Teatro ArtevivaComemora “bodas de prata” com “Medalha de Ouro”
Foi com um intenso e caloroso aplauso, elogios de “Bravo!”, que o público que encheu, mais uma vez, a sala do Teatro Municipal do Barreiro agradeceu no final do espectáculo que marcou a estreia de “Noites de Lua Cheia”, a nova peça levada à cena pela Companhia de Teatro do Barreiro Arteviva.

Por António Sousa Pereira
A Companhia de Teatro do Barreiro Arteviva estreou, ontem, no Teatro Municipal o seu novo trabalho, a peça “Noites de Lua Cheia”, uma comédia de Fernando Gomes, com encenação de Jorge Cardoso.
A Companhia de Teatro Arteviva, a companhia residente no Teatro Municipal do Barreiro está, este ano, a comemorar os seus 25 anos de vida e, para começar, talvez, sublinhar que o “Arteviva” com este espectáculo comemora as suas bodas de prata com o mérito de uma merecida “Medalha de Ouro”, a distinção que atribuimos a “Noites de Lua Cheia”.
É caso para dizer, para quê festa, ou velas, ou até mesmo bolo, quando no palco há teatro feito por brilhantes actores, com uma encenação de grande dimensão estética e um público que se diverte, até às lágrimas, ao assistir às “Noites de Lua Cheia”.
Que melhores parabéns podem receber, os homens e mulheres, amantes-amadores de teatro que, com “profissionalismo” criam uma enorme empatia com o público, dominam por completo o texto assimilando-o nas personagens e que, de facto, provam como, mesmo que tudo esteja suspenso por um fio, ou a paisagem seja uma simulação do real, ali, no palco se cruza a vida recriada com ironia e com o prazer do riso.
Um espectáculo hilariante do principio ao fim. Divertido e crítico. Parabéns!
Uma estreia em apoteose!
Do fazer Arte Viva
A Companhia de Teatro do Barreiro Arteviva que, ainda recentemente, levou-nos a rir para uma “cave”, no Parque da Cidade, agora trouxe o riso para um espaço onde as paredes flúem, movimentam-se, e onde as personagens reais são, ao mesmo tempo, personagens imaginárias que nascem de máscaras, porque se é “Carnaval ninguém leva a mal”.
Por vezes, fico com um sentimento que as peças encenadas por Jorge Cardoso, elas mesmas, são a emergência de uma vontade de expressar um discurso, sobre a cidade, para a cidade, de certa forma, as suas leituras dos tempos que vamos vivendo.
Ainda, nos dias de hoje, penso que não foi um acaso, aquela encenação na “Cave” no Parque da Cidade, foi uma vontade de gritar, com risos, sobre as regras do jogo feitas por árbitros, que apenas pretendem influenciar os resultados e pouco se preocupam com a qualidade das equipas em campo, ou com os objectivos de curto e médio prazo.
E agora, esta encenação, com as cadeiras presas por um fio, quase que nos gritam, alertando para o fenómeno, como não são perenes as cadeiras do poder e aquela parede oscilante, em perspectiva, dá a dimensão desse sentimento, real, que o mundo é composto de mudanças, “tomando sempre novas qualidades”.
Talvez, como é referido, no programa do espectáculo, no meio de tudo isto, nestes tempos que vamos vivendo, ainda exista um oásis, nesta cidade, ali, onde é possível “a rir, sorrir, cantar, e dançar…com as noites do Arte Viva!”, sentirmos que a cidade tem gente que a ama, gosta de viver aqui e quer continuar a sonhar, seja na “Cave”, seja com paredes flutuantes, porque…há sempre um “teatrozinho” onde é possível fazer Arte Viva!
Encenação compromisso com o texto
Gostámos daquela abertura radiofónica, onde de súbito, como público, nos desdobramos, porque somos conduzidos para a situação temporal onde a peça vai decorrer e, simultaneamente, sentimos que a vida é real, ao recordarem-nos para desligar o famigerado telemóvel, da actualidade.
O cenário é estruturante para enquadrar as personagens no espaço e no tempo, e, também é ele mesmo uma “metáfora” que nos conduz ao interior do texto e dos sentimentos dos personagens.
Sente-se, ao longo da peça, que há um fio condutor na encenação, um compromisso com o texto e com o lugar que cada actor ocupa no espaço cénico.
O guarda roupa parece pensado de forma a dar a própria “caracterização” das personagens, nos seus tiques, nas suas linguagens e “lugares discursivos” no espectáculo.
A iluminação e os momentos musicais são elementos enriquecedores da peça contribuindo para lhe dar ritmo, criando momentos de animação e pausa que contribuem para introduzir momentos lúdicos, de alguma forma, quase transformando a sala num “cabaret” dos anos 40.
Actores - todos foram excepcionais
Bom, quanto aos actores, referir que estiveram todos no seu melhor. Foram excelentes.
Rui Félix, no seu papel de Pedro Alves, deu a verdadeira dimensão da sua ferocidade e criou o personagem com rigor.
A sua entrada em palco “napoleónica” cria, na verdade, a verdadeira dimensão psicológica do terrível Pedro Alves, esta, é sem dúvida uma caricatura que recria a personagem e um momento comediante conseguido de forma plena, pela encenação e pela presença de um actor de cinco estrelas. Óh homem, mais força naquele apito! Caramuuuuloo…
Ângela Farinha, no seu papel de Maria, vive talvez, um dos seus mais gozados papeis, uma presença que cruza todo o espectáculo, com uma interpretação soberba, quer na interpretação gestual, quer no ritmo quer na forma como dá vida à sua “inquieta” personagem. Aleluia!
Bruno Vitoriano, no seu papel de Toninho, foi uma agradável surpresa, uma jovem promessa, um actor em potência, com um guarda roupa adequado ao sentido satírico-irónico da sua personagem que ele consegue dar-lhe vida plena e, na verdade, até marca presença em palco quando se exprime em silêncios-gestuais.
Joana Pimpista, no seu papel de Leonor, sem dúvida, continua a crescer, a crescer como mulher, a crescer como actriz, é, um força viva, com movimento, utilizando de forma fluente o seu corpo e voz, para dar força a uma personagem que é indispensável manter viva e sempre presente ao longo do espectáculo. Consegue tudo isto com vitalidade.
Manuela Ramos Félix, no papel de Luzia, atingiu um nível que supera o próprio texto, numa personagem que, também, está enriquecida pelo guarda roupa – sem dúvida quem tem um olho é rei. A sua entrada “policial-militar” é magnífica, um momento de verdadeira “commedia dell’arte”.
Manuela Ramos consegue, de forma perfeita, construir a sua personagem, que é, na verdade, bem moldada, quer enquanto “enviada de Deus”, quer na sua “erótica” vertente militar. Uma brilhante interpretação. E que bem que ela fala alemão?!
Ricardo Guerreiro, no seu papel de Joli – O Padrinho – é fenomenal, na forma como consegue dominar a voz, nos vários cambiantes que o texto lhe exige, criando com energia a dimensão da personagem, quer no seu jogo facial, quer gestual, uma interpretação que reputamos de referência.
Uma personagem que marca a sua presença no espaço cénico, através do corpo, da voz e na gestão de todas as “nuances” que a personagem lhe exige que sejam construídas.
Um espectáculo de selecção
Em suma, o encenador Jorge Cardoso, escolheu uma “selecção” entre os muitos que fizeram 25 anos de vida da Companhia de Teatro do Barreiro Arteviva, para nos brindar com um excelente espectáculo cómico-musical, com um agradável texto, que nos diverte e também nos leva a pensar que a vida…a rir pode ter outro sabor!
Este espectáculo merece que o público do Barreiro e da região corresponda, marcando presença nos espectáculos do ARTE VIVA.
Um espectáculo que pode ser classificado com a palavra EXCELÊNCIA!
Ficha Técnica
NOITES DE LUA CHEIA,
de Fernando Gomes
Encenação: Jorge Cardoso
Cenografia: Sara Franqueira
Figurinos: Ângela Farinha
Coreografias: Carina Silva
Elenco:
Rui Félix
Ângela Farinha
Manuel Félix
Ricardo Guerreiro
Joana Pimpista
Bruno Vitoriano
A peça sobe ao palco do Teatro Municipal do Barreiro, às sextas e sábados, às 22h00.
Os bilhetes variam entre os 5 euros para o público em geral e 3 euros para jovens, reformados e grupos com mais de dez pessoas.
"Noites de Lua Cheia" fica em cena até ao final do mês de Janeiro.
ARTEVIVA - COMPANHIA DE TEATRO DO BARREIRO
Associação Cultural residente no : TEATRO MUNICIPAL DO BARREIRO
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Horário de Bilheteira: Quintas, Sextas e Sábados das 18h00 às 22h00













