Nacionalidade”.
A invulgar façanha de Gago Coutinho e Sacadura Cabral teve, para além dos escritos atrás referidos de Alberto Tome Vieira, outros entusiastas protagonistas, intervindo literariamente, sobre o evento. Foi o caso de João Azevedo do Carmo, pai da médica Isabel do Carmo, que fez publicar na Secção Literária do jornal “Acção”, igualmente no N. º 35, de 30 de Junho de 1921, o poema de exaltação patriótica “Lusitania”, em expressiva e singular linguagem, muito própria da época.
Azevedo do Carmo, sob o pseudónimo de António, publicaria ainda, quinze dias mais tarde, em 15 de Julho de 1922, na edição n.º 36 do jornal Acção o artigo “SALVÉ!” . Transcrevemos parte [manteve-se a ortografia original]:
“[… ] Foi nesse momento difícil. Que dois portugueses, dois grandes homens, levantaram o nosso Portugal ao nível dos países mais civilizados, arrancando-o da inacção e, enfim, do mal em que jazia”.
“Foram estes dois heróis da sciência que, com a inolvidável travessia Lisboa-Rio de Janeiro pelo ar, fizeram com que o Mundo scientífico que até aqui nos olhava despreocupadamente, nos fitasse firmemente, olhando-nos com admiração, com respeito. Com confiança e – Santo Deus! – com inveja até”.
“Foram eles que fizeram com que o amor patriótico do nosso povo, tão abalado pelas desilusões constantes, se consolidasse, se fortalecesse, obrigando-nos a pensar instintivamente na Pátria e a admirarmo-nos […]”.
O operário ferroviário barreirense, José António Marques, no seu impar e precioso “Diário”, no qual incansavelmente deixou registadas diariamente, durante décadas, as suas impressões sobre factos e personalidades locais, regionais e nacionais, deixou-nos memórias detalhadas e continuadas da histórica epopeia vivida pelos destemidos aviadores da “Armada Portuguesa”. A extensíssima colecção de cadernos, onde este diarista operário deixou os seus inéditos registos manuscritos quotidianos, encontra-se depositada no Espaço Memória do Barreiro (arquivo histórico local).
PROPÓSITO DAS COMEMORAÇÕES
Tendo em conta o relato dos antecedentes, a associação cultural VULTOS DA NOSSA TERRA decidiu comemorar no Barreiro o Centenário da Travessia Aérea do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. A motivação da associação alicerça-se nos mesmos pressupostos que levaram a população do Barreiro, em 1922, a saudar apoteoticamente o feito dos dois aviadores da Marinha Portuguesa. E a dos próprios aviadores que, com risco da própria vida, iluminados pela visão e convicção universalistas de serem a ciência e a tecnologia capazes de construírem pontes e caminhos, físicos e espirituais, entre continentes, entre povos e entre homens, onde antes havia abismos intransponíveis, distâncias infindáveis, míticos Adamastores, superstições insondáveis e preconceitos vários para com o Outro distante e diferente.
Não movem por isso à associação VULTOS DA NOSSA TERRA, por isso, serôdios fins nacionalistas ou autarcistas. Os seus objectivos são somente, em princípio: sublinhar a valia e actualidade de virtudes como a coragem, a ousadia e a iniciativa transformadoras, o inconformismo; e, sobretudo, em tempos de incertezas e de negacionismos, realçar e reafirmar a importância da evidência cientifica como factor imprescindível para a construção cívica da concórdia, da paz e da harmonia, que são o cume do edifício das sociedades tolerantes, progressivas e coesas socialmente.
Em virtude de existir, desde as épocas mais longínquas, uma forte e muito estreita relação entre a comunidade barreirense e a Marinha Portuguesa – aliás a História do Barreiro sempre esteve muito ligada à História Naval Portuguesa e à marinharia -, a VULTOS DA NOSSA TERRA entendeu que seria uma grande alegria, para a associação e para a comunidade Barreirense, vir a ter a honra da presença do Senhor Almirante Gouveia e Melo, na sua qualidade de M.I. Chefe do Estado-Maior da Armada, a presidir, no Barreiro, às Comemorações do Centenário da Travessia Aérea do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, no dia 18 de Junho de 2022.
No âmbito das Comemorações do Centenário, a VULTOS DA NOSSA TERRA previu várias acções, a saber:
a) Edição de uma brochura com uma breve memória histórica da Travessia e relato das manifestações de júbilo ocorridas no Barreiro em 1922, aquando da chegada de Gago Coutinho e Sacadura Cabral ao Rio de Janeiro, em 17 de Junho de 1922;
b) Organização de um cortejo cívico, composto por representantes das associações, clubes e colectividades locais, munidas das bandeiras, estandartes e símbolos representativos da identidade e das actividades das respectivas instituições, tendo à frente as autoridades nacionais e locais; partindo do edifício da CMB, pelas 10h00 do dia 18 de Junho de 2022, em direcção à Praça Gago Coutinho e Sacadura Cabral, situada no casco histórico da Cidade, pela 11h00; o desfile cívico, propriamente dito, irá contar com a participação de Bandas Filarmónicas; já na Praça Gago Coutinho e Sacadura Cabral, será cometida a um agrupamento da Banda da Armada a missão de interpretar oficialmente temas alusivos;
c) Cerimónia de homenagem, ao ar livre, na Praça Gago Coutinho e Sacadura Cabral, aos dois aviadores que protagonizaram a Travessia, com descerramento de uma lápide evocativa do Centenário.
A VULTOS DA NOSSA TERRA, tal como o movimento associativo aderente, que recebeu e se está a preparar para participar no evento com entusiasmo, estão convictos que a população local e regional não deixará de dar a melhor atenção a esta iniciativa, tendo em conta a sensibilidade que notamos renascer relativamente à necessidade e urgente preservação da nossa Memória colectiva e dos laços de Solidariedade, uma vez que um Povo que não preserve a sua História e não construa pontes e consensos sociais ficará inexoravelmente entregue às imprevisibilidades contingenciais do futuro.
Barreiro, 10 de Junho de 2022,
Carlos Bicas
Anexos:
I – “A Nossa Reportagem”, A.T.V. (Alberto Tomé Vieira), “Acção”, N.º 35, 30 de Junho de 1922, p.3
II – “Jornada Imorredoura”, Alberto Tomé Vieira), “Acção”, N.º 35, 30 de Junho de 1922, p.1
III – “Salve, Aviadores Portugueses!”, apócrifo, ), “Acção”, N.º 30, 15 de Abril de 1922, p.1
IV – “Lusitania”, J.A.Carmo (João Azevedo do Carmo), “Acção” N.º 35, 30 de Junho de 1922, p.1
V – “Salvé!”, António (João Azevedo do Carmo, “Acção”, N.º 36, 15 de Julho de 1922, p.1 (2 fotos)
CB













