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Conferência em SetúbalCamões e Bocage na Propaganda Republicana

A capitalização das grandes figuras históricas portuguesas, como Bocage, em favor da causa republicana foi destacada numa conferência realizada ontem, ao final da tarde, na Biblioteca Pública Municipal de Setúbal.

Na conferência “Os Centenários de Camões e de Bocage e a Propaganda Republicana”, organizada pela Câmara Municipal no âmbito das Comemorações Bocagianas e do centenário da República, o investigador de História local Carlos Mouro frisou que a celebração dos centenários “na nova modalidade laica traduz-se num benefício claro do ideário republicano”.

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Conferência em Setúbal Camões e Bocage na Propaganda Republicana

Por Jornal Rostos

Carlos Mouro lembrou que os centenários, “enquanto instituição comemorativa, têm uma história que remonta à baixa Idade Média, ao séc. XIV”, e que a adopção desse modelo católico de celebração “pelo ideário positivista de oitocentos” acaba por se constituir como o grande momento da laicização da sociedade e, assim, abrir caminho á queda da monarquia.

A celebração, em 1880, do tricentenário de Camões, seguida das comemorações centenárias do Marquês de Pombal e de Bocage, entre outras, foram as iniciativas mais marcantes deste período, promovidas pelo Partido Republicano, que se quer apresentar como alternativa ao poder monárquico.

A inspiração republicana decorria dos ideais da Revolução Francesa, que pretendia começar “um tempo novo, alternativo e revolucionário”. O novo modelo de gestão da sociedade, baseado em Auguste Comte, o “pai da Sociologia”, e em Kant, defendia, segundo Carlos Mouro, que a autoridade “devia ser exercida por grandes homens que se tinham destacado pelas suas acções” e não por títulos régios ou religiosos.

O outro conferencista do painel, Álvaro Arranja, frisou que a intenção republicana foi a de “criar uma ideologia que substitui a ciência pelos santos”, com o recurso ao culto das figuras históricas, aproveitando a própria condição humana, que necessita de expressões de afectividade colectiva como forma de coesão social. É deste modo que se sucede a capitalização dos grandes nomes nacionais.

Álvaro Arranja destacou, ainda, Bocage “como o grande catalisador” dos movimentos republicanos e anarquistas que predominavam em Setúbal em 1905, o ano do centenário da morte de Bocage. A celebração constitui, assim, “o momento em que acontece o apego popular à figura de Bocage, que aparece como o lutador contra a tirania e pela liberdade”.

Esta homenagem resulta numa “romagem cívica” não religiosa, o que servia os interesses republicanos. Ao facto não está alheio o grande relevo de Setúbal no contexto do movimento republicano, levando a que Bocage, bastante querido pelos conterrâneos, tenha sido adoptado como uma grande figura nacional.

A comemoração do centenário de Bocage recolheu um grande relevo na imprensa nacional, que lhe consagrou as primeiras páginas, e as revistas da altura dedicaram-lhe números inteiros, algo “impensável nos dias de hoje”, considerou o historiador.

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