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Moldura

TEB – Teatro de Ensaio do BarreiroPorque é preciso rasgar o silêncio e gritar :
a tragédia continua!

. Vai estar em cena até Março de 2009, todos os sábados, pelas 21 horas.

O TEB – Teatro de Ensaio do Barreiro estreou, ontem, a peça “Casa de Pais”, de Francisco Ventura, com encenação de Graciano Simões, um drama que cativou o público e recordou que…a tragédia continua.

Um tema sempre actual que coloca, para reflexão, a importância de colocarmos no centro dos nossos dias os ideais do amor e do respeito por nós e pelos outros que nos rodeiam.

8 min de leitura
TEB – Teatro de Ensaio do Barreiro Porque é preciso rasgar o silêncio e gritar : a tragédia continua!

Por Jornal Rostos

A peça levada à cena pelo TEB – Teatro de Ensaio do Barreiro, “Casa de Pais”, é um drama, em três actos, de Francisco Ventura, cuja temática, segundo o programa, remonta à tragédia do “Rei Lear”.
Em síntese a peça tem como história os afectos, ou ausência de afectos, entre Domingos, um velho, pai e os seus três filhos.
Teresa, casada com um dos filhos, procura influenciar a tomada de decisão que visa o abandono do pai.
Os dois irmãos mais velhos tomam a decisão de abandonar o pai e deixá-lo a viver de esmolas, esquecendo tudo o que dele receberam.
O filho mais novo, António, é contra esta decisão, e, tal facto, conduzirá a uma intensa vivência de emoções, nomeadamente ao ser colocado perante a opção entre ter que decidir entre o “amor de pai” e a sua paixão - o “amor da sua vida”.
Uma peça marcada de intensa emoção que, por vezes, transbordou para o público, reagindo ao carácter maligno de algumas personagens, principalmente Teresa, e, de forma natural, assumindo o público o papel de “jurado” da contenda que decorre no espaço cénico.

Um tema com actualidade

O texto é fluído, simples, marcado por referências morais, ditos populares que fazem parte da tradição e da moral da nossa cultura judaico-cristã.
As marcações são o necessário para posicionar as personagens no espaço cénico, sem conflitos entre si, e contribuindo para a dinâmica e ritmo do espectáculo.
O cenário funciona como um “puzle” que, se vai estruturando e desestruturando criando a “ilusão” da interioridade quando as cenas são “dentro de casa” ou de exterioridade, quando a cena se desenrola no “lugar” público – o largo da terra.
Aliás, o pelourinho, no centro da cena, quando a acção decorre no exterior, dá bem essa dimensão “Tribunal”, ou dos cenários de arena das tragédias Gregas.
Por outro lado, esta dinâmica da encenação, alerta-nos para o facto que, existem acontecimentos, que sendo dentro da casa de cada um, nas relações familiares, são afinal acontecimentos que a todos dizem respeito e mereciam a reflexão ao nível da comunidade.
A encenação dá essa dimensão da interioridade ( a acção dentro de casa) e da comunidade (a acção no exterior), tudo fazendo parte da mesma dimensão e drama da humanidade – basta mudar o local das pedras do “puzle” que faz a realidade e sentirmos o lugar donde lançamos o nosso olhar para os acontecimentos.
Como se nota, na verdade, basta mexer as peças do puzle e “tudo o que é humano não nos pode ser estranho”. A comunidade comenta, nos burburinhos que chegam do lado de lá do espaço cénico ( e são escutados no próprio público).

A iluminação permite a completa dimensão do espaço e, de facto, é usada, no momento próprio, para dar a dimensão do drama e dos sentimentos que atravessam o texto e a vivência das situações pelas personagens.
A música, igualmente, tem um registo equilibrado e funciona como um suporte de “comunicação” dos conflitos e da especificidade psicológica das situações.
Graciano Simões demonstrou mais uma vez que é possível fazer teatro, mesmo quando os recursos espaciais são curtos e os recursos não abundam.
“A tragédia continua…” - afirma o Ansião, na abertura do espectáculo, como a recordar que, afinal, o tema que vai emergir do texto da peça, não é uma história banal, mas um tema ou assunto que continua presente, e sempre actual, numa sociedade que continua a “olhar” para a velhice como um fardo.

Celeste Ricardo foi brilhante

Quanto às personagens, uma primeira referência a Teresa, desempenhada por Celeste Ricardo que, poderá dizer-se viveu, talvez, um grande desafio da sua vida de actriz, por esta ser a personagem principal que atravessa toda a peça, sendo o seu fio condutor.
Foi um desempenho brilhante, dominou a personagem, transbordou nas emoções ( por vezes com alguns excessos perdendo o domínio da voz), mas, no essencial, funcionou com a naturalidade que deve marcar as vivências das personagens.
Celeste Ricardo tem nota positiva e merecia, no final do espectáculo um aplauso especial, uma referência, porque venceu ao conseguir transmitir as emoções e o carácter da sua personagem.

António Santos dominou a personagem

Em segundo lugar, de registar Domingos, outra personagem central e, centro do drama. António Jorge Santos, que desempenha este papel, tem uma entrada triunfal, assumindo plenamente o personagem, nos seus tiques, no torpor da sua velhice, na expressão do seu rosto que anuncia o drama e os sentimentos que invadem o seu coração.
António Santos, manteve ao longo da peça a sua personagem, com uma dicção equilibrada, com a total vivência e permitindo momentos de forte plasticidade, desempenhando a sua acção, mesmo nos momentos que está, meramente, sentado no palco.

Tina Santos - a sua paixão pelo teatro

Outra personagem, que marca a peça – Palmira – é desempenhada por Tina Santos. Como sempre habitou-nos à sua forte dicção, a uma presença que se sente no palco. Esteve bem, e foi essencial as suas presenças, em contra-encenação, numa comunicação gestual que permitia o pensar a evolução do drama e as contradições dos diálogos em palco.
Tina Santos, esteve à vontade, mas, um registo, talvez demasiado à vontade, esquecendo aquilo que diz Stanislavski, que um actor – “no palco deve sempre estar em acção física ou espiritual” – o que significa que um actor, pode e deve, “estar sentado e em plena acção”.
Tina Santos, ao estar sentada e cruzar as pernas, cometeu uma gaffe, perdendo a naturalidade da personagem perante o público. Esqueceu a personagem por instantes. Não estava no ensaio geral, estava na estreia.
Mas, retirando este pormenor, esteve muito bem e, mais uma vez, demonstrou a sua paixão pelo teatro.

As personagens foram sentidas pelos actores

A Joana – esposa do Joaquim - foi a personagem desempenhada por Cristina Aguiar, que fez a sua estreia em palco. Um começo promissor, com vontade e com um desempenho que demonstrou naturalidade perante o público.
Nuno Antunes, desempenhou - o António, o filho que viveu o drama entre o “amor de pai” e o a sua “paixão”, dominou o personagem, esteve bem, tem que trabalhar um pouco a dicção e não se deixar dominar pela personagem para além da ficção, porque o teatro não é a realidade, mas é a realidade ficcionada.
Nuno Antunes, foi uma presença positiva no elenco e esteve à altura dos conflitos vividos pelas personagens.
Pedro Baião - o Abílio, dominado pela Teresa – viveu de forma plena o seu papel, expressando com facilidade as angústias e a personalidade de uma personagem que, sem dúvida, era importante para dar a dimensão dominadora e castradora da Teresa.
Pedro Baião teve um registo positivo.
A finalizar falar de duas outras personagens – Remédios, a namorada do António – desempenhada por Núria Pinto, esteve bem, no entanto, notou-se estar nervosa a viver a personagem com alguma angústia. Na verdade, basta libertar-se do stress para alcançar uma mais forte presença em palco.
Por fim, o Joaquim, desempenhado por Pedro Santana, de referir que viveu o seu personagem com naturalidade e com um desempenho agradável.

“Casa de Pais” mereceu destaque na RTP

Como nota final de referir que a peça “Casa de Pais”, de Francisco Ventura, foi levada à cena pelo Grupo Cénico do Centro Social e Polivalente de Ourentã, VIII Ciclo de Teatro de Cantanhede, no ano de 2006. Igualmente o Grupo Cénico de Barroselas, fez a sua estreia com esta peça, em Dezembro de 1967.
Por outro lado é de salientar que a RTP, segundo biógrafos de Francisco Ventura, “não ficou indiferente ao sucesso de CASA DE PAIS e transmitiu-a variadas vezes, sendo, ainda hoje, a peça com maior número de transmissões a pedido do público”
FRANCISCO Manuel VENTURA nasceu em Gavião em 16 de Fevereiro de 1910.
Em 23 de Novembro de 1979 (Feriado Municipal do concelho de Gavião) o seu nome foi atribuído a uma rua em Gavião e o seu nome foi atribuído, igualmente, ao Teatro Municipal.
Faleceu em 26 de Agosto de 1994, vítima de doença prolongada, deixando obra no domínio da poesia, do ensaio, do teatro (inclusive infantil).
Por fim, referir que na estreia do espectáculo do TEB, na Oficina de Teatro Mário Pereira, esteve presente Carlos Humberto, Presidente da Câmara Municipal do Barreiro e Regina Janeiro, vereadora do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal do Barreiro.
O novo espectáculo do TEB vai estar em cena até Março de 2009, todos os sábados, pelas 21 horas. Não esqueça 21 horas…vá ao teatro!

António Sousa Pereira

UM BREVE REGISTO DA ESTREIA


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