FOLHAS DE POESIARelançamento na Casa Fernando Pessoa em Lisboa

Por Jornal Rostos
Os nºs 1 e 2 da nova série de Folhas de Poesia, dedicados à poetisa recentemente desaparecida, incluem, o nº 1, poemas de Maria João Fernandes (“Fonte Encontrada”) e de Eugénio de Andrade (“Em Florença com a Fiama”), ilustrados por Ambrósio Ferreira e o nº 2, o poema “Cântico dos Cãnticos” de Gonçalo Salvado acompanhado pela imagem de uma escultura com o mesmo título do artista francês Paul Landowski. Acompanham 30 exemplares numerados e assinados do nº 1, e estarão patentes na ocasião, uma fotografia de Teresa Huertas (com o título “Fonte” e duas fotografias de João Prates (com o título “Desenhar com Água”), Director do Centro Português de Serigrafia, que actualmente comemora os seus 20 anos de actividade. Acompanham 20 exemplares numerados e assinados do nº 2, desenhos originais de Gonçalo Salvado.
FOLHAS DE POESIA 1957-2007
NOTA DE REABERTURA
A revista Folhas de Poesia, de breve e marcante existência, criada em Lisboa em 1957 por António Salvado e Helder Macedo, fruto do diálogo e do entusiasmo de jovens intelectuais reunidos sob o signo do mítico Café Gelo, que muito inspirador para a cultura portuguesa se tinha já revelado, juntou em quatro fascículos, durante o período de dois anos, de Janeiro de 1957 a Junho de 1959, colaborações e inéditos de nomes proeminentes da literatura portuguesa e estrangeira.
A exemplo de outros meteóricos e fulgurantes projectos como Orfeu cujo segundo número Fernando Pessoa dirigiu juntamente com Mário Sá-Carneiro em 1915, Portugal Futurista que viu um único número publicado em Lisboa em 1917 e a revista Athena dirigida por Fernando Pessoa e Ruy Vaz (com apenas cinco números de Outubro de 1924 a Fevereiro de 1925) a duração de Folhas de Poesia foi efémera. Vicissitudes de vária ordem a que não foram alheios motivos financeiros, deste grupo de então jovens artistas em início de vida e de percurso, contribuíram para que esta publicação de grande envergadura que promovia um pioneiro diálogo estético entre poetas portugueses e estrangeiros, de já então grande nomeada, não tivesse a continuidade merecida.
Ficou no entanto o testemunho dos quatro originais e muito bem preenchidos cadernos, onde se destaca a presença do futuro Prémio Nobel da Literatura de 1975, Eugénio Montale, a par dos inéditos de Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, António Maria Lisboa, Edmundo Bettencourt, Afonso Duarte, Branquinho da Fonseca, José Régio, Jorge de Sena, Fernanda Botelho, Alfredo Margarido, David Mourão-Ferreira ou Carlos de Oliveira, bem como se registam os inícios de poetas que se viriam a afirmar nas décadas seguintes. Além dos fundadores, António Salvado e Helder Macedo, estão neste caso Herberto Helder (co-organizador com António Salvado de um dos fascículos), João Rui de Sousa e Fernando Echevarria. De salientar que o último número (o 4º) foi todo ele dedicado à poesia completa de Ângelo de Lima (o famoso poeta “louco” do Orfeu ) que ali se reunia e publicava pela primeira vez. A notar ainda as presenças e o belo contributo dos artistas plásticos autores das capas: René Bertholo, Lourdes Castro e José Escada que entre 1958 e 1968 se uniriam em Paris na excepcional aventura do KWY e ainda do artista hoje mais ou menos desconhecido, Lopes Alves, autor da poética e sugestiva imagem que escolhemos como símbolo da presente segunda série.
Folhas de Poesia não foi apenas revista, pretendendo afirmar-se simultâneamente como editora, chegando a publicar como primeiro e único título, o volume Vesperal, estreia poética de Helder Macedo, com capa e arranjo gráfico de João Vieira, livro que foi saudado por Jorge de Sena como sendo dos “mais perfeitos que por esse tempo se publicaram”.
Cinquenta anos após a sua criação as Folhas de Poesia ressurgem agora com novo ímpeto na expectativa de uma renovação e de uma continuidade que deixem florescer o legado que nos transmitiu. Se a poesia é “uma alma inaugurando uma forma” (Pierre-Jean Jouve) ou o “combate por um corpo adequado à imaginação” (Eduardo Lourenço), pretendemos hoje ligar sempre e uma vez mais, num espírito que se deseja plural, poetas e artistas, a palavra e a imagem, visando a conquista de novos horizontes do imaginário sob o signo do lirismo e do sonho (outro nome para a surrealidade), na perspectica de Rui Mário Gonçalves, que subscrevemos, grandes constantes da nossa cultura.
Gonçalo Salvado / Maria João Fernandes
Lisboa, Maio de 2007













