Arte Viva - BarreiroEntre a força da palavra e o silêncio purificador
Célia Figueira – um esplendor. Uma diva do teatro barreirense. A vivência plena dos “signos verbais”.
Célia Figueira, assume, com coragem a linguagem, de forma pura, como meio indispensável para transmitir a mensagem. Com emoção. Com a força das palavras, que afinal são isso, apenas isso, palavras.
Ricardo Sousa – uma presença marcada de silêncio, gestual, nos movimentos e expressões necessários, o quanto basta, para se sentir que ele simboliza a vivência total dos “signos não verbais”.

Por Jornal Rostos
No Teatro Municipal do Barreiro, o Arte Viva – Companhia de Teatro do Barreiro, estreou a peça “Não Digas Nada”, da autoria de Tiago Torres da Silva ( que marcou presença no espectáculo), com encenação de Jorge Cardoso.
Na assistência de registar a presença de Carlos Humberto, Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, de Regina Janeiro, Vereadora do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal do Barreiro e, também, Luís Pedro Cerqueira, vereador eleito pelo Partido Socialista.
O espectáculo findou e na memória ocorreu-me que, nos finais dos anos 70, participei na SIRB “Os Penicheiros”, durante três meses, num Curso de Teatro, promovido pelo Ministério da Cultura em colaboração com a APTA – Associação Portuguesa de Teatro de Amadores.
Foi um experiência vivida, em situações de “laboratório”, dirigida por Semme Lutfi, um actor brasileiro, que vivia de forma intensa e apaixonada o teatro, ao ponto de ir dormir a minha casa, para no dia seguinte estar presente no Barreiro, nas acções que eram programadas, á margem do referido curso.
E, de facto recordo esta situação porque, ma altura, numa das “vivências físicas laboratoriais”, um grupo a quem foi feita a proposta de “criar uma experiência de vida no meio operário”, de improviso, às tantas, deu-se um diálogo que meteu “alhos” e “bugalhos”, “foram-se” e outras coisas mais…
Na circunstância, registou-se, no seio dos participantes no curso, um burburinho, de alguns mais idosos, que achavam a linguagem indecente e pouco propícia – “Até porque estavam ali senhoras”.
Normalmente, havia uma “espécie de trabalho para casa” que cada um individualmente, ou em grupo, ficava de “construir” e apresentar no reinicio dos trabalhos da semana seguinte, como proposta para reiniciar as acções “laboratoriais”.
Então, alguns, entre os quais me inclui, assim como a minha Lurdes, decidimos fazer a proposta de apresentar um trabalho de Grupo.
A proposta fazer a vivência de “uma sala de aula”, cujo tema seria “educação sexual”.
A Lurdes a professora. Os restantes os alunos. A aula começou. A professora explicava, apontando um corpo de homem e outro de mulher, os diferentes órgãos do corpo humano.
“Aqui é o pénis” – dizia, apontando. Um aluno levanta-se e diz : “Mas, professora o meu pai diz que isso é o c…” ( e dizia, não havia pi).
A professora continuava : “Aqui é a vagina”. Apontava. Outro aluno, erguia-se e dizia : “Professora, o meu pai diz que isso é a c..”.
Bom, ela foi explicando, explicando, até que procurou explicar o “acto sexual”.
Ao que um aluno, levantou-se e disse : Mas, professora, o meu diz que isso é f…”
O clima foi aquecendo e, o facto, é que nesse dia o Curso teve que ser interrompido. Tal foi o burburinho.
Recordo esta situação, porque, de facto ao assistir a este novo espectáculo, senti, na verdade, como vão longe os anos 70 e, pasme-se o PREC. É que vivíamos o PREC.
E tudo isto ocorreu-me ao pensamento, ao escutar a fluidez de linguagem, a força das palavras, ou até mesmo a força do silêncio, nesta nova peça “Não digas nada”, que o Arte Viva levou à cena, prestando uma justa homenagem ao teatro e honrando, com muita dignidade, o Dia Mundial do Teatro.
Outro pensamento que me ocorreu, por várias vezes, nesta peça, foi aquele poema de Bertolt Brecht : “Sente-se”
Sente-se.
Está sentado?
Encoste-se tranquilamente na cadeira.
Deve sentir-se bem instalado e descontraído.
Pode fumar.
É importante que me escute com muita atenção. Ouve-me bem?
Tenho algo a dizer-lhe que vai interessá-lo.
Você é um idiota”.
Pois. Este poema ocorreu-me ao pensamento sempre que Célia Figueira dizia : “Não diga nada” ou “Sente-se”.
Era o poema de Brecht que eu sentia, presente, ali, real nas palavras, nos sentimentos que eram expressos a cada passo, a cada gesto.
Num livro sobre didáctica de teatro, encontrei a pergunta : “O que é a representação?” E, a resposta dada é que a “representação são um conjunto de signos verbais e não verbais”.
Nesta peça - “Não Digas Nada” – estão em cena dois actores.
Célia Figueira – um esplendor. Uma diva do teatro barreirense. A vivência plena dos “signos verbais”.
Célia Figueira, assume, com coragem a linguagem, de forma pura, como meio indispensável para transmitir a mensagem. Com emoção. Com a força das palavras, que afinal são isso, apenas isso, palavras.
Aliás, as palavras sentidas com paixão, de quem sente o passado emergir, de súbito, numa cassete vídeo que, afinal, nunca tinha visto.
Ah, como vão longe os anos 70 ( que vagueiam no meu pensamento).
Célia Figueira dá força ao peso das palavras, porque as palavras “são a alma”.
Ricardo Sousa – uma presença marcada de silêncio, gestual, nos movimentos e expressões necessários, o quanto basta, para se sentir que ele simboliza a vivência total dos “signos não verbais”.
O Ricardo está de parabéns. Soube estar, sem vacilar, presente, naquele processo de comunicação avassalador, marcado pela dimensão de Célia Figueira.
Ricardo Sousa é, afinal, na peça, a presença do “silêncio purificador”.
A peça vai em crescendo, no caminhar entre o presente e o passado – o álbum de fotografias, é, de facto sublime – porque nos transporta à dimensão da fotografia, que nos conduz ao “instante”, ao que resta da memória.
“Estava tudo tão quieto” – refere a avó Júlia, que vivia em diálogo entre o presente e o passado e de súbito, sente, que vai passar a ter que viver, sozinha, consigo mesma, real .
Sim, de facto, a “Avó Júlia” vai ter que deixar de viver “com outra pessoa ao meu lado”.
Se o texto de Tiago Torres da Silva é esplêndido no desmontar das “moralidades”, num grito de protesto contra a hipocrisia, Célia Figueira, coloca na personagem da “Avó Júlia” toda a energia de quem aprendeu a “amar o corpo” e abre pistas de reflexão para quem quiser encontrar uma resposta à pergunta: “Sabe o que é fugir da vida?”
No final da peça, olhámos e vimos, que Célia Figueira, tinha o seu olhar brilhante – uma lágrima emergia suave.
É isto a paixão pelo teatro, que só quem ama o teatro sabe sentir.
Cheguei a casa com a peça “Não digas nada” a fervilhar por dentro dos meus nervos. Não ia dormir, de certeza, sem mandar cá para fora os meus sentimentos e expressar, aqui e agora, ao Jorge Cardoso, a Célia Figueira, ao Ricardo Sousa, ao Tiago Torres da Silva e ao ARTE VIVA, o meu sincero agradecimento, por fazer sentir que no Barreiro, faz-se teatro, com coragem, com sentimento e sem medo das palavras…
Afinal, porra! Estamos no Século XXI.
O cenário é simples. Uma sala. Um mesa. Uma televisão. O telefone que nos liga ao mundo exterior. Sim, o “vinho tinto fresco”… e aquele copo que se ergue, no final, como quem faz um brinde à harmonia entre o corpo e alma. As marcações são as que bastam, ao compasso do “monólogo” que, diga-se, quase que não sentimos que é um monólogo, pela sua expressividade e pelas respostas “miméticas” que marcam a “duplicidade dramática” vivida pelos personagens.
O espaço, de facto carece de insonorização porque, por vezes, somos incomodados pelos ruídos que chegam do exterior e perturbam, quer actores, quer os espectadores, gerando um “ruído” de comunicação enervante.
Uma peça para não perder. Para rir. Para reflectir. Para nos ajudar a olhar para dentro de nós e sermos capazes de enfrentar o dilema entre o “corpo” e a “moral”…com um sorriso e sem hipocrisia.
Parabéns Arte Viva.
Como nota final, recordo que o autor da peça, Tiago Torres da Silva, presente na estreia, sublinhou que a peça já foi levada a cena três vezes, mas nunca tinha sentido, com tanta força e tanta sentimento a personagem da “Avó Júlia”, construída por Célia Figueira.
Termino sublinhado que o Barreiro viveu o “Dia Mundial do Teatro”, sem dúvida, de forma sublime. Parabéns Arte Viva. Parabéns Jorge Cardoso.
Um grande beijo para a diva Célia Figueira
Um abração para o Ricardo Sousa
António Sousa Pereira
Ficha Técnica
Texto – Tiago Torres da Silva
Interpretação – Célia Figueira e Ricardo Sousa
Encenação – Jorge Cardoso
Assistente de Encenação – Genoveva Pimpista
Figurinos e Adereços – Maria Matilde cavaco
Apoio Geral – Dário Valente e Rita Conduto
Design e Comunicação – Rui Martins
Divulgação – Joana Pimpista e Ana Pimpista
Apoio da Câmara Municipal do Barreiro
O espectáculo tem lugar às sextas e sábados, às 22 horas, no Teatro Municipal do Barreiro.
Os bilhetes têm o preço de 7,5 euros para o público em geral e 5 euros para crianças, jovens e maiores de 65 anos.













