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Moldura

Temporada Gulbenkian de Música e DançaGrande Auditório Gulbenkian

Sábado, 29 de Janeiro, 19h00

Ciclo de Piano

4 min de leitura

Por Jornal Rostos

Maurizio Pollini Piano

Fryderyk Chopin

- Três Nocturnos op.15

- Terceira Balada, em Lá bemol Maior, op.47

- Dois Nocturnos op.48

- Scherzo Nº 1, em Si menor, op.20

- Dois Nocturnos op.55

- Dois Nocturnos op.62

- Sonata Nº 2, em Si bemol menor, op.35

Maurizio Pollini é um dos mais influentes e carismáticos pianistas da geração do pós-guerra. A partir de uma iniciação musical de carácter complementar com professores particulares e a sua passagem pelo Conservatório de Milão, Maurizio Pollini fez-se notar em 1960 (tinha então 18 anos), quando conquistou o primeiro lugar do Concurso Internacional Chopin de Varsóvia, perante um jurí que incluía nomes sonantes como Magda Tagliaferro, Heinrich Neuhaus, Nadia Boulanger e Arthur Rubinstein. Este último afirmaria que o jovem Pollini "demonstrara uma total supremacia sobre os outros concorrentes". Ainda nesse ano, gravaria o Concerto em Mi menor de Chopin com a Orquestra Philarmonia e Paul Kletzki na direcção, numa versão muito elogiada, pela poesia e carácter confessional, e que dava plena continuidade às altas expectativas que se iam gerando à volta da carreira do jovem músico italiano. Mas, sem que se esperasse e ainda no rescaldo da sua íntima associação à música de Chopin, Maurizio Pollini decidiu afastar-se durante alguns anos das apresentações públicas, para, segundo as suas palavras, “ouvir” e “reflectir, mas não apenas sobre música”. Para além dessas necessidades interiores, aproveitaria para dar continuidade ao seu processo de formação pianística, agora sob a orientação do grande Arturo Benedetti-Michelangeli. Depois desta fase de formação e interiorização de opções, surgiria um intérprete significativamente diferente daquele que ficara já registado em disco.

A aparente recusa da subjectividade, fértil paradoxo porque este é por natureza um domínio impossível de abolir ou ignorar, mas sobretudo da impulsividade e espontaneidade, revelou uma postura interpretativa de extrema modernidade, identificada com os valores pós-anos 50, assentes no aprofundamento de lógicas estruturais da arquitectura musical.

A proclamada postura distanciada do intérprete passou também a articular-se com uma concepção original dos programas de recitais (cuja última das preocupações seria a popularidade), propondo desde a concentração exclusiva num único compositor, até soluções que podiam intercalar obras muito espaçadas no tempo e que incluíam normalmente música contemporânea.

Mais recentemente Maurizio Pollini tem regressado aos grandes cavalos de batalha do pianismo, muito em concreto a Beethoven, naquela que se anuncia como uma extraordinária integral das sonatas, paulatinamente construída (Deutsche Grammophon). No recital agendado para o Grande Auditório Gulbenkian, Pollini propõe um programa exclusivamente dedicado a Chopin, um dos compositores a que se encontra mais intimamente ligado e para o qual tem participado para uma importante reavaliação do seu pensamento musical.

Sem teorização, afirmação de postura ou ligação a tendências ou escolas, Chopin introduziu elementos verdadeiramente revolucionários no discurso musical, sobretudo ao nível dos procedimentos harmónicos abrindo todo um leque de novas possibilidades para a época. As influências que cruzou foram sobretudo o classicismo germânico, a música popular polaca e o bel canto italiano, votando contudo a sua maior admiração a dois compositores do passado: Bach, que lhe inspirava um fervor quase religioso, e Mozart, pela clareza, equilíbrio, perfeição formal e economia de meios. Todavia, apesar de ser uma das figuras mais consensuais, cuja música goza de uma popularidade constante, a verdade é que ficaria historicamente colado ao imaginário mais banalizado do século XIX, como que encarnando todas as neuroses, obsessões egocêntricas e exibicionismo do artista romântico. Corrigidos os exageros, revelar-se-ia afinal uma personagem bem mais simples e acessível que um Berlioz, um Schumann ou um Liszt, ficando a dever-se-lhe uma boa parte do vocabulário dito Romântico na sua faceta mais rica e subtil.

José Luís Figueira

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