Em Alhos Vedros – MoitaUma noite com o pensamento de Agostinho da Silva para desagregar as consciências”
Por Jornal Rostos
A CACAV – Cooperativa Cultural de Animação de Alhos Vedros, conjuntamente com a Associação Agostinho da Silva, realizou, na Biblioteca Municipal de Alhos Vedros, uma Conferência intitulada "Três Olhares sobre Agostinho da Silva: O Filósofo...O Poeta...O Professor", com as intervenções de Paulo Borges, de Risoleta Pedro e de Miguel Real.
Esta uma iniciativa integrada nas comemorações do centenário do nascimento de Agostinho da Silva.
Desagregar as consciências
Paulo Borges, abordou a perspectiva do pensamento filosófico de Agostinho da Silva começando por sublinhar que para aquele filósofo, “o importante não era pensar sobre a vida, mas vivê-la plenamente”, recordando que ele cultivava “uma sabedoria de vida”.
Salientou que Agostinho da Silva vivia a “incitar os outros a despertar a consciência” e a construir a “obra maior que é a nossa própria vida”, porque, “o que nós escultimos é a nossa vida”.
Na opinião de Paulo Borges, Agostinho da Silva procurava “desagregar as consciências” de forma a “desinquietar daquilo que temos mais certo”.
Saudade “move a humanidade”
Referiu Paulo Borges que no pensamento agostiniano “o drama fundamental da existência humana, resulta da cisão do sujeito-objecto, do eu-outro ( o mundo)”, porque “a humanidade que nós somos nasceu e desenvolveu-se a partir de uma ruptura com a natureza”.
Para Agostinho da Silva, a saudade é o “sentimento mais fundo que move a humanidade”, salientou Paulo Borges, porque este é “um sentimento de separação entre nós e uma plenitude que achamos sempre perdida”.
Homem é uma centelha de uma luz divina
Para Agostinho da Silva, recordou Paulo Borges, o “homem é uma centelha de uma luz divina”, sendo o “mundo uma divindade imanente”, o homem é divino em união com a divindade.
No pensamento agostiniano, a Filosofia é “um meio para superar um fim”, é “uma mediação para superar o sentimento de cisão” e, acrescenta que “o que supera é o amor”.
“O amor é a experiência humana que nos coloca para além da superação” – é a dimensão expressa no pensamento agostiniano porque a “sabedoria do amor” é “saber amar amando”.
Reinventar o mundo a partir do nada
Sublinhou Paulo Borges que, para Agostinho da Silva a “cultura popular do Espírito Santo” é uma “manifestação específica da cultura portuguesa” de “autorealização poética” e de “transformação interior”.
Referiu que no pensamento agostiniano, “o divino na sua relação com o humano” desenvolve-se em “três eras” : Idade do Pai – organização do mundo, de obediência à lei, a filosofia é legisladora, o sujeito contra o mundo; Idade do Filho – trás a experiência do amor, leva a viver a experiência da dádiva de si; Idade do Espírito Santo - revelação da unidade profunda entre o humano e o divino, uma experiência mística, supera a relação com o mundo de dádiva ao outro pelo amor.
No pensamento agostiniano, salientou Paulo Borges, “cada uma das nossas mentes é o nada e é tudo”, e ao homem cabe “reinventar o mundo a partir do nada”, é um demiurgo, que “cria o mundo a cada instante ao pensá-lo”.
Cada um é um poema único
Risoleta Pedro, abordou a perspectiva poética da obra de Agostinho da Silva, salientando que harmoniza duas tendências, uma de acção, outra da experiência humana, uma tendência na dimensão da poesia de Maiakovsky, “o poeta operário” ; outra na dimensão da poesia dee Rylke, “a experiência da morte em vida”.
Na sua opinião encontra-se na poesia de Agostinho da Silva a “elegância do Padre António Vieira”.
“A poesia agostiniana é marcada por espontaneidade e racionalidade” – salientou Risoleta Pedro, acrescentando que nele a poesia “é uma plataforma entre o que somos e algo que seremos”, é “um ligar de sombra que ilumina a luz”.
Há na poesia de Agostinho da Silva, “uma modernidade que não vem da moda, é autêntica e intemporal” – salientou.
Na opinião de Risoleta Pedro na sua poesia Agostinho da Silva cultivou a ideia que cada um de nós deve “descobrir-se como poema único e inventá-lo”.
Educação é uma concessão de liberdade
Miguel Real, falou sobre a dimensão de Agostinho da Silva, enquanto pedagogo – o professor.
Na sua opinião para Agostinho da Silva a “educação é uma concessão de liberdade” sendo o professor “um estimulador” da “liberdade plena da criança desabrochar”, ajudando-a a “ser ela própria”.
Referiu que para Agostinha da Silva a “escola é encontro de sabedoria, um estimulador de perguntas, a escola é a casa que acolhe quem quer aprender”.
Salientou que a pedagogia não faz sentido para Agostinho da Silva que cultivou o que, Miguel Real, definiu como “uma Anagogia”, preceitos auxiliadores que ajudam cada um a descobrir que “nascemos como estrela de impar brilho”.
Centro Bibliográfico Agostinho da Silva
A Associação Agostinho da Silva ofereceu à Biblioteca de Alhos Vedros um conjunto de obras de Agostinho da Silva e sobre Agostinho da Silva, para dar início à concretização de uma proposta que visa estimular a criação, em Alhos Vedros, de um fundo bibliográfico que permita, na margem sul, a futura criação de um Centro de Pesquisa dedicado a Agostinho da Silva.
Há algumas décadas que o nome de Agostinho da Silva está ligado a Alhos Vedros, quer participando em iniciativas naquela localidade, quer recebendo membros da Cooperativa CACAV.
Na margem sul, de facto, para quem acompanha as “coisas” de animação cultural, Agostinho da Silva tem, na verdade, em Alhos Vedros, uma referência.
Foi positivo e aqui registamos este passo dado pela Associação Agostinho da Silva, dando o primeiro passo para criar o Centro Bibliográfico Agostinho da Silva, na Biblioteca de Alhos Vedros.
Será importante que a Câmara Municipal da Moita agora, potencie e não deixe de desenvolver este “pólo” de referência, alargando-o e divulgando-o nas escolas e na região.













